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Questão de Português — Crase — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsCrase
Código
ce138027
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
INSS
Ano
2022
Nível
Médio
Cargo
Técnico do Seguro Social - (GEX Guarulhos)
     Ora, graças a Deus, lá se foi mais um. Um ano, quero dizer. Menos um na conta, mais uma prestação paga. E tem quem fique melancólico. Tem quem deteste ver à porta a cara do mascate em cada primeiro do mês, cobrando o vencido. Quando compram fiado, têm a sensação de que o homem deu de presente, e se esquecem das prestações, que serão, cada uma, uma facada. Nem se lembram dessa outra prestação que se paga a toda hora, tabela Price insaciável comendo juros de vida, todo dia um pouquinho mais; um cabelo que fica branco, mais um milímetro de pele que enruga, uma camada infinitesimal acrescentada à artéria que endurece, um pouco mais de fadiga no coração, que também é carne e se cansa com aquele bater sem folga. E o olho que enxerga menos, e o dente que caria e trata de abrir lugar primeiro para o pivô, depois para a dentadura completa.
     O engraçado é que muito poucos reconhecem isso. Convencem-se de que a morte chega de repente, que não houve desgaste preparatório, e nos apanha em plena flor da juventude, ou em plena frutificação da maturidade; se imaginam uma rosa que foi colhida em plena beleza desabrochada. Mas a rosa, se a não apanha o jardineiro, que será ela no dia seguinte, após o mormaço do sol e a friagem do sereno? A hora da colheita não interessa ― de qualquer modo, o destino dela era murchar, perder as pétalas, secar, sumir-se.
     A gente, porém, não pode pensar muito nessas coisas. Tem que pensar em alegrias, sugestionar-se, sugestionar os outros. Vamos dar festas, vamos aguardar o ano novo com esperanças e risadas e beijos congratulatórios. Desejar uns aos outros saúde, riqueza e venturas. Fazer de conta que não se sabe; sim, como se a gente nem desconfiasse. Tudo que nos espera: dentro do corpo o que vai sangrar, doer, inflamar, envelhecer. As cólicas de fígado, as dores de cabeça, as azias, os reumatismos, as gripes com febre, quem sabe o tifo, o atropelamento. Tudo escondido, esperando. Sem falar nos que vão ficar tuberculosos, nas mulheres que vão fazer cesariana. Os que vão perder o emprego, os que se verão doidos com as dívidas, os que hão de esperar nas filas ― que seremos quase todos. E os que, não morrendo, hão de ver a morte lhes entrando de casa adentro, carregando o filho, pai, amor, amizade. As missas de sétimo dia, as cartas de rompimento, os bilhetes de despedida. E até guerra, quem sabe? Desgostos, desgostos de toda espécie. Qual de nós passa um dia, dois dias, sem um desgosto? Quanto mais um ano!

Rachel de Queiroz. Um ano de menos.
In: O Cruzeiro, Rio de Janeiro, dez./1951 (com adaptações). 

Acerca das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item que se seguem. 
No quinto período do primeiro parágrafo, o emprego do sinal indicativo de crase no vocábulo “à”, em “à porta”, justifica-se pela combinação de dois fatores: a regência do verbo “ver” e o gênero feminino da palavra “porta”.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Crase em "à porta" — Gabarito: E — ERRADO.

O item está errado porque a justificativa apresentada para o emprego da crase em "à porta" está incompleta e imprecisa: a crase não se deve à regência do verbo "ver" (que é transitivo direto e não exige preposição), mas sim à regência do verbo "detestar" (transitivo indireto, que exige a preposição "a") somada à presença do artigo feminino "a" diante de "porta". No trecho, a estrutura é: "Tem quem deteste ver à porta a cara do mascate". O verbo "ver" tem como objeto direto "a cara do mascate"; "à porta" é um adjunto adverbial de lugar, e a preposição "a" que se funde com o artigo é exigida pelo verbo "detestar" (quem detesta, detesta algo a alguém/algo). Portanto, a afirmação de que a crase se justifica pela regência de "ver" é falsa.

Crase em "à porta"
  • 1Fatores corretos
    • Regência de "detestar" (exige "a")
    • Artigo feminino "a" antes de "porta"
  • 2Fatores incorretos do item
    • Regência de "ver" (transitivo direto)
    • Só o gênero feminino bastaria
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Análise do item

O item afirma que a crase em "à porta" se justifica pela combinação de dois fatores: a regência do verbo "ver" e o gênero feminino da palavra "porta". Vamos verificar cada fator:

  • Regência do verbo "ver": O verbo "ver" é transitivo direto, ou seja, não exige preposição. No trecho, "ver" tem como complemento "a cara do mascate" (objeto direto). Logo, a preposição "a" que aparece em "à porta" não é exigida por "ver".

  • Gênero feminino de "porta": De fato, "porta" é um substantivo feminino e admite o artigo "a". Esse é um dos fatores para a crase, mas não o único — é preciso que haja também uma preposição "a" exigida por algum termo anterior.

Na verdade, a crase ocorre porque o verbo "detestar" (na locução "deteste ver") rege a preposição "a": quem detesta, detesta a algo/alguém. No trecho, "deteste ver à porta a cara do mascate" — a preposição "a" é exigida por "detestar" e se funde com o artigo "a" de "porta". Portanto, a justificativa correta seria: regência do verbo "detestar" + artigo feminino "a" antes de "porta".

"Tem quem deteste ver à porta a cara do mascate, cobrando o vencido."

Observe que "ver" é transitivo direto (ver algo/alguém), e "à porta" funciona como adjunto adverbial de lugar. A preposição "a" que se funde com o artigo é exigida pelo verbo "detestar", não por "ver".

Conclusão

O item está errado porque atribui a crase à regência do verbo "ver", quando, na verdade, a preposição é exigida pelo verbo "detestar". O gênero feminino de "porta" é um fator, mas não o único, e a justificativa apresentada está incorreta.

Gabarito: E — ERRADO.

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