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Questão de Português — Sintaxe — CESPE / CEBRASPE 2021

PortuguêsSintaxe
Código
ce124227
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEDUC-AL
Ano
2021
Nível
Superior
Cargo
Professor - Português

Texto 14A1-I


    As línguas são, de certo ponto de vista, totalmente equivalentes quanto ao que podem expressar, e o fazem com igual facilidade (embora lançando mão de recursos bem diferentes). Entretanto, dois fatores dificultam a aplicação de algumas línguas a certos assuntos: um, objetivo, a deficiência de vocabulário; outro, subjetivo, a existência de preconceitos.

    É preciso saber distinguir claramente os méritos de uma língua dos méritos (culturais, científicos ou literários) daquilo que ela serve para expressar. Por exemplo, se a literatura francesa é particularmente importante, isso não quer dizer que a língua francesa seja superior às outras línguas para a expressão literária. O desenvolvimento de uma literatura é decorrência de fatores históricos independentes da estrutura da língua; a qualidade da literatura francesa diz algo dos méritos da cultura dos povos de língua francesa, não de uma imaginária vantagem literária de se utilizar o francês como veículo de expressão. Victor Hugo poderia ter sido tão importante quanto foi mesmo se falasse outra língua — desde que pertencesse a uma cultura equivalente, em grau de adiantamento, riqueza de tradição intelectual etc., à cultura francesa de seu tempo.

    Igualmente, sabe-se que a maior fonte de trabalhos científicos da contemporaneidade são as instituições e os pesquisadores norte-americanos; isso fez do inglês a língua científica internacional. Todavia, se os fatores históricos que produziram a supremacia científica norte-americana se tivessem verificado, por exemplo, na Holanda, o holandês nos estaria servindo exatamente tão bem quanto o inglês o faz agora. Não há no inglês traços estruturais intrínsecos que o façam superior ao holandês como língua adequada à expressão de conceitos científicos.

    Não se conhece caso em que o desenvolvimento da superioridade literária ou científica de um povo possa ser claramente atribuído à qualidade da língua desse povo. Ao contrário, as grandes literaturas e os grandes movimentos científicos surgem nas grandes nações (as mais ricas, as mais livres de restrições ao pensamento e também — ai de nós! — as mais poderosas política e militarmente). O desenvolvimento dos diversos aspectos materiais e culturais de uma nação se dá mais ou menos harmoniosamente; a ciência e a arte são também produtos da riqueza e da estabilidade de uma sociedade.

    O maior perigo que correm as línguas, hoje em dia, é o de não desenvolverem vocabulário técnico e científico suficiente para acompanhar a corrida tecnológica. Se a defasagem chegar a ser muito grande, os próprios falantes acabarão optando por utilizar uma língua estrangeira ao tratarem de assuntos científicos e técnicos.


Mário A. Perini. O rock português (a melhor língua para fazer ciência). In: Ciência Hoje, 1994 (com adaptações). 

Considerando os sentidos e os aspectos linguísticos do texto 14A1-I, julgue o item a seguir.No primeiro período do terceiro parágrafo, o termo “que” introduz uma oração subordinada adjetiva restritiva que predica a oração principal do período, atribuindo-lhe uma qualidade.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Análise sintática do "que" no terceiro parágrafo

Gabarito: ERRADO. O item está errado porque o "que" do primeiro período do terceiro parágrafo não introduz oração subordinada adjetiva restritiva — ele é uma conjunção integrante, que introduz uma oração subordinada substantiva subjetiva. A afirmação também erra ao dizer que a oração "predica a oração principal, atribuindo-lhe uma qualidade": a oração introduzida por "que" exerce função de sujeito, não de predicativo.

O trecho em questão

"Igualmente, sabe-se que a maior fonte de trabalhos científicos da contemporaneidade são as instituições e os pesquisadores norte-americanos; isso fez do inglês a língua científica internacional."

A oração "que a maior fonte de trabalhos científicos..." é o sujeito do verbo "sabe-se" (na voz passiva pronominal, "sabe-se" = "é sabido"). Para confirmar, basta substituir a oração por "isso": "sabe-se isso". Essa é a prova clássica de oração subordinada substantiva subjetiva — não adjetiva.

Por que não é adjetiva restritiva?

Oração subordinada adjetiva é introduzida por pronome relativo e exerce função de adjunto adnominal de um substantivo da oração principal (ex.: "O aluno que estuda passa"). No trecho, o "que" não retoma nenhum substantivo anterior — ele apenas conecta a oração ao verbo "sabe-se", funcionando como conjunção integrante. Não há, portanto, valor de adjetivo nem restrição de sentido.

O erro de "predica a oração principal"

O verbo "predicar" remete ao predicativo (qualidade atribuída ao sujeito). A oração em questão não atribui qualidade a nada: ela é o sujeito do verbo "sabe-se". A banca misturou dois conceitos: oração adjetiva (que qualifica um nome) e predicativo (que qualifica o sujeito). Nenhum dos dois se aplica aqui.

Conclusão

O item é ERRADO porque classifica incorretamente a oração (adjetiva restritiva em vez de substantiva subjetiva) e atribui função de predicado a uma oração que, na verdade, é o sujeito.

1Conjunção integrante
Oração subordinada substantiva subjetiva
Prova: "sabe-se isso"
2Não é pronome relativo
Não retoma substantivo anterior
Não é oração adjetiva
3Função sintática
Sujeito de "sabe-se"
Não é predicativo
"Que" no período
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"Que" no período: Conjunção integrante (Oração subordinada substantiva subjetiva, Prova: "sabe-se isso"); Não é pronome relativo (Não retoma substantivo anterior, Não é oração adjetiva); Função sintática (Sujeito de "sabe-se", Não é predicativo)
PEGA ESSA DICA!

Para distinguir "que" conjunção integrante de "que" pronome relativo, tente substituir a oração por "isso" (integrante) ou verifique se o "que" retoma um termo anterior (relativo). No caso, "sabe-se que..." = "sabe-se isso" → substantiva subjetiva.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre oração adjetiva (que qualifica um nome) e oração substantiva (que exerce função de sujeito/objeto). O termo "predica" é o chamariz para você pensar em predicativo, mas a função real é de sujeito.

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