No dia 2/1/2022, Juliana compareceu à delegacia de polícia em Paraty – RJ para registrar ocorrência de desaparecimento dos seus pais, Sebastião e Maria Eugênia, por eles terem extrapolado o horário previsto para retorno de um passeio que faziam sozinhos naquele mesmo dia, numa luxuosa embarcação com piscina de água potável. Poucas horas depois do registro, policiais civis daquela unidade receberam a notícia do encontro de um cadáver do sexo feminino às margens de uma das praias da cidade. Feita a perinecroscopia, o perito criminal relatou equimose periorbital, pele anserina, cogumelo de espuma na boca e narinas, assim como a presença de estigmas ungueais nos antebraços. No dia seguinte ao relato do desaparecimento, os policiais civis souberam que pescadores haviam encontrado um cadáver do sexo masculino em alto-mar. Comparecendo ao local, o perito criminal relatou que o cadáver estava em decúbito ventral, com ausência do cogumelo de espuma, sem sinais aparentes de violência e sem sinais de putrefação. Os dois cadáveres foram submetidos a exame necroscópico, necropapiloscópico e a testes laboratoriais específicos, confirmando-se que eram, respectivamente, de Maria Eugênia (cadáver C1) e Sebastião (cadáver C2). Em relação a C1, o perito legista confirmou as lesões descritas pelo perito criminal. Em relação a C2, foi relatada a presença do sinal de Niles, do sinal de Vargas-Alvarado, além de manchas de Paltauf. Quanto à prova das densidades comparadas e ao ponto crioscópico do sangue, foram destacadas alterações na diluição do sangue no hemicoração esquerdo dos dois cadáveres, sendo relatadas hemodiluição/hidremia em C1 e hemoconcentração em C2, com as respectivas características, tais como descritas por Mario Carrara.A partir dessa situação hipotética, assinale a opção correta.
AO cogumelo de espuma é um sinal patognomônico de afogamento, de modo que a sua ausência em C2, relatada pelo perito criminal, é suficiente para que o delegado de polícia conclua a investigação excluindo a ocorrência dessa modalidade de asfixia no caso de C2.
BAs lesões descritas pelo perito criminal nos antebraços de C1 não permitem que o delegado de polícia requisite ao perito legista a coleta de material subungueal de C2 para eventual confronto genético.
CA verificação da diferença na diluição do sangue nos hemicorações esquerdos dos cadáveres permite que o delegado de polícia considere que as duas mortes ocorreram por afogamento em água salgada, uma vez que a informação quanto ao ponto crioscópico do sangue seria irrelevante, pois tal achado seria idêntico tanto em água doce quanto em água salgada.
DEm relação a C2, enquanto o sinal de Niles faz referência ao encontro de água doce no átrio esquerdo do coração, o sinal de Vargas-Alvarado diz respeito à presença de plâncton na corrente sanguínea.
EOs achados periciais permitem que o delegado de polícia considere que as duas mortes foram provocadas por afogamento, tendo a de Sebastião ocorrido em água salgada e a de Maria Eugênia, em água doce, ainda que C1 tenha sido encontrado numa praia.
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GabaritoE — Os achados periciais permitem que o delegado de polícia considere que as duas mortes foram provocadas por afogamento, tendo a de Sebastião ocorrido em água salgada e a de Maria Eugênia, em água doce, ainda que C1 tenha sido encontrado numa praia.
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Asfixiologia Forense – Afogamento
Gabarito: alternativa E. Com base nos achados periciais, é correto concluir que ambas as mortes decorreram de afogamento, sendo que Sebastião (C2) morreu em água salgada (hemoconcentração, ausência de cogumelo de espuma) e Maria Eugênia (C1) em água doce (hemodiluição, presença de cogumelo de espuma). Essa diferenciação é clássica na medicina legal: a água doce, hipotônica, é absorvida para a corrente sanguínea, causando hemodiluição no coração esquerdo; a água salgada, hipertônica, atrai líquido para os pulmões, resultando em hemoconcentração. O cogumelo de espuma, embora frequente, não é patognomônico de afogamento, podendo estar ausente especialmente na água salgada.
Afogamento
1Água doce (hipotônica)
Hemodiluição no coração esquerdo
Cogumelo de espuma frequente
2Água salgada (hipertônica)
Hemoconcentração no coração esquerdo
Cogumelo de espuma ausente/comum
3Sinais
Cogumelo de espuma
Frequente, não patognomônico
Estigmas ungueais
Indica luta/defesa
Ponto crioscópico
Confirma tipo de água
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Contexto de Apoio:
"Cogumelo de espuma – De aspecto semelhante a um cogumelo sanguinolento exteriorizado pela boca e/ou pelo nariz, manifesta-se frequentemente nos casos de submersão."
A própria fonte indica que o cogumelo de espuma é frequente, mas não constante. Sua ausência, portanto, não exclui a hipótese de afogamento. No caso de C2 (água salgada), é comum que o cogumelo de espuma não se forme devido ao efeito osmótico da água salgada. A afirmativa está errada ao considerá-lo sinal patognomônico e ao concluir pela exclusão do afogamento.
Alternativa B — ❌ Incorreta
As lesões ungueais (estigmas ungueais) nos antebraços de C1 indicam possível luta ou defesa, o que pode significar que houve contato com outra pessoa. Isso autoriza o delegado a requisitar coleta de material subungueal de C2 (se houver suspeita de envolvimento) para confronto genético. Não há impedimento técnico. A afirmativa, ao dizer que "não permitem", é falsa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A diferença na diluição do sangue (hemodiluição em C1, hemoconcentração em C2) é justamente o que diferencia água doce de água salgada. O ponto crioscópico do sangue é relevante para confirmar essa distinção, pois reflete a concentração de eletrólitos. A afirmativa erra ao considerar que ambos os afogamentos seriam em água salgada e ao desprezar a informação crioscópica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O sinal de Niles, na medicina legal, relaciona-se à presença de líquido no átrio esquerdo (ou no coração esquerdo) devido à aspiração de água, mas não é específico para água doce; pode ocorrer em qualquer tipo de submersão. O sinal de Vargas-Alvarado, de fato, refere-se à presença de plâncton/diatomáceas na corrente sanguínea, confirmando a aspiração. No entanto, a descrição dada na alternativa é imprecisa e, além disso, C2 sofreu afogamento em água salgada, o que torna a menção a "água doce" inadequada. Portanto, a alternativa D está errada.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Os achados periciais são coerentes com afogamento em ambos os casos: C1 (Maria Eugênia) apresentou cogumelo de espuma (comum em água doce) e hemodiluição/hidremia no hemicoração esquerdo, indicando absorção de água doce. C2 (Sebastião) não apresentou cogumelo, mas sim sinais de Niles, Vargas-Alvarado e manchas de Paltauf, além de hemoconcentração, típica de afogamento em água salgada. O fato de C1 ter sido encontrado em uma praia não contradiz o afogamento em água doce, pois o corpo pode ter sido deslocado pelas correntes. A alternativa está correta.