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Questão de Português — Sintaxe — CESPE / CEBRASPE 2021

PortuguêsSintaxe
Código
ce120279
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
IBGE
Ano
2021
Nível
Médio
Cargo
Agente de Pesquisas e Mapeamento
Texto 1A1-I

    Estou escrevendo um livro sobre a guerra...
    Eu, que nunca gostei de ler livros de guerra, ainda que, durante minha infância e juventude, essa fosse a leitura preferida de todo mundo. De todo mundo da minha idade. E isso não surpreende — éramos filhos da Vitória. Filhos dos vencedores.
    Em nossa família, meu avô, pai da minha mãe, morreu no front; minha avó, mãe do meu pai, morreu de tifo; de seus três filhos, dois serviram no Exército e desapareceram nos primeiros meses da guerra, só um voltou. Meu pai.
     Não sabíamos como era o mundo sem guerra, o mundo da guerra era o único que conhecíamos, e as pessoas da guerra eram as únicas que conhecíamos. Até agora não conheço outro mundo, outras pessoas. Por acaso existiram em algum momento?
     A vila de minha infância depois da guerra era feminina. Das mulheres. Não me lembro de vozes masculinas. Tanto que isso ficou comigo: quem conta a guerra são as mulheres. Choram. Cantam enquanto choram.
     Na biblioteca da escola, metade dos livros era sobre a guerra. Tanto na biblioteca rural quanto na do distrito, onde meu pai sempre ia pegar livros. Agora, tenho uma resposta, um porquê. Como ia ser por acaso? Estávamos o tempo todo em guerra ou nos preparando para ela. E rememorando como combatíamos. Nunca tínhamos vivido de outra forma, talvez nem saibamos como fazer isso. Não imaginamos outro modo de viver, teremos que passar um tempo aprendendo.
     Por muito tempo fui uma pessoa dos livros: a realidade me assustava e atraía. Desse desconhecimento da vida surgiu uma coragem. Agora penso: se eu fosse uma pessoa mais ligada à realidade, teria sido capaz de me lançar nesse abismo? De onde veio tudo isso: do desconhecimento? Ou foi uma intuição do caminho? Pois a intuição do caminho existe...
     Passei muito tempo procurando... Com que palavras seria possível transmitir o que escuto? Procurava um gênero que respondesse à forma como vejo o mundo, como se estruturam meus olhos, meus ouvidos.
     Uma vez, veio parar em minhas mãos o livro Eu venho de uma vila em chamas. Tinha uma forma incomum: um romance constituído a partir de vozes da própria vida, do que eu escutara na infância, do que agora se escuta na rua, em casa, no café. É isso! O círculo se fechou. Achei o que estava procurando. O que estava pressentindo.

Svetlana Aleksiévitch. A guerra não tem rosto de mulher.
Companhia das Letras, 2016, p. 9-11 (com adaptações).  
Assinale a opção em que o termo apresentado tem a mesma função sintática que “A vila de minha infância” (quinto parágrafo do texto 1A1-I).
  1. A“a leitura preferida de todo mundo” (segundo parágrafo)
  2. B“Em nossa família” (terceiro parágrafo)
  3. C“o mundo da guerra” (quarto parágrafo)
  4. D“Na biblioteca da escola” (sexto parágrafo)
  5. E“Por muito tempo” (sétimo parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — “o mundo da guerra” (quarto parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função sintática de “A vila de minha infância” — sujeito

Gabarito: letra C. O termo “A vila de minha infância” exerce função de sujeito na oração em que ocorre, e a única alternativa que apresenta termo com a mesma função sintática é “o mundo da guerra” (quarto parágrafo). A prova está no próprio texto: no quinto parágrafo, lê-se “A vila de minha infância depois da guerra era feminina” — o verbo “era” (predicativo) concorda com “A vila de minha infância”, que é o sujeito da oração. No quarto parágrafo, “o mundo da guerra era o único que conhecíamos” — “o mundo da guerra” também é sujeito de “era”. As demais alternativas trazem adjuntos adverbiais ou predicativo do sujeito, funções diferentes.

Como identificar a função sintática

Para resolver, é preciso analisar a estrutura da oração em que cada termo aparece. O sujeito é o termo sobre o qual se declara algo; ele concorda com o verbo e, em geral, vem antes do predicado. Já o adjunto adverbial indica circunstância (tempo, lugar, modo etc.) e pode ser retirado sem prejuízo da estrutura nuclear. O predicativo do sujeito caracteriza o sujeito após verbo de ligação.

No trecho original, a oração é:

“A vila de minha infância depois da guerra era feminina.”

Aqui, “A vila de minha infância” é o sujeito; “depois da guerra” é adjunto adverbial de tempo; “era feminina” é o predicado nominal, com “feminina” como predicativo do sujeito. O verbo “era” concorda com o núcleo “vila” (3ª pessoa do singular), o que confirma a função de sujeito.

Alternativa A — ❌ Incorreta

“a leitura preferida de todo mundo” (segundo parágrafo)

No trecho “essa fosse a leitura preferida de todo mundo”, o termo “a leitura preferida de todo mundo” é predicativo do sujeito (o sujeito é “essa”, referindo-se à leitura de livros de guerra). Não é sujeito. Erro: troca de função sintática — a banca oferece um termo que também é um sintagma nominal, mas com função diferente.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“Em nossa família” (terceiro parágrafo)

“Em nossa família” é um adjunto adverbial de lugar (indica onde ocorreu a morte do avô). Não é sujeito. Erro: confunde adjunto adverbial com sujeito — a banca aposta na aparência de sintagma preposicionado.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“o mundo da guerra” (quarto parágrafo)

No trecho “o mundo da guerra era o único que conhecíamos”, “o mundo da guerra” é o sujeito de “era”. O verbo “era” concorda com o núcleo “mundo” (3ª pessoa do singular). Exatamente a mesma função sintática do termo destacado no enunciado. Correta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“Na biblioteca da escola” (sexto parágrafo)

“Na biblioteca da escola” é adjunto adverbial de lugar (indica onde havia livros sobre a guerra). Não é sujeito. Erro: confunde adjunto adverbial com sujeito — mesma armadilha da alternativa B.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“Por muito tempo” (sétimo parágrafo)

“Por muito tempo” é adjunto adverbial de tempo (indica duração). Não é sujeito. Erro: confunde adjunto adverbial com sujeito — mais uma vez, a banca oferece uma locução adverbial.

Tabela-resumo

Termo

Função sintática

A vila de minha infância

Sujeito

a leitura preferida de todo mundo

Predicativo do sujeito

Em nossa família

Adjunto adverbial de lugar

o mundo da guerra

Sujeito

Na biblioteca da escola

Adjunto adverbial de lugar

Por muito tempo

Adjunto adverbial de tempo

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a semelhança superficial entre sintagmas nominais e locuções adverbiais. Para não cair, pergunte sempre: “quem pratica a ação?” — se o termo responde a essa pergunta e concorda com o verbo, é sujeito; se indica circunstância (tempo, lugar, modo), é adjunto adverbial.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar a função sintática, identifique primeiro o verbo e depois pergunte “quem?” ou “o quê?” antes dele. Se a resposta for o termo em questão, ele é o sujeito. Essa técnica resolve a maioria das questões de função sintática.

Gabarito: letra C.

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