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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2021

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce120286
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
IBGE
Ano
2021
Nível
Médio
Cargo
Agente de Pesquisas e Mapeamento
Texto 1A1-I

    Estou escrevendo um livro sobre a guerra...
    Eu, que nunca gostei de ler livros de guerra, ainda que, durante minha infância e juventude, essa fosse a leitura preferida de todo mundo. De todo mundo da minha idade. E isso não surpreende — éramos filhos da Vitória. Filhos dos vencedores.
    Em nossa família, meu avô, pai da minha mãe, morreu no front; minha avó, mãe do meu pai, morreu de tifo; de seus três filhos, dois serviram no Exército e desapareceram nos primeiros meses da guerra, só um voltou. Meu pai.
     Não sabíamos como era o mundo sem guerra, o mundo da guerra era o único que conhecíamos, e as pessoas da guerra eram as únicas que conhecíamos. Até agora não conheço outro mundo, outras pessoas. Por acaso existiram em algum momento?
     A vila de minha infância depois da guerra era feminina. Das mulheres. Não me lembro de vozes masculinas. Tanto que isso ficou comigo: quem conta a guerra são as mulheres. Choram. Cantam enquanto choram.
     Na biblioteca da escola, metade dos livros era sobre a guerra. Tanto na biblioteca rural quanto na do distrito, onde meu pai sempre ia pegar livros. Agora, tenho uma resposta, um porquê. Como ia ser por acaso? Estávamos o tempo todo em guerra ou nos preparando para ela. E rememorando como combatíamos. Nunca tínhamos vivido de outra forma, talvez nem saibamos como fazer isso. Não imaginamos outro modo de viver, teremos que passar um tempo aprendendo.
     Por muito tempo fui uma pessoa dos livros: a realidade me assustava e atraía. Desse desconhecimento da vida surgiu uma coragem. Agora penso: se eu fosse uma pessoa mais ligada à realidade, teria sido capaz de me lançar nesse abismo? De onde veio tudo isso: do desconhecimento? Ou foi uma intuição do caminho? Pois a intuição do caminho existe...
     Passei muito tempo procurando... Com que palavras seria possível transmitir o que escuto? Procurava um gênero que respondesse à forma como vejo o mundo, como se estruturam meus olhos, meus ouvidos.
     Uma vez, veio parar em minhas mãos o livro Eu venho de uma vila em chamas. Tinha uma forma incomum: um romance constituído a partir de vozes da própria vida, do que eu escutara na infância, do que agora se escuta na rua, em casa, no café. É isso! O círculo se fechou. Achei o que estava procurando. O que estava pressentindo.

Svetlana Aleksiévitch. A guerra não tem rosto de mulher.
Companhia das Letras, 2016, p. 9-11 (com adaptações).  
Infere-se do texto 1A1-I que
  1. Aa vila da infância da escritora era feminina porque todos os homens morreram lutando na guerra.
  2. Bo pai da escritora contava para ela as histórias que viveu na guerra.
  3. Cas mulheres da vila, embora fossem tristes, cantavam músicas para se distrair.
  4. Da escritora desejava, desde criança, viver em um mundo onde não havia guerra.
  5. Eo país da escritora venceu a referida guerra, ainda que muitos dos homens da sua família tenham morrido.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — o país da escritora venceu a referida guerra, ainda que muitos dos homens da sua família tenham morrido.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência a partir do texto sobre a guerra

Gabarito: letra E. O texto afirma que "éramos filhos da Vitória. Filhos dos vencedores", indicando que o país venceu a guerra, e relata a morte de vários familiares homens (avô, dois tios desaparecidos). A alternativa E é a única que reúne essas duas informações, sendo uma inferência diretamente ancorada no texto.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A letra A afirma que "todos os homens morreram", mas o texto menciona que o pai da escritora voltou da guerra: "de seus três filhos, dois serviram no Exército e desapareceram nos primeiros meses da guerra, só um voltou. Meu pai." Portanto, a expressão "todos" é uma generalização indevida (extrapolação).

Alternativa B — ❌ Incorreta

Não há nenhuma passagem que diga que o pai contava histórias da guerra. Pelo contrário, o texto diz: "quem conta a guerra são as mulheres". A alternativa B extrapola ao inventar uma ação não mencionada.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O texto registra que as mulheres "Choram. Cantam enquanto choram", mas não afirma que cantam "para se distrair" nem que são "tristes" (a tristeza é inferida, mas a finalidade da cantoria não). A alternativa acrescenta opinião sem base textual.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A escritora declara que "nunca gostei de ler livros de guerra", mas isso não equivale a desejar, desde criança, um mundo sem guerra. O texto mostra que ela "não sabia como era o mundo sem guerra". A alternativa extrapola um sentimento que não está explicitado.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O texto é claro: "éramos filhos da Vitória. Filhos dos vencedores" (vitória do país) e relata a perda de muitos homens da família (avô, dois tios). A alternativa E é uma inferência legítima – liga a vitória ao alto número de mortes, sem acrescentar nada que o texto não sustente.

Gabarito: letra E

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