Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022
Português›Interpretação de Textos
Código
ce149914
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
DPE-RO
Ano
2022
Nível
Superior
Texto CG1A1-I
O terror torna-se total quando independe de toda
oposição; reina supremo quando ninguém mais lhe barra o
caminho. Se a legalidade é a essência do governo não tirânico e a
ilegalidade é a essência da tirania, então o terror é a essência do
domínio totalitário. O terror é a realização da lei do movimento.
O seu principal objetivo é tornar possível, à força da natureza ou
da história, propagar-se livremente por toda a humanidade, sem o
estorvo de qualquer ação humana espontânea. Como tal, o terror
procura “estabilizar” os homens, a fim de liberar as forças da
natureza ou da história. Esse movimento seleciona os inimigos da
humanidade contra os quais se desencadeia o terror, e não pode
permitir que qualquer ação livre, de oposição ou de simpatia,
interfira com a eliminação do “inimigo objetivo” da história ou
da natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram
conceitos vazios; “culpado” é quem estorva o caminho do
processo natural ou histórico que já emitiu julgamento quanto às
“raças inferiores”, quanto a quem é “indigno de viver”, quanto a
“classes agonizantes e povos decadentes”. O terror manda
cumprir esses julgamentos, mas no seu tribunal todos os
interessados são subjetivamente inocentes: os assassinados
porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque
realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de
morte pronunciada por um tribunal superior. Os próprios
governantes não afirmam serem justos ou sábios, mas apenas
executores de leis, teóricas ou naturais; não aplicam leis, mas
executam um movimento segundo a sua lei inerente.
No governo constitucional, as leis positivas destinam-se a
erigir fronteiras e a estabelecer canais de comunicação entre os
homens, cuja comunidade é continuamente posta em perigo pelos
novos homens que nela nascem. A estabilidade das leis
corresponde ao constante movimento de todas as coisas
humanas, um movimento que jamais pode cessar enquanto os
homens nasçam e morram. As leis circunscrevem cada novo
começo e, ao mesmo tempo, asseguram a sua liberdade de
movimento, a potencialidade de algo inteiramente novo e
imprevisível; os limites das leis positivas são para a existência
política do homem o que a memória é para a sua existência
histórica: garantem a preexistência de um mundo comum, a
realidade de certa continuidade que transcende a duração
individual de cada geração, absorve todas as novas origens e
delas se alimenta.
Confundir o terror total com um sintoma de governo
tirânico é tão fácil, porque o governo totalitário tem de
conduzir-se como uma tirania e põe abaixo as fronteiras da lei
feita pelos homens. Mas o terror total não deixa atrás de si
nenhuma ilegalidade arbitrária, e a sua fúria não visa ao
benefício do poder despótico de um homem contra todos, muito
menos a uma guerra de todos contra todos. Em lugar das
fronteiras e dos canais de comunicação entre os homens
individuais, constrói um cinturão de ferro que os cinge de tal
forma que é como se a sua pluralidade se dissolvesse em
Um-Só-Homem de dimensões gigantescas. Abolir as cercas da
lei entre os homens — como o faz a tirania — significa tirar dos
homens os seus direitos e destruir a liberdade como realidade
política viva, pois o espaço entre os homens, delimitado pelas
leis, é o espaço vital da liberdade.
Hannah Arendt. Origens do totalitarismo. Internet:<www.dhnet.org.br> (com adaptações).
No primeiro parágrafo do texto CG1A1-I, a autora emprega aspas nas expressões ‘raças inferiores’, ‘indigno de viver’ e ‘classes agonizantes e povos decadentes’ com a finalidade de
Adestacar que trata de um pensamento alheio.
Bdemarcar citações.
Cironizar o sentido dessas expressões.
Dindicar a fala de uma personagem.
Eexpressar sarcasmo.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoA — destacar que trata de um pensamento alheio.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Uso das aspas em 'raças inferiores', 'indigno de viver' e 'classes agonizantes e povos decadentes'
Gabarito: letra A. No primeiro parágrafo, a autora emprega aspas nessas expressões para destacar que se trata de um pensamento alheio — ou seja, de termos que não são dela, mas do discurso do terror totalitário, que já emitiu julgamento sobre esses grupos. A passagem que ancora essa leitura é:
"'culpado' é quem estorva o caminho do processo natural ou histórico que já emitiu julgamento quanto às 'raças inferiores', quanto a quem é 'indigno de viver', quanto a 'classes agonizantes e povos decadentes'."
As aspas sinalizam que essas expressões pertencem ao vocabulário do próprio regime totalitário — são as categorias que o movimento usa para selecionar seus inimigos. A autora as isola para marcar distanciamento: ela não as assume como suas, apenas as reporta como parte do discurso que analisa.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta porque as aspas, nesse contexto, têm função de distanciamento do discurso alheio. A autora não está citando uma obra específica nem reproduzindo a fala de uma personagem; ela está isolando termos que pertencem ao vocabulário do terror totalitário, para deixar claro que são conceitos do regime, não dela. O trecho "já emitiu julgamento quanto às 'raças inferiores'" mostra que essas expressões são o conteúdo do julgamento do processo histórico/natural — um pensamento alheio à autora, que ela apenas reporta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao dizer que as aspas demarcam citações. Citação pressupõe a reprodução literal de um texto ou fala de outra pessoa, com indicação de fonte. No texto, não há indicação de que essas expressões sejam extraídas de uma obra ou discurso específico; elas são apresentadas como categorias do discurso totalitário em geral. A função é de menção a um conceito alheio, não de citação formal.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao afirmar que há ironia. Ironia consiste em dizer o contrário do que se quer significar, com intenção crítica ou humorística. No texto, a autora não inverte o sentido das expressões; ela as reproduz para mostrar como o terror as utiliza. Não há sinal de ironia — há distanciamento crítico, mas não ironia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao dizer que as aspas indicam a fala de uma personagem. O texto é um ensaio teórico, não um texto narrativo com personagens. As expressões não são falas de ninguém; são termos do discurso do regime. A função de aspas para fala de personagem é típica de narrativas, o que não é o caso.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao falar em sarcasmo. Sarcasmo é uma forma de ironia mordaz, com intenção de ferir ou ridicularizar. A autora não está ridicularizando as expressões; ela as isola para analisá-las como parte do mecanismo do terror. O tom é de análise crítica, não de sarcasmo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato entre "citação" e "menção a discurso alheio". A diferença é sutil: citação exige fonte explícita; menção apenas isola o termo para mostrar que não é do autor. Aqui, as aspas marcam distanciamento, não reprodução literal de um texto específico.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar aspas, pergunte: o autor está reproduzindo um texto/fala específica (citação) ou apenas isolando um termo para marcar que ele pertence a outro discurso (menção)? Se não há fonte indicada, é menção, não citação.