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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce149837
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
BNB
Ano
2022
Nível
Superior
Texto CG1A1-II

     A crescente adoção do conceito de tecnologias sociais ocorre concomitantemente com o avanço de dois conceitos que lhe são complementares: economia solidária e capital social. As graves consequências do capitalismo e da globalização, refletidas em altos índices de desemprego, aumento de índices de violência e criminalidade, aprofundamento da pobreza e da degradação ambiental, não podem ser abordadas por projetos paternalistas e compensatórios. Ao contrário, requerem estudos aprofundados sobre um novo tipo de desenvolvimento. O professor Henrique Rattner pontua que, entre os cientistas sociais que se debruçam sobre os fracassos do desenvolvimento e suas causas, em todos os debates travados nos últimos anos, o conceito de capital social tem ocupado espaço crescente. O capital social, segundo Rattner, procura trabalhar com a necessidade gregária, o espírito de cooperação e os valores de apoio mútuo e solidariedade, com base na “eficiência social coletiva”.

     Capital social, segundo o estudioso John Durston, é o conjunto de normas, instituições e organizações que promovem a confiança, a ajuda recíproca e a cooperação e que incorporam benefícios como redução dos custos de transação, produção de bens públicos e facilitação da constituição de organizações de gestão de bases efetivas, de atores sociais e de sociedades civis saudáveis. Sua importância está na busca de estratégias de superação da pobreza e de integração de setores sociais excluídos.

     No Brasil, nas últimas décadas, tem havido uma multiplicação de experiências baseadas no conceito de economia solidária. Diferentemente de iniciativas meramente paliativas, como respostas emergenciais a situações de pobreza e miséria, há agora uma interpretação de que essas experiências devam ser uma base para a reconstrução do tecido social. Como diz o pesquisador Luis Inácio Gaiger, elas “constituiriam uma ação geradora de embriões de novas formas de produção e estimuladora de alternativas de vida econômica e social”.


Ivete Rodrigues e José Carlos Barbieri. A emergência da tecnologia social: revisitando o movimento da tecnologia apropriada como estratégia de desenvolvimento sustentável. In: Revista de Administração Pública – FGV, Rio de Janeiro, 42(6):1069-94, nov./dez. 2008 (com alterações).

No que diz respeito aos sentidos e à estrutura do texto CG1A1-II, julgue os seguintes itens.Em relação à tipologia textual, o texto é predominantemente narrativo, uma vez que os autores organizam os fatos segundo critérios cronológicos.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Tipologia textual: o texto é dissertativo-argumentativo, não narrativo

Gabarito: E — ERRADO. O texto CG1A1-II é predominantemente dissertativo-argumentativo, pois apresenta uma tese (a necessidade de um novo tipo de desenvolvimento diante das consequências do capitalismo) e a defende com argumentos e citações de estudiosos. Não há enredo, personagens, conflito ou progressão cronológica de fatos — elementos essenciais da narração. A afirmação de que os autores organizam os fatos segundo critérios cronológicos é uma extrapolação que não se sustenta no texto.

O que decide a questão

A tipologia textual se define pela intenção predominante do autor, não pela presença isolada de algum recurso. Observe o comando: ele pede para julgar a tipologia predominante. No texto, o autor:

  • Expõe uma tese: as consequências do capitalismo e da globalização "não podem ser abordadas por projetos paternalistas e compensatórios. Ao contrário, requerem estudos aprofundados sobre um novo tipo de desenvolvimento".

  • Argumenta citando estudiosos (Rattner, Durston, Gaiger) para sustentar a tese.

  • Conclui defendendo que as experiências de economia solidária "constituiriam uma ação geradora de embriões de novas formas de produção".

Isso é a estrutura clássica do dissertativo-argumentativo: tese + argumentos + conclusão. Não há narrador contando uma história, não há personagens, não há sequência de eventos em ordem cronológica.

Por que a alternativa está errada

A alternativa comete o erro de classificar como narrativo um texto que é dissertativo-argumentativo. Vejamos os elementos que ela alega:

  • "organizam os fatos segundo critérios cronológicos": o texto não narra fatos; ele discute conceitos (tecnologias sociais, economia solidária, capital social) e defende um ponto de vista. Não há linha do tempo, não há "começo, meio e fim" de uma história.

  • "predominantemente narrativo": a narração exige enredo, personagens, tempo e espaço. Nada disso está presente. O texto é uma exposição argumentativa com citações de autoridade.

Tipologia textual
  • 1Dissertativo-argumentativo
    • Tese
    • Argumentos
    • Conclusão
    • Intenção: convencer
  • 2Narrativo
    • Enredo
    • Personagens
    • Tempo e espaço
    • Progressão cronológica
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Para identificar a tipologia, pergunte: qual é a intenção do autor? Contar uma história? Descrever algo? Convencer o leitor? Instruir? Se a intenção é convencer por meio de argumentos, é dissertativo-argumentativo, mesmo que haja citações ou referências a outros autores.

Conclusão

A afirmativa está errada porque classifica o texto como narrativo, quando ele é dissertativo-argumentativo. Não há critérios cronológicos na organização das ideias; há uma linha de raciocínio que defende uma tese.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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