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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce149913
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
DPE-RO
Ano
2022
Nível
Superior
Texto CG1A1-I

   O terror torna-se total quando independe de toda oposição; reina supremo quando ninguém mais lhe barra o caminho. Se a legalidade é a essência do governo não tirânico e a ilegalidade é a essência da tirania, então o terror é a essência do domínio totalitário. O terror é a realização da lei do movimento. O seu principal objetivo é tornar possível, à força da natureza ou da história, propagar-se livremente por toda a humanidade, sem o estorvo de qualquer ação humana espontânea. Como tal, o terror procura “estabilizar” os homens, a fim de liberar as forças da natureza ou da história. Esse movimento seleciona os inimigos da humanidade contra os quais se desencadeia o terror, e não pode permitir que qualquer ação livre, de oposição ou de simpatia, interfira com a eliminação do “inimigo objetivo” da história ou da natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram conceitos vazios; “culpado” é quem estorva o caminho do processo natural ou histórico que já emitiu julgamento quanto às “raças inferiores”, quanto a quem é “indigno de viver”, quanto a “classes agonizantes e povos decadentes”. O terror manda cumprir esses julgamentos, mas no seu tribunal todos os interessados são subjetivamente inocentes: os assassinados porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte pronunciada por um tribunal superior. Os próprios governantes não afirmam serem justos ou sábios, mas apenas executores de leis, teóricas ou naturais; não aplicam leis, mas executam um movimento segundo a sua lei inerente.
  No governo constitucional, as leis positivas destinam-se a erigir fronteiras e a estabelecer canais de comunicação entre os homens, cuja comunidade é continuamente posta em perigo pelos novos homens que nela nascem. A estabilidade das leis corresponde ao constante movimento de todas as coisas humanas, um movimento que jamais pode cessar enquanto os homens nasçam e morram. As leis circunscrevem cada novo começo e, ao mesmo tempo, asseguram a sua liberdade de movimento, a potencialidade de algo inteiramente novo e imprevisível; os limites das leis positivas são para a existência política do homem o que a memória é para a sua existência histórica: garantem a preexistência de um mundo comum, a realidade de certa continuidade que transcende a duração individual de cada geração, absorve todas as novas origens e delas se alimenta.
    Confundir o terror total com um sintoma de governo tirânico é tão fácil, porque o governo totalitário tem de conduzir-se como uma tirania e põe abaixo as fronteiras da lei feita pelos homens. Mas o terror total não deixa atrás de si nenhuma ilegalidade arbitrária, e a sua fúria não visa ao benefício do poder despótico de um homem contra todos, muito menos a uma guerra de todos contra todos. Em lugar das fronteiras e dos canais de comunicação entre os homens individuais, constrói um cinturão de ferro que os cinge de tal forma que é como se a sua pluralidade se dissolvesse em Um-Só-Homem de dimensões gigantescas. Abolir as cercas da lei entre os homens — como o faz a tirania — significa tirar dos homens os seus direitos e destruir a liberdade como realidade política viva, pois o espaço entre os homens, delimitado pelas leis, é o espaço vital da liberdade.

Hannah Arendt. Origens do totalitarismo. Internet:<www.dhnet.org.br> (com adaptações). 
No primeiro período do segundo parágrafo do texto CG1A1-I, o verbo “erigir” tem o mesmo sentido de
  1. Amanter.
  2. Bderrubar.
  3. Calargar.
  4. Dconstruir.
  5. Ereduzir.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — construir.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sentido de “erigir” no texto

Gabarito: letra D. No primeiro período do segundo parágrafo, o verbo “erigir” tem o mesmo sentido de construir — e isso se prova pelo próprio texto, que associa as leis a “fronteiras” e “canais de comunicação” que precisam ser erguidos/estabelecidos para garantir a liberdade. A alternativa D é a única que preserva exatamente esse sentido de levantar, edificar, criar.

Veja o trecho que ancora a resposta:

“No governo constitucional, as leis positivas destinam-se a erigir fronteiras e a estabelecer canais de comunicação entre os homens”

Aqui, “erigir” está em sentido denotativo (literal): as leis constroem/levantam as fronteiras que delimitam o espaço de liberdade. Não há nenhum matiz de “manter”, “derrubar”, “alargar” ou “reduzir” — o verbo expressa a ação de fazer surgir, edificar.

Alternativa A — ❌ Incorreta

“Manter” expressa conservação de algo já existente, enquanto “erigir” expressa criação. O texto fala de leis que destinam-se a erigir (a construir) fronteiras, não a preservá-las. A alternativa contradiz o sentido de ação criadora do verbo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“Derrubar” é antônimo de “erigir”. O texto afirma que as leis erigem (levantam) fronteiras; derrubá-las seria justamente o que a tirania faz — e o texto diz isso ao mencionar que o governo totalitário “põe abaixo as fronteiras da lei”. Logo, B inverte o sentido.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“Alargar” pressupõe que algo já existe e precisa ser ampliado. O texto não fala em ampliar fronteiras, mas em criá-las (“erigir fronteiras”). A alternativa extrapola ao introduzir a ideia de aumento de algo preexistente, que não está no texto.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Construir” é sinônimo direto de “erigir” no sentido de levantar, edificar, fazer surgir. No contexto, as leis positivas constroem as fronteiras e os canais de comunicação entre os homens — exatamente o que o verbo “erigir” expressa. A substituição preserva integralmente o sentido.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“Reduzir” é antônimo de “erigir”. O texto fala em estabelecer fronteiras, não em diminuí-las. A alternativa contradiz o sentido do verbo e não encontra qualquer apoio no trecho.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de sinonímia, não decore sinônimos isolados — leia o contexto e pergunte: “o que o sujeito faz com o objeto?”. Aqui, as leis fazem surgir fronteiras; logo, “construir”. Desconfie de antônimos disfarçados (derrubar, reduzir) e de verbos que indicam ação posterior (manter, alargar).

Gabarito: letra D.

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