Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho
e realço a minha mediocridade; advirto que a franqueza é a
primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o
contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a
calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a
não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o
melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros,
embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se
o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um
vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo!
Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao
fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se,
confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em
suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem
conhecidos, nem estranhos; não há plateia. O olhar da opinião,
esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o
território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos
não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame
nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão
incomensurável como o desdém dos finados.
Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ciranda Cultural, 2018. p.
49.
No texto 15A2-II, o narrador utiliza majoritariamente verbos flexionados no tempo
Apretérito perfeito.
Bpresente.
Cpretérito imperfeito.
Dfuturo do pretérito.
Efuturo do presente.
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GabaritoB — presente.
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Predominância do tempo presente no texto de Machado de Assis
Gabarito: letra B. O narrador utiliza majoritariamente verbos flexionados no presente do indicativo, como se comprova pela sequência de formas verbais que estruturam o raciocínio: “Talvez espante”, “advirto”, “é”, “obrigam”, “poupa-se”, “há”, “pisamos”, “não se nos dá”. A questão é de morfologia verbal aplicada ao texto: basta observar a terminação e o valor temporal das formas para constatar que o presente predomina.
O trecho é o célebre início de Memórias póstumas de Brás Cubas, em que o defunto-autor discorre sobre a liberdade que a morte lhe concede. O presente é o tempo da reflexão atemporal — o narrador não conta fatos passados, mas expõe uma verdade geral sobre a condição dos mortos. Por isso, a maioria dos verbos está no presente do indicativo, e não no pretérito.
Alternativa A — ❌ Incorreta
O pretérito perfeito indica ação concluída no passado. No texto, há apenas uma forma nítida desse tempo: “pisamos” (pretérito perfeito de pisar). As demais formas — “espante”, “advirto”, “é”, “obrigam”, “poupa-se”, “há” — são todas do presente. A alternativa generaliza uma ocorrência isolada e a transforma em predominância, o que o texto não autoriza.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O presente do indicativo é o tempo predominante. Veja a cadeia de verbos que sustenta o raciocínio do narrador:
“Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirto que a franqueza é a primeira virtude de um defunto.”
“o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos”
“poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo.”
“já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos”
“logo que pisamos o território da morte”
“a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento”
Todas essas formas estão no presente do indicativo. O valor é de verdade atemporal — o narrador enuncia uma reflexão que vale para sempre, não um fato pontual do passado. É exatamente o uso clássico do presente: o “presente eterno” das verdades gerais.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O pretérito imperfeito indica ação habitual ou contínua no passado. No texto, não há nenhuma forma desse tempo — nenhum verbo terminado em -va, -ia ou -inha (como falava, comia, tinha). A alternativa contradiz o texto, pois atribui ao trecho um tempo que simplesmente não ocorre.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O futuro do pretérito (condicional) expressa hipótese ou consequência de uma condição não realizada. Não há nenhuma forma como “seria”, “faria”, “haveria” no texto. A alternativa extrapola — inventa um tempo que não está presente no trecho.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O futuro do presente indica fato certo posterior ao momento da fala. Não há formas como “será”, “fará”, “haverá” no texto. A alternativa também extrapola, pois nenhum verbo está flexionado nesse tempo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o presente e o pretérito perfeito. O verbo “pisamos” pode ser lido como pretérito perfeito (1ª pessoa do plural), mas no contexto é presente do indicativo — o narrador afirma que, “logo que pisamos o território da morte”, o olhar da opinião perde a virtude. A forma é idêntica nos dois tempos, e só o contexto decide. Quem marcou a letra A caiu nessa armadilha.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar o tempo predominante, sublinhe todos os verbos do texto e classifique-os um a um. Não se deixe levar por uma única forma ambígua — a questão pede a maioria, e a maioria aqui é claramente presente.