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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce137913
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
INSS
Ano
2022
Nível
Médio
Cargo
Técnico do Seguro Social
Texto CB1A1

        Cresce, no mundo todo, o número de pessoas que demandam serviços de cuidado. De acordo com o último relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), esse universo deverá ser de 2,3 bilhões de pessoas em 2030 — há cinco anos, eram 2,1 bilhões. O envelhecimento da população e as novas configurações familiares, com mulheres mais presentes no mercado de trabalho e menos disponíveis para assumir encargos com parentes sem autonomia, têm levado os países a repensar seus sistemas de atenção a populações vulneráveis. Partindo desse panorama, as sociólogas Nadya Guimarães, da Universidade de São Paulo (USP), e Helena Hirata, do Centro de Pesquisas Sociológicas e Políticas de Paris, na França, identificaram, em estudo, o surgimento, nos últimos vinte anos, de arranjos que visam amparar indivíduos com distintos níveis de dependência, como crianças, idosos e pessoas com deficiência. Enquanto, em algumas nações, o papel do Estado é preponderante, em outras, a atuação de instituições privadas se sobressai. Na América Latina, o protagonismo das famílias representa o aspecto mais marcante.
       Conforme definição da OIT, o trabalho de cuidado, que pode ou não ser remunerado, envolve dois tipos de atividades: as diretas, como alimentar um bebê ou cuidar de um doente, e as indiretas, como cozinhar ou limpar. “É um trabalho que tem uma forte dimensão emocional, se desenvolve na intimidade e, com frequência, envolve a manipulação do corpo do outro”, diz Guimarães. Ela relata que o conceito de cuidado surgiu como categoria relevante para as ciências sociais há cerca de trinta anos e, desde então, tem sido crescente a sua presença em linhas de investigação em áreas como economia, antropologia, psicologia e filosofia política. “Com isso, a discussão sobre essa concepção ganhou corpo. Os estudos iniciais do cuidado limitavam-se à ideia de que ele era uma necessidade nas situações de dependência, mas tal entendimento se ampliou. Hoje, ele é visto como um trabalho fundamental para assegurar o bem-estar de todos, na medida em que qualquer pessoa pode se fragilizar e se tornar dependente em algum momento da vida”, explica a socióloga. Os avanços da pesquisa levaram à constatação de que a oferta de cuidados é distribuída de forma desigual na sociedade, recaindo, de forma mais intensa, sobre as mulheres.
         Ao refletir sobre esse desequilíbrio, a socióloga Heidi Gottfried, da Universidade Estadual Wayne, nos Estados Unidos da América, explica que persiste, nas sociedades, a noção arraigada de que o trabalho de cuidado seria uma manifestação de amor e, por essa razão, deveria ser prestado gratuitamente. Conforme Gottfried, a ideia decorre, entre outros aspectos, de construção cultural a respeito da maternidade e de que cuidar seria um talento feminino.
         Por outro lado, Guimarães lembra que, a partir de 1970, as mulheres aumentaram sua participação no mercado de trabalho brasileiro. Em cinco décadas, a presença feminina saltou de 18% para 50%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. “Consideradas provedoras naturais dos serviços de cuidado, as mulheres passaram a trabalhar mais intensamente fora de casa. Esse fato, aliado ao envelhecimento da população, gerou o que tem sido analisado como uma crise no provimento de cuidados que, em países do hemisfério norte, tem se resolvido com uma mercantilização desses serviços, além de uma maior atuação do Estado, por meio da criação de instituições públicas de acolhimento, expansão de políticas de financiamento, formação e regulação do trabalho de cuidadores”, conta a socióloga.
        Na América Latina, entretanto, o fornecimento de cuidados é tradicionalmente feito pelas famílias, nas quais mulheres desempenham gratuitamente papel central como cuidadoras de crianças, idosos e pessoas com deficiência. Para a minoria que pode pagar, o mercado oferece serviços de cuidado que compensam a escassa presença do Estado.


