Questão de Português — Ortografia — CESPE / CEBRASPE 2022
Português›Ortografia
Código
ce143661
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Prefeitura de Estância - SE
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Professor de Educação Básica - Área: Português/Inglês
Texto 15A2-I
Espero um tempo. Ela não diz nada. Parece olhar
fixamente as minhas meias. Tiro devagar os cigarros do bolso
esquerdo do paletó, apanho um com a ponta dos dedos, sem tirar
o maço do bolso, e fico batendo o filtro no braço da poltrona
enquanto procuro o isqueiro no bolso pequeno da calça. Antes de
acendê-lo, penso mais uma vez que não deveria usar esses
isqueiros plásticos descartáveis. Alguém me disse que não-sãodegradáveis-e-que-eu-deveria-ter-uma-atitude-um-pouco-maisecológica. Não consigo lembrar quem, quando, nem onde ou por
quê. Rodo o isqueiro maligno entre os dedos, depois acendo o
cigarro. Então ela diz:
— Desculpe, mas acho que você está com as meias
trocadas.
Caio Fernando de Abreu. Morangos mofados. 9.ª ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 1995, p. 102.
No trecho “não-são-degradáveis-e-que-eu-deveria-ter-umaatitude-um-pouco-mais-ecológica” do texto 15A2-I, o emprego do hífen entre os vocábulos tem a finalidade de
Ajuntar palavras com radicais diferentes.
Bseparar uma sequência de palavras de mesmo valor semântico.
Csalientar a informação de que o isqueiro é feito de plástico.
Dmarcar estilisticamente uma sequência de palavras ditas por uma terceira pessoa.
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GabaritoD — marcar estilisticamente uma sequência de palavras ditas por uma terceira pessoa.
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Hífen com função estilística: marcando o discurso alheio
Gabarito: letra D. O hífen, no trecho “não-são-degradáveis-e-que-eu-deveria-ter-uma-atitude-um-pouco-mais-ecológica”, não cumpre função normativa de composição — ele marca estilisticamente uma sequência de palavras ditas por uma terceira pessoa, como se lê no texto: “Alguém me disse que não-são-degradáveis-e-que-eu-deveria-ter-uma-atitude-um-pouco-mais-ecológica”. O autor grifa a fala de outrem, transformando-a em um bloco único, para evidenciar que é uma citação indireta de um discurso que ele não consegue atribuir a ninguém específico.
A questão mistura ortografia com interpretação de texto: o hífen aqui é um recurso expressivo, não uma regra de formação de palavras. Para acertar, é preciso perceber que a sequência hifenizada reproduz o conteúdo do que “alguém” disse, e não uma palavra composta legítima.
Hífen
1Uso normativo
Composição por justaposição
Ex.: guarda-chuva
2Uso estilístico
Marca discurso alheio
Funciona como aspas
Une frase inteira
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. A alternativa afirma que o hífen serve para “juntar palavras com radicais diferentes”. Isso descreve a composição por justaposição (ex.: guarda-chuva, segunda-feira), mas o trecho não forma uma palavra composta — são várias palavras independentes unidas artificialmente. O hífen não está criando um novo vocábulo; está sinalizando a fala de outra pessoa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o hífen “separa uma sequência de palavras de mesmo valor semântico”. Na verdade, o hífen une as palavras, não as separa. Além disso, as palavras não têm “mesmo valor semântico” — são elementos de uma frase completa (“não são degradáveis e que eu deveria ter uma atitude um pouco mais ecológica”). A função é marcar o discurso citado, não organizar semanticamente.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa afirma que o hífen serve para “salientar a informação de que o isqueiro é feito de plástico”. O texto menciona o isqueiro plástico, mas o hífen não está destacando essa informação — ele está destacando a fala de terceiro. A ênfase recai sobre a atitude ecológica, não sobre o material do isqueiro. A alternativa acrescenta uma função que não existe no trecho.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. O hífen marca estilisticamente uma sequência de palavras ditas por uma terceira pessoa. O texto diz: “Alguém me disse que não-são-degradáveis-e-que-eu-deveria-ter-uma-atitude-um-pouco-mais-ecológica”. O autor une todas as palavras da fala de “alguém” com hífens para representar graficamente o discurso citado, como se fosse uma citação colada. É um recurso estilístico — o hífen funciona como aspas, indicando que aquilo é a fala de outrem, não do narrador.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o uso normativo do hífen (composição, como em guarda-chuva) e o uso estilístico (marcação de discurso). A alternativa A é a mais sedutora, pois parece plausível, mas o trecho não forma uma palavra composta — é uma frase inteira hifenizada.
PEGA ESSA DICA!
Ao ver hífen em uma sequência longa e incomum, pergunte-se: isso forma uma palavra legítima? Se não, provavelmente é um recurso expressivo — o autor está grifando algo, como uma fala, uma ironia ou uma ênfase.