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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2021

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce131837
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SERPRO
Ano
2021
Nível
Superior
Texto CB1A1-I
    Não estamos opondo máquinas a ecologia, como se as máquinas fossem aquelas coisas que só servem para violentar a Mãe Natureza e violar a harmonia entre o ser humano e a natureza ― uma imagem atribuída à tecnologia desde o fim do século XVIII. Também não estamos seguindo a hipótese de Gaia de que a Terra é um único superorganismo ou uma coletividade de organismos. Em vez disso, gostaria de propor uma reflexão sobre a ecologia das máquinas. Para dar início a essa ecologia das máquinas, precisamos primeiro voltar ao conceito de ecologia. Seu fundamento está na diversidade, já que é apenas com biodiversidade (ou multiespécies que incluam todas as formas de organismos, até mesmo bactérias) que os sistemas ecológicos podem ser conceitualizados. A fim de discutir uma ecologia de máquinas, precisaremos de uma noção diferente e em paralelo com a de biodiversidade ― uma noção a que chamamos tecnodiversidade. A biodiversidade é o correlato da tecnodiversidade, uma vez que sem esta só testemunharemos o desaparecimento de espécies diante de uma racionalidade homogênea. Tomemos como exemplo os pesticidas, que são feitos para matar certa espécie de insetos independentemente de sua localização geográfica, precisamente porque são baseados em análises químicas e biológicas. Sabemos, no entanto, que o uso de um mesmo pesticida pode levar a diversas consequências desastrosas em biomas diferentes. Antes da invenção dessas substâncias, empregavam-se diferentes técnicas para combater os insetos que ameaçavam as colheitas dos produtos agrícolas ― recursos naturais encontrados na região, por exemplo. Ou seja, havia uma tecnodiversidade antes do emprego de pesticidas como solução universal. Os pesticidas aparentam ser mais eficientes a curto prazo, mas hoje é fato bastante consolidado que estávamos o tempo todo olhando para os nossos pés quando pensávamos em um futuro longínquo. Podemos dizer que a tecnodiversidade é, em essência, uma questão de localidade. Localidade não significa necessariamente etnocentrismo ou nacionalismo, mas é aquilo que nos força a repensar o processo de modernização e de globalização e que nos permite refletir sobre a possibilidade de reposicionar as tecnologias modernas.
Yuk Hui. Tecnodiversidade. São Paulo: Ubu Editora, 2020, p. 122-123 (com adaptações).

Considerando as ideias, os sentidos e os aspectos linguísticos do texto CB1A1-I, julgue o item a seguir.
O texto recomenda a infalibilidade dos pesticidas como solução universal para ameaças à produção agrícola.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O texto recomenda a infalibilidade dos pesticidas como solução universal?

Gabarito: Errado (E). O texto não recomenda a infalibilidade dos pesticidas; ao contrário, ele os apresenta como exemplo de uma racionalidade homogênea que ignora a localidade, e defende a tecnodiversidade como alternativa. A passagem decisiva é:

"Sabemos, no entanto, que o uso de um mesmo pesticida pode levar a diversas consequências desastrosas em biomas diferentes."

O conectivo "no entanto" já sinaliza a oposição: o autor reconhece que os pesticidas "aparentam ser mais eficientes a curto prazo", mas imediatamente ressalva que isso é uma visão míope — "estávamos o tempo todo olhando para os nossos pés quando pensávamos em um futuro longínquo". Portanto, a afirmação do item contradiz o texto.

Análise do item

O item afirma que o texto "recomenda a infalibilidade dos pesticidas como solução universal para ameaças à produção agrícola". Isso é o oposto do que o autor defende. Vejamos os trechos que refutam cada parte da afirmação:

  • "recomenda a infalibilidade": o texto diz que os pesticidas "aparentam ser mais eficientes a curto prazo", mas isso é apenas uma aparência, não uma recomendação. A palavra "aparentam" já indica que a eficiência é ilusória.

  • "solução universal": o texto critica exatamente a universalidade dos pesticidas, que são "feitos para matar certa espécie de insetos independentemente de sua localização geográfica". Essa independência da localidade é o problema, não a solução.

  • "ameaças à produção agrícola": o texto menciona que antes dos pesticidas "empregavam-se diferentes técnicas para combater os insetos que ameaçavam as colheitas" — ou seja, havia uma tecnodiversidade que o autor valoriza.

O autor propõe, em vez da solução universal, uma "ecologia das máquinas" baseada na tecnodiversidade, que é "em essência, uma questão de localidade". A tese central é justamente a crítica à homogeneização tecnológica representada pelos pesticidas.

NÃO CAIA NESSA!

A banca inverte o sentido do texto. Ela pega um elemento real (os pesticidas são usados contra pragas agrícolas) e o transforma em uma recomendação do autor, quando na verdade o autor os usa como contraexemplo de uma racionalidade homogênea. A armadilha é a contradição — o item diz exatamente o oposto do que o texto defende.

PEGA ESSA DICA!

Em itens de certo/errado, desconfie de palavras absolutas como "infalibilidade" e "solução universal". O texto, ao defender a diversidade e a localidade, jamais recomendaria algo universal e infalível. Grife os conectivos de oposição ("no entanto", "mas") — eles marcam a virada argumentativa.

Conclusão: como o item contradiz frontalmente a tese do texto, ele está ERRADO.

Gabarito: letra E (Errado).

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