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Questão de Português — Funções morfossintáticas da palavra QUE — CESPE / CEBRASPE 2021

PortuguêsFunções morfossintáticas da palavra QUE
Código
ce121209
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
PC-DF
Ano
2021
Nível
Superior
Cargo
Agente de Polícia da Carreira de Polícia Civil do Distrito Federal

Texto CBIA2-I


    Nossos ancestrais dedicaram muito tempo e esforço a tentar descobrir as regras que governam o mundo natural. Mas a ciência moderna difere de todas as tradições de conhecimento anteriores em três aspectos cruciais: a disposição para admitir ignorância, o lugar central da observação e da matemática e a aquisição de novas capacidades.

     A Revolução Científica não foi uma revolução do conhecimento. Foi, acima de tudo, uma revolução da ignorância. A grande descoberta que deu início à Revolução Científica foi a de que os humanos não têm as respostas para suas perguntas mais importantes. Tradições de conhecimento pré-modernas como o islamismo, o cristianismo, o budismo e o confucionismo afirmavam que tudo que é importante saber a respeito do mundo já era conhecido. As antigas tradições de conhecimento só admitiam dois tipos de ignorância. Em primeiro lugar, um indivíduo podia ignorar algo importante. Para obter o conhecimento necessário, tudo que ele precisava fazer era perguntar a alguém mais sábio. Não havia necessidade de descobrir algo que qualquer pessoa já não soubesse. Em segundo lugar, uma tradição inteira podia ignorar coisas sem importância. Por definição, o que quer que os grandes deuses ou os sábios do passado não tenham se dado ao trabalho de nos contar não era importante. 

     [...]

    A ciência de nossos dias é uma tradição de conhecimento peculiar, visto que admite abertamente a ignorância coletiva a respeito da maioria das questões importantes. Darwin nunca afirmou ser “o último dos biólogos” e ter decifrado o enigma da vida de uma vez por todas. Depois de séculos de pesquisas científicas, os biólogos admitem que ainda não têm uma boa explicação para como o cérebro gera consciência, por exemplo. Os físicos admitem que não sabem o que causou o Big Bang, que não sabem como conciliar a mecânica quântica com a Teoria Geral da Relatividade.

    [...] 

    A disposição para admitir ignorância tornou a ciência moderna mais dinâmica, versátil e indagadora do que todas as tradições de conhecimento anteriores.  Isso expandiu enormemente nossa capacidade de entender como o mundo funciona e nossa habilidade de inventar novas tecnologias, mas nos coloca diante de um problema sério que a maioria dos nossos ancestrais não precisou enfrentar. Nosso pressuposto atual de que não sabemos tudo e de que até mesmo o conhecimento que temos é provisório se estende aos mitos partilhados que possibilitam que milhões de estranhos cooperem de maneira eficaz. Se as evidências mostrarem que muitos desses mitos são duvidosos, como manter a sociedade unida? Como fazer com que as comunidades, os países e o sistema internacional funcionem?   

    [...]

    Uma das coisas que tornaram possível que as ordens sociais modernas se mantivessem coesas é a disseminação de uma crença quase religiosa na tecnologia e nos métodos da pesquisa científica, que, em certa medida, substituiu a crença em verdades absolutas.


Yuval Noah Harari. Sapiens: uma breve história da humanidade. 26.º ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2017,p. 261-263 (comadaptações).

No que se refere aos aspectos linguísticos do texto CBIA2-I, julgue o item subsequente.No trecho “A ciência de nossos dias é uma tradição de conhecimento peculiar, visto que admite abertamente a ignorância coletiva” (terceiro parágrafo), o vocábulo “que” classifica-se como pronome e retoma “A ciência de nossos dias”.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função do vocábulo "que" no trecho "visto que"

Gabarito: Errado (E). O vocábulo "que" em "visto que" não é pronome e não retoma "A ciência de nossos dias". Trata-se de parte da locução conjuntiva causal "visto que", que equivale a "já que", "porque". A afirmação do item classifica equivocadamente essa partícula como pronome relativo, quando na verdade ela integra uma conjunção subordinativa.

Análise do trecho

“A ciência de nossos dias é uma tradição de conhecimento peculiar, visto que admite abertamente a ignorância coletiva”

  • "visto que" é uma locução conjuntiva que introduz uma oração subordinada adverbial causal. O termo "que" sozinho não retoma nenhum antecedente; ele é parte indissociável da conjunção.

  • Para que "que" fosse pronome relativo, deveria retomar um termo anterior e introduzir uma oração subordinada adjetiva (ex.: "A ciência que é peculiar..."). Não é o caso.

Erro cometido pela banca na assertiva

“o vocábulo “que” classifica-se como pronome e retoma “A ciência de nossos dias”

A afirmação troca o conceito: confunde a conjunção integrante da locução "visto que" com o pronome relativo. O "que" em "visto que" não exerce função sintática própria e não se refere a termo anterior — ele é mero componente da conjunção.

"que" em "visto que"
  • 1Locução conjuntiva causal
    • "visto que" = "já que", "porque"
    • Oração subordinada adverbial causal
  • 2Não é pronome relativo
    • Não retoma antecedente
    • Não equivale a "o qual"
    • Não exerce função sintática própria
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NÃO CAIA NESSA!

Tentar analisar o "que" isoladamente, ignorando a locução "visto que". Em provas, a banca adora testar se o candidato reconhece quando "que" faz parte de uma conjunção (como "visto que", "já que", "uma vez que") em vez de ser pronome relativo.

PEGA ESSA DICA!

Sempre que aparecer "visto que", "já que", "uma vez que", "desde que", "contanto que", o "que" é parte de conjunção — jamais pronome. Só classifique como pronome relativo se houver um antecedente claro e o "que" puder ser substituído por "o qual" (e flexões).

Gabarito: E

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