Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Crase — CESPE / CEBRASPE 2021

PortuguêsCrase
Código
ce131834
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SERPRO
Ano
2021
Nível
Superior
Texto CB1A1-I
    Não estamos opondo máquinas a ecologia, como se as máquinas fossem aquelas coisas que só servem para violentar a Mãe Natureza e violar a harmonia entre o ser humano e a natureza ― uma imagem atribuída à tecnologia desde o fim do século XVIII. Também não estamos seguindo a hipótese de Gaia de que a Terra é um único superorganismo ou uma coletividade de organismos. Em vez disso, gostaria de propor uma reflexão sobre a ecologia das máquinas. Para dar início a essa ecologia das máquinas, precisamos primeiro voltar ao conceito de ecologia. Seu fundamento está na diversidade, já que é apenas com biodiversidade (ou multiespécies que incluam todas as formas de organismos, até mesmo bactérias) que os sistemas ecológicos podem ser conceitualizados. A fim de discutir uma ecologia de máquinas, precisaremos de uma noção diferente e em paralelo com a de biodiversidade ― uma noção a que chamamos tecnodiversidade. A biodiversidade é o correlato da tecnodiversidade, uma vez que sem esta só testemunharemos o desaparecimento de espécies diante de uma racionalidade homogênea. Tomemos como exemplo os pesticidas, que são feitos para matar certa espécie de insetos independentemente de sua localização geográfica, precisamente porque são baseados em análises químicas e biológicas. Sabemos, no entanto, que o uso de um mesmo pesticida pode levar a diversas consequências desastrosas em biomas diferentes. Antes da invenção dessas substâncias, empregavam-se diferentes técnicas para combater os insetos que ameaçavam as colheitas dos produtos agrícolas ― recursos naturais encontrados na região, por exemplo. Ou seja, havia uma tecnodiversidade antes do emprego de pesticidas como solução universal. Os pesticidas aparentam ser mais eficientes a curto prazo, mas hoje é fato bastante consolidado que estávamos o tempo todo olhando para os nossos pés quando pensávamos em um futuro longínquo. Podemos dizer que a tecnodiversidade é, em essência, uma questão de localidade. Localidade não significa necessariamente etnocentrismo ou nacionalismo, mas é aquilo que nos força a repensar o processo de modernização e de globalização e que nos permite refletir sobre a possibilidade de reposicionar as tecnologias modernas.
Yuk Hui. Tecnodiversidade. São Paulo: Ubu Editora, 2020, p. 122-123 (com adaptações).

Considerando as ideias, os sentidos e os aspectos linguísticos do texto CB1A1-I, julgue o item a seguir.
No trecho “Para dar início a essa ecologia das máquinas” (quarto período), o acréscimo do sinal indicativo de crase no vocábulo “a” manteria a correção gramatical do texto.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crase antes de verbo no infinitivo: caso proibido

Gabarito: Errado (E). O acréscimo do acento grave em “Para dar início a essa ecologia das máquinas” não manteria a correção gramatical, pois a crase é proibida antes de verbo — e “essa ecologia das máquinas” é o objeto direto da locução “dar início a”, não um substantivo que admita artigo feminino. A regra que decide é a da crase proibida diante de verbo, como se vê no trecho: o “a” é apenas a preposição exigida pela regência de “dar início a”, e o termo seguinte é o verbo “essa” (forma do verbo “ser”) — na verdade, o trecho completo é “dar início a essa ecologia”, em que “essa” é pronome demonstrativo, não artigo.

Análise do trecho

No período “Para dar início a essa ecologia das máquinas”, temos:

  • dar início a = locução verbal que exige preposição “a” (quem dá início, dá início a algo);

  • essa ecologia das máquinas = objeto indireto, introduzido pela preposição “a”;

  • essa = pronome demonstrativo (equivale a “esta”), que não admite artigo antes de si.

Para haver crase, seria necessário que houvesse a fusão da preposição “a” com o artigo feminino “a” (ou com o “a” inicial de pronomes como “aquela”). Aqui, o termo seguinte é o pronome demonstrativo “essa”, que não é antecedido de artigo. Portanto, não há o segundo “a” que justificaria o acento grave.

Além disso, a regra geral de crase proibida diante de verbo também se aplicaria se o termo seguinte fosse um verbo no infinitivo — mas no trecho o termo é um pronome, o que reforça a impossibilidade.

Por que a alternativa “Certo” está incorreta

A afirmativa de que o acréscimo do sinal de crase manteria a correção gramatical é falsa. Se escrevêssemos “Para dar início à essa ecologia”, teríamos um erro duplo: a crase indevida (pois “essa” não admite artigo) e a repetição da preposição. O correto é exatamente como está no texto: “dar início a essa ecologia”, sem acento.

Conclusão

Como a banca pede para julgar a afirmação, e ela é incorreta, o gabarito é Errado (E).

PEGA ESSA DICA!

Em questões de crase, identifique primeiro a regência do verbo (quem dá início, dá início a algo) e depois verifique se o termo seguinte admite artigo feminino. Se for pronome demonstrativo como “essa”, “esta”, “essa”, não há crase.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre preposição “a” e crase. O “a” de “dar início a” é apenas preposição; sem o artigo feminino, não há fusão, logo não há crase.

Link permanente: /questoes/ce131834