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Questão de Português — Sintaxe — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsSintaxe
Código
ce138023
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
INSS
Ano
2022
Nível
Médio
Cargo
Técnico do Seguro Social - (GEX Guarulhos)
     Ora, graças a Deus, lá se foi mais um. Um ano, quero dizer. Menos um na conta, mais uma prestação paga. E tem quem fique melancólico. Tem quem deteste ver à porta a cara do mascate em cada primeiro do mês, cobrando o vencido. Quando compram fiado, têm a sensação de que o homem deu de presente, e se esquecem das prestações, que serão, cada uma, uma facada. Nem se lembram dessa outra prestação que se paga a toda hora, tabela Price insaciável comendo juros de vida, todo dia um pouquinho mais; um cabelo que fica branco, mais um milímetro de pele que enruga, uma camada infinitesimal acrescentada à artéria que endurece, um pouco mais de fadiga no coração, que também é carne e se cansa com aquele bater sem folga. E o olho que enxerga menos, e o dente que caria e trata de abrir lugar primeiro para o pivô, depois para a dentadura completa.
     O engraçado é que muito poucos reconhecem isso. Convencem-se de que a morte chega de repente, que não houve desgaste preparatório, e nos apanha em plena flor da juventude, ou em plena frutificação da maturidade; se imaginam uma rosa que foi colhida em plena beleza desabrochada. Mas a rosa, se a não apanha o jardineiro, que será ela no dia seguinte, após o mormaço do sol e a friagem do sereno? A hora da colheita não interessa ― de qualquer modo, o destino dela era murchar, perder as pétalas, secar, sumir-se.
     A gente, porém, não pode pensar muito nessas coisas. Tem que pensar em alegrias, sugestionar-se, sugestionar os outros. Vamos dar festas, vamos aguardar o ano novo com esperanças e risadas e beijos congratulatórios. Desejar uns aos outros saúde, riqueza e venturas. Fazer de conta que não se sabe; sim, como se a gente nem desconfiasse. Tudo que nos espera: dentro do corpo o que vai sangrar, doer, inflamar, envelhecer. As cólicas de fígado, as dores de cabeça, as azias, os reumatismos, as gripes com febre, quem sabe o tifo, o atropelamento. Tudo escondido, esperando. Sem falar nos que vão ficar tuberculosos, nas mulheres que vão fazer cesariana. Os que vão perder o emprego, os que se verão doidos com as dívidas, os que hão de esperar nas filas ― que seremos quase todos. E os que, não morrendo, hão de ver a morte lhes entrando de casa adentro, carregando o filho, pai, amor, amizade. As missas de sétimo dia, as cartas de rompimento, os bilhetes de despedida. E até guerra, quem sabe? Desgostos, desgostos de toda espécie. Qual de nós passa um dia, dois dias, sem um desgosto? Quanto mais um ano!

Rachel de Queiroz. Um ano de menos.
In: O Cruzeiro, Rio de Janeiro, dez./1951 (com adaptações). 

Acerca das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item que se seguem. 
O segmento “que será ela no dia seguinte” (penúltimo período do segundo parágrafo) consiste em uma oração adjetiva com sentido explicativo, o que justifica seu isolamento entre vírgulas no texto.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Oração adjetiva explicativa em “que será ela no dia seguinte” — ❌ ERRADO.

Gabarito: item E (Errado). O segmento “que será ela no dia seguinte” não é uma oração adjetiva explicativa, mas sim uma oração subordinada adverbial temporal (reduzida de infinitivo), o que invalida a justificativa apresentada. A vírgula que o isola não decorre de natureza explicativa, e sim de sua função de adjunto adverbial deslocado no período.

No trecho do texto:

“Mas a rosa, se a não apanha o jardineiro, que será ela no dia seguinte, após o mormaço do sol e a friagem do sereno?”

Observe que “que será ela no dia seguinte” equivale a “quando será ela no dia seguinte” — uma circunstância de tempo, não uma caracterização do substantivo “rosa”. A oração adjetiva, por definição, exerce função de adjunto adnominal (equivale a um adjetivo) e é introduzida por pronome relativo (que, o qual, cujo, onde), retomando um antecedente. Aqui, o “que” é conjunção integrante ou advérbio relativo? Na verdade, trata-se de uma oração subordinada adverbial temporal reduzida de infinitivo (o verbo “ser” está no infinitivo), que poderia ser desenvolvida como “quando será ela”. O “que” funciona como conjunção subordinativa temporal (equivalente a “quando”), e não como pronome relativo.

A vírgula que isola o trecho justifica-se porque ele está deslocado (anteposto ao adjunto adverbial “após o mormaço...”), funcionando como adjunto adverbial de tempo — e adjuntos adverbiais deslocados são separados por vírgula, conforme a norma padrão. Não há, portanto, oração adjetiva explicativa.

1Classificação correta
Oração subordinada adverbial temporal
Reduzida de infinitivo
Equivale a "quando será ela"
2Função
Adjunto adverbial de tempo deslocado
Não é adjunto adnominal
3O "que"
Não é pronome relativo
Conjunção subordinativa temporal
4Vírgula
Marca deslocamento do adjunto
Não indica oração explicativa
"que será ela no dia seguinte"
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"que será ela no dia seguinte": Classificação correta (Oração subordinada adverbial temporal, Reduzida de infinitivo, Equivale a "quando será ela"); Função (Adjunto adverbial de tempo deslocado, Não é adjunto adnominal); O "que" (Não é pronome relativo, Conjunção subordinativa temporal); Vírgula (Marca deslocamento do adjunto, Não indica oração explicativa)

Análise da assertiva

A afirmativa comete um erro de classificação sintática: chama de “oração adjetiva explicativa” o que é, na verdade, uma oração subordinada adverbial temporal. A presença da vírgula não é prova de natureza explicativa — ela apenas marca o deslocamento do adjunto adverbial. Além disso, o “que” não retoma “rosa” como pronome relativo; ele introduz uma circunstância temporal.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre oração adjetiva explicativa (que traz explicação sobre o antecedente, ex.: “A rosa, que é bela, murcha”) e oração adverbial temporal (que indica tempo, ex.: “Quando a rosa murcha”). A vírgula isolando o trecho pode sugerir explicação, mas a função sintática é outra.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar oração adjetiva, troque o “que” por “o qual/a qual” e veja se ele retoma um substantivo anterior. Se não retoma, não é adjetiva. Aqui, “que será ela” não pode ser “a qual será ela” — logo, não é adjetiva.

Conclusão: a assertiva está errada, pois classifica indevidamente o segmento como oração adjetiva explicativa. Gabarito: letra E (Errado).

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