Questão de Português — Pontuação — CESPE / CEBRASPE 2021
Português›Pontuação
Código
ce120280
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
IBGE
Ano
2021
Nível
Médio
Cargo
Agente de Pesquisas e Mapeamento
Texto 1A1-I
Estou escrevendo um livro sobre a guerra...
Eu, que nunca gostei de ler livros de guerra, ainda que,
durante minha infância e juventude, essa fosse a leitura preferida
de todo mundo. De todo mundo da minha idade. E isso não
surpreende — éramos filhos da Vitória. Filhos dos vencedores.
Em nossa família, meu avô, pai da minha mãe, morreu no
front; minha avó, mãe do meu pai, morreu de tifo; de seus três
filhos, dois serviram no Exército e desapareceram nos primeiros
meses da guerra, só um voltou. Meu pai.
Não sabíamos como era o mundo sem guerra, o mundo da
guerra era o único que conhecíamos, e as pessoas da guerra eram
as únicas que conhecíamos. Até agora não conheço outro mundo,
outras pessoas. Por acaso existiram em algum momento?
A vila de minha infância depois da guerra era feminina.
Das mulheres. Não me lembro de vozes masculinas. Tanto que
isso ficou comigo: quem conta a guerra são as mulheres.
Choram. Cantam enquanto choram.
Na biblioteca da escola, metade dos livros era sobre a
guerra. Tanto na biblioteca rural quanto na do distrito, onde meu
pai sempre ia pegar livros. Agora, tenho uma resposta, um
porquê. Como ia ser por acaso? Estávamos o tempo todo em
guerra ou nos preparando para ela. E rememorando como
combatíamos. Nunca tínhamos vivido de outra forma, talvez nem
saibamos como fazer isso. Não imaginamos outro modo de viver,
teremos que passar um tempo aprendendo.
Por muito tempo fui uma pessoa dos livros: a realidade
me assustava e atraía. Desse desconhecimento da vida surgiu
uma coragem. Agora penso: se eu fosse uma pessoa mais ligada à
realidade, teria sido capaz de me lançar nesse abismo? De onde
veio tudo isso: do desconhecimento? Ou foi uma intuição do
caminho? Pois a intuição do caminho existe...
Passei muito tempo procurando... Com que palavras seria
possível transmitir o que escuto? Procurava um gênero que
respondesse à forma como vejo o mundo, como se estruturam
meus olhos, meus ouvidos.
Uma vez, veio parar em minhas mãos o livro Eu venho
de uma vila em chamas. Tinha uma forma incomum: um
romance constituído a partir de vozes da própria vida, do que eu
escutara na infância, do que agora se escuta na rua, em casa, no
café. É isso! O círculo se fechou. Achei o que estava procurando.
O que estava pressentindo.
Svetlana Aleksiévitch.A guerra não tem rosto de mulher.
Companhia das Letras, 2016, p. 9-11 (com adaptações).
Com relação à pontuação, a correção gramatical do texto 1A1-I seria mantida se
Ao travessão fosse substituído por vírgula, em “E isso não surpreende — éramos filhos da Vitória” (segundo parágrafo).
Bfosse inserida uma vírgula após “vida”, em “Desse desconhecimento da vida surgiu uma coragem” (sétimo parágrafo).
Cfosse inserida uma vírgula após “Pois”, em “Pois a intuição do caminho existe” (sétimo parágrafo).
Dfosse inserida uma vírgula após “infância”, em “A vila de minha infância depois da guerra era feminina” (quinto parágrafo).
Ea vírgula logo após “mãe” fosse substituída por travessão, em “Em nossa família, meu avô, pai da minha mãe, morreu no front” (terceiro parágrafo).
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GabaritoA — o travessão fosse substituído por vírgula, em “E isso não surpreende — éramos filhos da Vitória” (segundo parágrafo).
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Pontuação: substituição de travessão por vírgula
Gabarito: letra A. A substituição do travessão por vírgula em “E isso não surpreende — éramos filhos da Vitória” mantém a correção gramatical porque o travessão, nesse trecho, isola uma oração intercalada (ou um aposto explicativo), função que a vírgula também pode exercer. A banca cobra o conhecimento de que travessão e vírgula são intercambiáveis em certos contextos, desde que a estrutura sintática seja preservada.
