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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce149832
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
BNB
Ano
2022
Nível
Superior
Texto CG1A1-II

     A crescente adoção do conceito de tecnologias sociais ocorre concomitantemente com o avanço de dois conceitos que lhe são complementares: economia solidária e capital social. As graves consequências do capitalismo e da globalização, refletidas em altos índices de desemprego, aumento de índices de violência e criminalidade, aprofundamento da pobreza e da degradação ambiental, não podem ser abordadas por projetos paternalistas e compensatórios. Ao contrário, requerem estudos aprofundados sobre um novo tipo de desenvolvimento. O professor Henrique Rattner pontua que, entre os cientistas sociais que se debruçam sobre os fracassos do desenvolvimento e suas causas, em todos os debates travados nos últimos anos, o conceito de capital social tem ocupado espaço crescente. O capital social, segundo Rattner, procura trabalhar com a necessidade gregária, o espírito de cooperação e os valores de apoio mútuo e solidariedade, com base na “eficiência social coletiva”.

     Capital social, segundo o estudioso John Durston, é o conjunto de normas, instituições e organizações que promovem a confiança, a ajuda recíproca e a cooperação e que incorporam benefícios como redução dos custos de transação, produção de bens públicos e facilitação da constituição de organizações de gestão de bases efetivas, de atores sociais e de sociedades civis saudáveis. Sua importância está na busca de estratégias de superação da pobreza e de integração de setores sociais excluídos.

     No Brasil, nas últimas décadas, tem havido uma multiplicação de experiências baseadas no conceito de economia solidária. Diferentemente de iniciativas meramente paliativas, como respostas emergenciais a situações de pobreza e miséria, há agora uma interpretação de que essas experiências devam ser uma base para a reconstrução do tecido social. Como diz o pesquisador Luis Inácio Gaiger, elas “constituiriam uma ação geradora de embriões de novas formas de produção e estimuladora de alternativas de vida econômica e social”.


Ivete Rodrigues e José Carlos Barbieri. A emergência da tecnologia social: revisitando o movimento da tecnologia apropriada como estratégia de desenvolvimento sustentável. In: Revista de Administração Pública – FGV, Rio de Janeiro, 42(6):1069-94, nov./dez. 2008 (com alterações).

A respeito dos aspectos linguísticos e estruturais do texto CG1A1-II, julgue o item subsecutivo.A expressão “Ao contrário” (terceiro período do primeiro parágrafo) poderia ser substituída pela expressão Por isso, sem prejuízo da correção gramatical e dos sentidos do texto.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substituição de conectivo: “Ao contrário” × “Por isso”

Gabarito: E (ERRADO). A substituição de “Ao contrário” por “Por isso” alteraria o sentido do texto, pois a primeira expressão estabelece oposição entre ideias, enquanto a segunda estabelece conclusão/causa-consequência. No trecho, o autor afirma que as consequências graves do capitalismo “não podem ser abordadas por projetos paternalistas e compensatórios” e, em seguida, apresenta a alternativa correta: “requerem estudos aprofundados sobre um novo tipo de desenvolvimento”. A relação é de contrariedade — nega-se uma via e aponta-se outra —, não de consequência lógica.

A relação no texto

Observe o período completo:

“As graves consequências do capitalismo e da globalização, refletidas em altos índices de desemprego, aumento de índices de violência e criminalidade, aprofundamento da pobreza e da degradação ambiental, não podem ser abordadas por projetos paternalistas e compensatórios. Ao contrário, requerem estudos aprofundados sobre um novo tipo de desenvolvimento.”

A primeira oração nega uma possibilidade (projetos paternalistas). A segunda, introduzida por “Ao contrário”, apresenta a ideia oposta: em vez daquilo que foi negado, o que se requer é outra coisa. O conectivo “Ao contrário” funciona como um operador de oposição/contraposição, equivalente a “pelo contrário”, “em vez disso”, “diversamente disso”.

Já “Por isso” é um conectivo conclusivo (ou causal-consecutivo): indica que a segunda ideia é consequência da primeira. Se substituíssemos, o período passaria a dizer que as consequências graves não podem ser abordadas por projetos paternalistas e, por causa disso, requerem estudos aprofundados. Isso não é o que o texto afirma: a relação não é de causa e efeito, mas de contraposição entre duas formas de abordar o problema.

Por que a troca é inválida

A banca cobra exatamente a preservação do sentido na reescrita. Para que uma substituição seja válida, o conectivo novo deve manter a mesma relação semântica do original. Aqui:

Conectivo

Relação semântica

Exemplo no texto

“Ao contrário”

Oposição / contraposição

nega uma via e aponta outra

“Por isso”

Conclusão / consequência

indicaria que a segunda ideia decorre da primeira

Como as relações são diferentes, a troca não preserva os sentidos — e o item está errado.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a pressa do candidato: “Ao contrário” e “Por isso” são conectivos comuns, mas têm valores semânticos opostos. Sempre que a questão pedir substituição “sem prejuízo do sentido”, identifique a relação que o conectivo original estabelece (oposição, causa, conclusão, condição etc.) e verifique se o substituto mantém essa relação.

PEGA ESSA DICA!

Grife o conectivo e pergunte: “que relação ele cria entre as ideias?”. Se o original é de oposição, o substituto também deve ser (ex.: “porém”, “contudo”, “entretanto”). “Por isso” só seria válido se a segunda ideia fosse consequência da primeira.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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