 Christina Queiroz. Revista Pesquisa FAPESP. Ed. 299, jan./ 2021. Internet:
<https://revistapesquisa.fapesp.br/economia-do-cuidado> (com adaptações).
Em relação a aspectos estruturais do texto CB1A1 e às informações por ele veiculadas, julgue o item subsequente.Por mencionar dados, articular depoimentos e expor argumentos, o texto configura-se como predominantemente descritivo.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Tipologia textual – descritivo ou argumentativo?

Gabarito: Errado (E). O texto não é predominantemente descritivo. Embora apresente dados, depoimentos e argumentos, a finalidade principal é expor e discutir um tema (a economia do cuidado) – o que caracteriza um texto expositivo-argumentativo, e não descritivo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a presença de elementos como "mencionar dados", "articular depoimentos" e "expor argumentos" para sugerir que o texto descreve algo, mas esses recursos são típicos de textos que explicam e defendem uma tese, não de uma mera descrição.

O que é um texto descritivo?

O texto descritivo tem como foco caracterizar seres, objetos, ambientes ou situações, detalhando aspectos físicos, sensoriais ou qualitativos. Exemplo: "A sala era ampla, com paredes claras e uma mesa de madeira no centro." Não há progressão temporal nem defesa de ideias – apenas um retrato estático.

O que o texto CB1A1 faz?

  • Apresenta dados da OIT sobre projeções de demanda por cuidado.

  • Cita depoimentos de sociólogas (Nadya Guimarães, Helena Hirata, Heidi Gottfried) para explicar conceitos e discutir tendências.

  • Expõe argumentos sobre a distribuição desigual do trabalho de cuidado, o papel do Estado, do mercado e das famílias.

  • Tem tese implícita: o cuidado é um trabalho essencial e mal distribuído, necessitando de políticas públicas.

Essas características são de um texto dissertativo-argumentativo (ou expositivo-argumentativo), pois a intenção é informar e persuadir o leitor sobre uma realidade, não apenas descrevê-la.

Ancoragem no texto

Logo no início, o texto afirma que "Cresce, no mundo todo, o número de pessoas que demandam serviços de cuidado" e "O envelhecimento da população e as novas configurações familiares... têm levado os países a repensar seus sistemas de atenção". Há uma problematização e discussão, típicas de textos argumentativos. O trecho "Ao refletir sobre esse desequilíbrio, a socióloga Heidi Gottfried... explica que persiste a noção arraigada de que o trabalho de cuidado seria uma manifestação de amor" mostra a defesa de um ponto de vista apoiado em autoridade.

Por que a afirmativa está errada?

A afirmativa diz: "Por mencionar dados, articular depoimentos e expor argumentos, o texto configura-se como predominantemente descritivo."

  • Mencionar dados não torna o texto descritivo; os dados servem como evidência para a argumentação.

  • Articular depoimentos é recurso de autoridade (argumento de autoridade), não descrição.

  • Expor argumentos é justamente o oposto da descrição: argumentar é defender uma tese.

Portanto, a conclusão do enunciado é falsa. O texto é predominantemente expositivo-argumentativo.

Tipologia textual
  • 1Texto descritivo
    • Caracteriza seres/objetos/ambientes
    • Detalhes físicos e sensoriais
    • Sem progressão temporal
    • Sem defesa de tese
  • 2Texto expositivo-argumentativo
    • Apresenta dados
    • Cita depoimentos
    • Expõe argumentos
    • Defende tese/ponto de vista
    • Problematiza e discute
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PEGA ESSA DICA!

Para identificar a tipologia, pergunte: qual a finalidade do texto? Se o autor quer convencer ou explicar algo, não é descritivo. Descrever é apenas "pintar com palavras" um cenário, sem opinar ou defender.

Conclusão: O item está ERRADO.

Gabarito: letra E.

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