Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2021
Português›Interpretação de Textos
Código
ce120287
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
IBGE
Ano
2021
Nível
Médio
Cargo
Agente de Pesquisas e Mapeamento
Texto 1A1-I
Estou escrevendo um livro sobre a guerra...
Eu, que nunca gostei de ler livros de guerra, ainda que,
durante minha infância e juventude, essa fosse a leitura preferida
de todo mundo. De todo mundo da minha idade. E isso não
surpreende — éramos filhos da Vitória. Filhos dos vencedores.
Em nossa família, meu avô, pai da minha mãe, morreu no
front; minha avó, mãe do meu pai, morreu de tifo; de seus três
filhos, dois serviram no Exército e desapareceram nos primeiros
meses da guerra, só um voltou. Meu pai.
Não sabíamos como era o mundo sem guerra, o mundo da
guerra era o único que conhecíamos, e as pessoas da guerra eram
as únicas que conhecíamos. Até agora não conheço outro mundo,
outras pessoas. Por acaso existiram em algum momento?
A vila de minha infância depois da guerra era feminina.
Das mulheres. Não me lembro de vozes masculinas. Tanto que
isso ficou comigo: quem conta a guerra são as mulheres.
Choram. Cantam enquanto choram.
Na biblioteca da escola, metade dos livros era sobre a
guerra. Tanto na biblioteca rural quanto na do distrito, onde meu
pai sempre ia pegar livros. Agora, tenho uma resposta, um
porquê. Como ia ser por acaso? Estávamos o tempo todo em
guerra ou nos preparando para ela. E rememorando como
combatíamos. Nunca tínhamos vivido de outra forma, talvez nem
saibamos como fazer isso. Não imaginamos outro modo de viver,
teremos que passar um tempo aprendendo.
Por muito tempo fui uma pessoa dos livros: a realidade
me assustava e atraía. Desse desconhecimento da vida surgiu
uma coragem. Agora penso: se eu fosse uma pessoa mais ligada à
realidade, teria sido capaz de me lançar nesse abismo? De onde
veio tudo isso: do desconhecimento? Ou foi uma intuição do
caminho? Pois a intuição do caminho existe...
Passei muito tempo procurando... Com que palavras seria
possível transmitir o que escuto? Procurava um gênero que
respondesse à forma como vejo o mundo, como se estruturam
meus olhos, meus ouvidos.
Uma vez, veio parar em minhas mãos o livro Eu venho
de uma vila em chamas. Tinha uma forma incomum: um
romance constituído a partir de vozes da própria vida, do que eu
escutara na infância, do que agora se escuta na rua, em casa, no
café. É isso! O círculo se fechou. Achei o que estava procurando.
O que estava pressentindo.
Svetlana Aleksiévitch.A guerra não tem rosto de mulher.
Companhia das Letras, 2016, p. 9-11 (com adaptações).
Depreende-se do texto 1A1-I que um dos motivos que levou à escrita desse livro foi o fato de que
Aa pessoa que o escreveu nunca gostou de livros sobre guerra
Ba pessoa que o escreveu desejava contar ao mundo os horrores de uma guerra.
Ca leitura sobre guerra era a preferida de todo mundo daquela época.
Do mundo da guerra era o único que a pessoa que o escreveu conhecia.
Epor acaso, a realidade do mundo à época era a da guerra.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — o mundo da guerra era o único que a pessoa que o escreveu conhecia.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O motivo da escrita do livro: o mundo da guerra como único conhecido
Gabarito: letra D. A questão pede uma inferência (o verbo "depreende-se") sobre o motivo que levou à escrita do livro. A única alternativa que encontra apoio direto no texto é a D, pois a autora afirma que "o mundo da guerra era o único que conhecíamos" — e é exatamente essa vivência exclusiva que a impulsiona a escrever sobre a guerra. As demais alternativas ou repetem informações literais sem relação com o motivo, ou extrapolam o que o texto diz.
A chave de resolução
O comando "depreende-se" indica que a resposta não está literalmente escrita, mas deve ser deduzida a partir de pistas do texto. A pergunta é: qual foi o motivo que levou à escrita do livro? Para responder, precisamos localizar no texto as passagens em que a autora explica sua relação com a guerra e com a escrita.
No segundo parágrafo, lemos:
"Não sabíamos como era o mundo sem guerra, o mundo da guerra era o único que conhecíamos, e as pessoas da guerra eram as únicas que conhecíamos. Até agora não conheço outro mundo, outras pessoas."
Essa passagem é a âncora da alternativa D. A autora diz que só conhece o mundo da guerra — e é justamente esse conhecimento exclusivo, essa vivência única, que a leva a escrever o livro. Ela não conhece outro mundo, então escreve sobre o único que conhece.
Além disso, no final do texto, ela explica que procurava um gênero que respondesse "à forma como vejo o mundo, como se estruturam meus olhos, meus ouvidos". Ou seja, a escrita do livro nasce da necessidade de expressar a realidade que ela conhece — e essa realidade é a da guerra.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "a pessoa que o escreveu nunca gostou de livros sobre guerra". Isso é verdade no texto — a autora diz "Eu, que nunca gostei de ler livros de guerra" — mas não é o motivo da escrita. O texto não diz que ela escreveu o livro porque não gostava desses livros; pelo contrário, ela escreve porque a guerra é a realidade que conhece. A alternativa tangencia o texto: repete uma informação verdadeira, mas fora do escopo da pergunta (o motivo).
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "a pessoa que o escreveu desejava contar ao mundo os horrores de uma guerra". O texto não menciona o desejo de contar horrores. A autora fala em transmitir "o que escuto", em encontrar um gênero que responda à sua visão de mundo, mas não há nenhuma passagem sobre "horrores" ou sobre "contar ao mundo". Essa alternativa extrapola: acrescenta uma intenção que não está no texto, ainda que possa parecer plausível no mundo real.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "a leitura sobre guerra era a preferida de todo mundo daquela época". O texto diz: "essa fosse a leitura preferida de todo mundo. De todo mundo da minha idade." A alternativa restringe o alcance: o texto fala de "todo mundo da minha idade", não de "todo mundo daquela época" em geral. Além disso, assim como a A, essa é uma informação literal que não responde ao motivo da escrita — é apenas um dado do contexto, não a causa do livro.
Alternativa D — ✅ Correta
A alternativa afirma que "o mundo da guerra era o único que a pessoa que o escreveu conhecia". Isso está explicitamente no texto:
"o mundo da guerra era o único que conhecíamos, e as pessoas da guerra eram as únicas que conhecíamos. Até agora não conheço outro mundo, outras pessoas."
Essa é a base do motivo: a autora escreve sobre a guerra porque é o único mundo que conhece. A alternativa é uma paráfrase fiel do trecho, e é a única que responde diretamente à pergunta sobre o motivo da escrita.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "por acaso, a realidade do mundo à época era a da guerra". O texto nega o acaso: "Como ia ser por acaso? Estávamos o tempo todo em guerra ou nos preparando para ela." A autora descarta a ideia de que a guerra fosse um acaso — ela era uma condição constante. A alternativa contradiz o texto ao atribuir ao acaso o que o texto apresenta como uma realidade estrutural.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura informações verdadeiras (A, C) com o motivo pedido. A correta (D) é a única que responde ao "porquê" da escrita, ancorada na passagem do segundo parágrafo. Cuidado com alternativas que repetem o texto mas não respondem à pergunta.
PEGA ESSA DICA!
Grife o comando — "depreende-se" pede inferência com pista, não apenas localização literal. Pergunte sempre: "isto responde ao que foi perguntado?" antes de marcar.