Questão de Português — Sintaxe — CESPE / CEBRASPE 2022
Português›Sintaxe
Código
ce149912
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
DPE-RO
Ano
2022
Nível
Superior
Texto CG1A1-I
O terror torna-se total quando independe de toda
oposição; reina supremo quando ninguém mais lhe barra o
caminho. Se a legalidade é a essência do governo não tirânico e a
ilegalidade é a essência da tirania, então o terror é a essência do
domínio totalitário. O terror é a realização da lei do movimento.
O seu principal objetivo é tornar possível, à força da natureza ou
da história, propagar-se livremente por toda a humanidade, sem o
estorvo de qualquer ação humana espontânea. Como tal, o terror
procura “estabilizar” os homens, a fim de liberar as forças da
natureza ou da história. Esse movimento seleciona os inimigos da
humanidade contra os quais se desencadeia o terror, e não pode
permitir que qualquer ação livre, de oposição ou de simpatia,
interfira com a eliminação do “inimigo objetivo” da história ou
da natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram
conceitos vazios; “culpado” é quem estorva o caminho do
processo natural ou histórico que já emitiu julgamento quanto às
“raças inferiores”, quanto a quem é “indigno de viver”, quanto a
“classes agonizantes e povos decadentes”. O terror manda
cumprir esses julgamentos, mas no seu tribunal todos os
interessados são subjetivamente inocentes: os assassinados
porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque
realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de
morte pronunciada por um tribunal superior. Os próprios
governantes não afirmam serem justos ou sábios, mas apenas
executores de leis, teóricas ou naturais; não aplicam leis, mas
executam um movimento segundo a sua lei inerente.
No governo constitucional, as leis positivas destinam-se a
erigir fronteiras e a estabelecer canais de comunicação entre os
homens, cuja comunidade é continuamente posta em perigo pelos
novos homens que nela nascem. A estabilidade das leis
corresponde ao constante movimento de todas as coisas
humanas, um movimento que jamais pode cessar enquanto os
homens nasçam e morram. As leis circunscrevem cada novo
começo e, ao mesmo tempo, asseguram a sua liberdade de
movimento, a potencialidade de algo inteiramente novo e
imprevisível; os limites das leis positivas são para a existência
política do homem o que a memória é para a sua existência
histórica: garantem a preexistência de um mundo comum, a
realidade de certa continuidade que transcende a duração
individual de cada geração, absorve todas as novas origens e
delas se alimenta.
Confundir o terror total com um sintoma de governo
tirânico é tão fácil, porque o governo totalitário tem de
conduzir-se como uma tirania e põe abaixo as fronteiras da lei
feita pelos homens. Mas o terror total não deixa atrás de si
nenhuma ilegalidade arbitrária, e a sua fúria não visa ao
benefício do poder despótico de um homem contra todos, muito
menos a uma guerra de todos contra todos. Em lugar das
fronteiras e dos canais de comunicação entre os homens
individuais, constrói um cinturão de ferro que os cinge de tal
forma que é como se a sua pluralidade se dissolvesse em
Um-Só-Homem de dimensões gigantescas. Abolir as cercas da
lei entre os homens — como o faz a tirania — significa tirar dos
homens os seus direitos e destruir a liberdade como realidade
política viva, pois o espaço entre os homens, delimitado pelas
leis, é o espaço vital da liberdade.
Hannah Arendt. Origens do totalitarismo. Internet:<www.dhnet.org.br> (com adaptações).
No último parágrafo do texto CG1A1-I, a forma verbal “constrói” (terceiro período) estabelece concordância com o termo
E“uma guerra de todos contra todos” (segundo período).
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GabaritoA — “o terror total” (segundo período).
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Concordância verbal: o sujeito de “constrói” no último parágrafo
Gabarito: letra A. A forma verbal “constrói” concorda com “o terror total”, como se lê no trecho: “Em lugar das fronteiras e dos canais de comunicação entre os homens individuais, constrói um cinturão de ferro que os cinge de tal forma...”. O verbo está na 3ª pessoa do singular porque seu sujeito é “o terror total”, retomado anaforicamente do período anterior — e não qualquer um dos termos que aparecem nas demais alternativas.
A questão é de concordância verbal: o verbo deve flexionar-se de acordo com o núcleo do sujeito. Para acertar, é preciso isolar a oração e perguntar “quem constrói?”. A resposta está no próprio texto: quem constrói o cinturão de ferro é o terror total. As demais opções trazem termos que estão na mesma frase, mas exercem outras funções sintáticas — objeto direto, adjunto adverbial, etc. — e por isso não podem reger a concordância.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
No terceiro período do último parágrafo, lemos: “Em lugar das fronteiras e dos canais de comunicação entre os homens individuais, constrói um cinturão de ferro...”. O sujeito de “constrói” é “o terror total”, mencionado no segundo período: “Mas o terror total não deixa atrás de si nenhuma ilegalidade arbitrária...”. O verbo está no singular porque o núcleo do sujeito é “terror” (singular). A concordância é direta: sujeito simples no singular → verbo no singular.
Alternativa B — ❌ Incorreta
“Um cinturão de ferro” é o objeto direto de “constrói” — é aquilo que é construído, não quem constrói. A banca tenta atrair o candidato pela proximidade com o verbo, mas a função sintática é de complemento verbal. O verbo concorda com o sujeito, nunca com o objeto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
“Nenhuma ilegalidade arbitrária” é o objeto direto do verbo “deixa” no segundo período (“não deixa atrás de si nenhuma ilegalidade arbitrária”). Não tem relação de concordância com “constrói”, que está em outro período e tem outro sujeito.
Alternativa D — ❌ Incorreta
“A sua fúria” é o sujeito do verbo “visa” no segundo período (“a sua fúria não visa ao benefício do poder despótico”). É um sujeito de outra oração, não o de “constrói”. A banca troca o referente: o pronome “sua” remete a “terror total”, mas o termo “a sua fúria” não é o sujeito do verbo em questão.
Alternativa E — ❌ Incorreta
“Uma guerra de todos contra todos” é parte de uma locução adverbial (“muito menos a uma guerra de todos contra todos”) que complementa o sentido de “visa” no segundo período. Não exerce função de sujeito e, portanto, não pode ser o termo com o qual “constrói” concorda.
NÃO CAIA NESSA!
A banca coloca nas alternativas termos que estão próximos do verbo ou que são sujeitos de outros verbos da mesma frase. A técnica é sempre perguntar: quem pratica a ação? Só o sujeito responde.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar o sujeito, isole a oração e elimine os termos que funcionam como objeto, adjunto ou complemento. O verbo concorda com o núcleo do sujeito, não com o termo mais próximo.