A questão é de reescrita com manutenção da correção gramatical: o candidato deve avaliar, em cada alternativa, se a alteração proposta respeita as regras de pontuação, especialmente os casos de uso obrigatório, facultativo e proibido da vírgula. Vamos analisar cada trecho.
Pontuação: vírgula × travessão
1Intercambiáveis
Isolam oração intercalada
Isolam aposto explicativo
2Vírgula proibida
Entre sujeito e verbo
Entre verbo e complemento
Após conjunção (pois, mas)
Quebrar par de vírgulas do aposto
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
No trecho “E isso não surpreende — éramos filhos da Vitória”, o travessão introduz uma explicação (uma oração que comenta a afirmação anterior). Essa é uma função típica do travessão, mas também da vírgula, que pode isolar orações intercaladas ou explicativas. Veja o trecho original:
“E isso não surpreende — éramos filhos da Vitória”
Aqui, “éramos filhos da Vitória” é uma oração que explica o porquê de “isso não surpreender”. O travessão funciona como um parêntese ou intercalação. A vírgula, nesse caso, cumpre exatamente a mesma função: isolar a oração explicativa. Portanto, a substituição é gramaticalmente correta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Inserir vírgula após “vida” em “Desse desconhecimento da vida surgiu uma coragem” separaria o sujeito (“Desse desconhecimento da vida”) do verbo (“surgiu”). Isso é proibido pela norma culta: não se separa sujeito de verbo com vírgula. O trecho original:
“Desse desconhecimento da vida surgiu uma coragem”
A estrutura é: sujeito = “Desse desconhecimento da vida” (locução prepositiva + núcleo “desconhecimento” + complemento “da vida”), verbo = “surgiu”. A vírgula entre eles quebraria a coesão sintática, tornando o período incorreto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Inserir vírgula após “Pois” em “Pois a intuição do caminho existe” separaria a conjunção “Pois” do restante da oração. Conjunções coordenativas (como “pois”, “mas”, “portanto”) não podem ser separadas de seu complemento por vírgula, a menos que estejam deslocadas (o que não é o caso). O trecho:
“Pois a intuição do caminho existe”
Aqui, “Pois” inicia a oração e não pode ser isolado. A vírgula após “Pois” criaria uma pausa indevida, quebrando a relação lógica entre a conjunção e a oração que ela introduz.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Inserir vírgula após “infância” em “A vila de minha infância depois da guerra era feminina” separaria o adjunto adnominal “de minha infância” do núcleo “vila”, e também separaria o sujeito composto do verbo. O trecho:
“A vila de minha infância depois da guerra era feminina”
A estrutura é: sujeito = “A vila de minha infância depois da guerra” (núcleo “vila” + adjuntos “de minha infância” e “depois da guerra”), verbo = “era”. A vírgula após “infância” separaria o adjunto adnominal do núcleo, o que é proibido. Além disso, separaria o sujeito do verbo, outra violação.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Substituir a vírgula após “mãe” por travessão em “Em nossa família, meu avô, pai da minha mãe, morreu no front” quebraria o par de vírgulas que isolam o aposto “pai da minha mãe”. O trecho:
“Em nossa família, meu avô, pai da minha mãe, morreu no front”
Aqui, “pai da minha mãe” é um aposto explicativo do sujeito “meu avô”. Para isolar um aposto, usam-se dois sinais iguais (vírgula-vírgula, travessão-travessão, parênteses). Se substituirmos apenas a primeira vírgula por travessão, ficaria “meu avô — pai da minha mãe, morreu no front”, o que é incorreto, pois o segundo sinal (vírgula) não fecha o par. A substituição deve ser feita nos dois lados, ou manter as duas vírgulas.
NÃO CAIA NESSA!
A banca testa se o candidato sabe que travessão e vírgula podem ser intercambiáveis para isolar orações intercaladas, mas que a vírgula é proibida entre sujeito e verbo, entre verbo e complemento, e entre conjunção e seu complemento.
PEGA ESSA DICA!
Ao avaliar substituições de pontuação, verifique sempre se a estrutura sintática é preservada. Pergunte: “A vírgula separa termos que não podem ser separados?”. Se sim, a alternativa está errada.