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Questão de Português — Morfologia — CESPE / CEBRASPE 2021

PortuguêsMorfologia
Código
ce130955
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
APEX Brasil
Ano
2021
Nível
Superior

Texto CB1A1-I


     Durante um seminário sobre a antropologia do dinheiro ministrado na Escola de Economia e Ciência Política de Londres, Jock Stirratt descreveu em um gráfico os usos a que alguns pescadores do Sri Lanka que prosperaram nos últimos anos submetiam sua riqueza recém-adquirida. A renda desses pescadores, antes muito baixa, deu um grande salto desde que o gelo se tornou disponível, o que possibilitou que seus peixes alcançassem, em boas condições, os mercados distantes da costa, onde atingiram preços altos. No entanto, as aldeias de pescadores ainda permanecem isoladas e, à época do estudo, não tinham eletricidade, estradas nem água encanada. Apesar desses desincentivos aparentes, os pescadores mais ricos gastavam os excedentes de seus lucros na compra de aparelhos de televisão inutilizáveis, na construção de garagens em casas a que automóveis sequer tinham acesso e na instalação de caixas-d’água jamais abastecidas. De acordo com Stirratt, isso tudo ocorre por uma imitação entusiasmada da alta classe média das zonas urbanas do Sri Lanka.

     É fácil rir de despesas tão grosseiramente excêntricas, cuja aparente falta de propósito utilitário dá a impressão de que, por comparação, pelo menos parte de nosso próprio consumo tem um caráter racional. Como os objetos adquiridos por esses pescadores parecem não ter função em seu meio, não conseguimos entender por que eles deveriam desejá-los. Por outro lado, se eles colecionassem peças antigas de porcelana chinesa e as enterrassem, como fazem os Ibans, seriam considerados sensatos, senão encantados, tal como os temas antropológicos normais. Não pretendo negar as explicações óbvias para esse tipo de comportamento ― ou seja, busca de status, competição entre vizinhos, e assim por diante. Mas penso que também dever-se-ia reconhecer a presença de uma certa vitalidade cultural nessas atrevidas incursões a campos ainda não inexplorados do consumo: a habilidade de transcender o aspecto meramente utilitário dos bens de consumo, de modo que se tornem mais parecidos com obras de arte, carregados de expressão pessoal.


Alfred Gell. Recém-chegados ao mundo dos bens: o consumo entre os Gonde Muria. In: Arjun Appadurai (org). A vida social das coisas: mercadorias sob uma perspectiva cultural. Niterói: Eduff, 2008, p. 147-48 (com adaptações).

No segundo período do segundo parágrafo do texto CB1A1-I, a conjunção “Como” introduz um segmento com sentido
  1. Acausal.
  2. Bcomparativo.
  3. Cconformativo.
  4. Dtemporal.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — causal.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sentido da conjunção “Como” no segundo parágrafo

Gabarito: letra A. No segundo período do segundo parágrafo, a conjunção “Como” introduz uma oração com sentido causal, equivalente a “já que” ou “porque”. A passagem que prova isso é:

“Como os objetos adquiridos por esses pescadores parecem não ter função em seu meio, não conseguimos entender por que eles deveriam desejá-los.”

A oração iniciada por “Como” apresenta a causa (os objetos parecem não ter função) do fato expresso na oração principal (não conseguimos entender o desejo). A banca cobra exatamente o que o material de apoio alerta: o sentido da conjunção depende do contexto — e aqui o contexto é claramente causal.

O que você precisa saber sobre a conjunção “como”

A palavra “como” é uma conjunção subordinativa que pode assumir vários valores semânticos conforme o contexto. Os principais são:

  • Causal: equivale a “já que”, “porque”, “visto que”. Ex.: Como choveu, a festa foi cancelada.

  • Comparativo: estabelece comparação entre dois termos. Ex.: Ele canta como um profissional. (exige dois elementos comparados)

  • Conformativo: equivale a “conforme”, “segundo”. Ex.: Como foi combinado, sairemos cedo.

  • Temporal: raro, indica simultaneidade. Ex.: Como chegou, sentou-se. (coloquial)

A chave para identificar o valor é substituir a conjunção por outra de mesmo valor e verificar se o sentido permanece. No trecho, a substituição por “já que” mantém o sentido:

“Já que os objetos adquiridos por esses pescadores parecem não ter função em seu meio, não conseguimos entender por que eles deveriam desejá-los.”

A relação é de causa e consequência: a aparência de inutilidade dos objetos é a causa; a incompreensão do desejo é a consequência.

1Causal
equivale a "já que", "porque"
Gabarito
2Comparativo
exige dois termos comparados
3Conformativo
equivale a "conforme", "segundo"
4Temporal
raro, indica simultaneidade
Conjunção "Como"
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Conjunção "Como": Causal (equivale a "já que", "porque", Gabarito); Comparativo (exige dois termos comparados); Conformativo (equivale a "conforme", "segundo"); Temporal (raro, indica simultaneidade)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A conjunção “Como” é uma das conjunções subordinativas causais (ao lado de porque, visto que, já que, uma vez que, pois). No trecho, ela pode ser substituída por “já que” sem alteração de sentido:

“Já que os objetos adquiridos por esses pescadores parecem não ter função em seu meio, não conseguimos entender por que eles deveriam desejá-los.”

A relação é de causa e consequência: a aparência de inutilidade dos objetos é a causa; a incompreensão do desejo é a consequência. Portanto, a alternativa A está correta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B propõe sentido comparativo. Para que houvesse comparação, seria necessário que o trecho estabelecesse uma analogia entre dois elementos, como em “Ele nada como um peixe”. No trecho, não há dois termos sendo comparados; há uma relação de causa e efeito. A conjunção “como” comparativa exige a presença de dois seres ou situações comparáveis, o que não ocorre aqui. Portanto, a alternativa B está incorreta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C propõe sentido conformativo, equivalente a “conforme” ou “segundo”. Esse valor ocorre quando a oração expressa conformidade com algo dito ou combinado, como em “Como foi combinado, sairemos cedo”. No trecho, a oração não expressa conformidade, mas sim a causa da incompreensão. A substituição por “conforme” não preservaria o sentido: “Conforme os objetos parecem não ter função...” não faz sentido. Portanto, a alternativa C está incorreta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D propõe sentido temporal. A conjunção “como” raramente tem valor temporal, e quando tem, indica simultaneidade, como em “Como chegou, sentou-se”. No trecho, não há qualquer noção de tempo; a relação é de causa e consequência. A substituição por “quando” ou “assim que” não preservaria o sentido: “Quando os objetos parecem não ter função...” não expressa a relação causal. Portanto, a alternativa D está incorreta.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a polissemia da conjunção “como”. A armadilha é escolher um valor que a conjunção pode ter em outros contextos, mas que não se aplica ao trecho. A solução é sempre substituir a conjunção por outra de mesmo valor e verificar se o sentido permanece.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar o valor de uma conjunção, pergunte-se: “qual relação lógica essa oração estabelece com a principal?”. Se for causa, use “já que”; se for comparação, procure dois termos; se for conformidade, use “conforme”; se for tempo, use “quando”.

Gabarito: letra A.

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