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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce138028
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
INSS
Ano
2022
Nível
Médio
Cargo
Técnico do Seguro Social - (GEX Guarulhos)
     Ora, graças a Deus, lá se foi mais um. Um ano, quero dizer. Menos um na conta, mais uma prestação paga. E tem quem fique melancólico. Tem quem deteste ver à porta a cara do mascate em cada primeiro do mês, cobrando o vencido. Quando compram fiado, têm a sensação de que o homem deu de presente, e se esquecem das prestações, que serão, cada uma, uma facada. Nem se lembram dessa outra prestação que se paga a toda hora, tabela Price insaciável comendo juros de vida, todo dia um pouquinho mais; um cabelo que fica branco, mais um milímetro de pele que enruga, uma camada infinitesimal acrescentada à artéria que endurece, um pouco mais de fadiga no coração, que também é carne e se cansa com aquele bater sem folga. E o olho que enxerga menos, e o dente que caria e trata de abrir lugar primeiro para o pivô, depois para a dentadura completa.
     O engraçado é que muito poucos reconhecem isso. Convencem-se de que a morte chega de repente, que não houve desgaste preparatório, e nos apanha em plena flor da juventude, ou em plena frutificação da maturidade; se imaginam uma rosa que foi colhida em plena beleza desabrochada. Mas a rosa, se a não apanha o jardineiro, que será ela no dia seguinte, após o mormaço do sol e a friagem do sereno? A hora da colheita não interessa ― de qualquer modo, o destino dela era murchar, perder as pétalas, secar, sumir-se.
     A gente, porém, não pode pensar muito nessas coisas. Tem que pensar em alegrias, sugestionar-se, sugestionar os outros. Vamos dar festas, vamos aguardar o ano novo com esperanças e risadas e beijos congratulatórios. Desejar uns aos outros saúde, riqueza e venturas. Fazer de conta que não se sabe; sim, como se a gente nem desconfiasse. Tudo que nos espera: dentro do corpo o que vai sangrar, doer, inflamar, envelhecer. As cólicas de fígado, as dores de cabeça, as azias, os reumatismos, as gripes com febre, quem sabe o tifo, o atropelamento. Tudo escondido, esperando. Sem falar nos que vão ficar tuberculosos, nas mulheres que vão fazer cesariana. Os que vão perder o emprego, os que se verão doidos com as dívidas, os que hão de esperar nas filas ― que seremos quase todos. E os que, não morrendo, hão de ver a morte lhes entrando de casa adentro, carregando o filho, pai, amor, amizade. As missas de sétimo dia, as cartas de rompimento, os bilhetes de despedida. E até guerra, quem sabe? Desgostos, desgostos de toda espécie. Qual de nós passa um dia, dois dias, sem um desgosto? Quanto mais um ano!

Rachel de Queiroz. Um ano de menos.
In: O Cruzeiro, Rio de Janeiro, dez./1951 (com adaptações). 

Acerca das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item que se seguem. 
No texto, a autora incentiva uma postura otimista durante a passagem de ano, apesar de manifestar uma visão pessimista quanto ao porvir.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Otimismo e pessimismo na passagem de ano — Gabarito: C — CERTO.

✅ CERTO. O item está correto: a autora incentiva uma postura otimista durante a passagem de ano, apesar de manifestar uma visão pessimista quanto ao porvir. Essa dupla face está explícita no texto: de um lado, o convite à alegria e à esperança; de outro, a enumeração de males que aguardam a todos. A banca pede compreensão (o que o texto afirma), e a resposta é uma paráfrase fiel da estrutura argumentativa do texto.

A chave de resolução

O comando é de compreensão/recorrência: a informação está explícita no texto, não exige inferência. Basta localizar as passagens que sustentam cada parte da afirmação. O texto se divide em dois movimentos: primeiro, a descrição pessimista do envelhecimento e das desgraças futuras; depois, o incentivo a "pensar em alegrias" e a celebrar o ano novo com esperança. O item apenas sintetiza esses dois movimentos.

Provando a postura otimista

No segundo parágrafo, a autora afirma:

"A gente, porém, não pode pensar muito nessas coisas. Tem que pensar em alegrias, sugestionar-se, sugestionar os outros. Vamos dar festas, vamos aguardar o ano novo com esperanças e risadas e beijos congratulatórios."

Aqui está o incentivo explícito à postura otimista: "tem que pensar em alegrias", "vamos dar festas", "aguardar o ano novo com esperanças e risadas". O verbo "vamos" (imperativo) e a expressão "tem que" revelam o caráter de incentivo — a autora não apenas descreve, ela convida o leitor a adotar essa postura.

Provando a visão pessimista quanto ao porvir

No mesmo parágrafo, logo após o incentivo, a autora revela o que está "escondido, esperando":

"Fazer de conta que não se sabe; sim, como se a gente nem desconfiasse. Tudo que nos espera: dentro do corpo o que vai sangrar, doer, inflamar, envelhecer. As cólicas de fígado, as dores de cabeça, as azias, os reumatismos, as gripes com febre, quem sabe o tifo, o atropelamento. Tudo escondido, esperando."

A expressão "fazer de conta que não se sabe" é a chave: a autora deixa claro que o otimismo é uma ilusão consciente, pois o porvir reserva doenças, dores e desgraças. A visão pessimista é reforçada pela metáfora da "tabela Price insaciável" (no primeiro parágrafo) e pela enumeração de males: "cólicas de fígado", "dores de cabeça", "aziãs", "reumatismos", "gripes com febre", "tifo", "atropelamento", "dívidas", "filas", "missas de sétimo dia", "cartas de rompimento", "bilhetes de despedida", "guerra".

A relação entre as duas posturas

O conectivo "porém" no início do segundo parágrafo marca a oposição entre o pessimismo (não se pode pensar nessas coisas) e o otimismo (tem que pensar em alegrias). A autora não nega o pessimismo; ela o reconhece e, apesar dele, incentiva a alegria. O item capta exatamente essa relação de concessão: otimismo apesar de pessimismo.

Por que a alternativa "Errado" falha

A alternativa "Errado" contradiz o texto: ela negaria que a autora incentiva o otimismo ou que manifesta pessimismo, mas ambos estão literalmente presentes. Quem marcasse "Errado" provavelmente se prendeu apenas ao tom pessimista do primeiro parágrafo e ignorou o segundo, onde o incentivo é explícito. É o erro clássico de leitura parcial — considerar apenas uma parte do texto.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife as passagens que sustentam cada parte da afirmação. Se o item tem duas partes ("incentiva otimismo" + "apesar de pessimismo"), você precisa achar as duas no texto. Uma só não basta.

Gabarito: letra C (CERTO).

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