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Questão de Português — Pontuação — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsPontuação
Código
ce149916
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
DPE-RO
Ano
2022
Nível
Superior
Texto CG1A1-I

   O terror torna-se total quando independe de toda oposição; reina supremo quando ninguém mais lhe barra o caminho. Se a legalidade é a essência do governo não tirânico e a ilegalidade é a essência da tirania, então o terror é a essência do domínio totalitário. O terror é a realização da lei do movimento. O seu principal objetivo é tornar possível, à força da natureza ou da história, propagar-se livremente por toda a humanidade, sem o estorvo de qualquer ação humana espontânea. Como tal, o terror procura “estabilizar” os homens, a fim de liberar as forças da natureza ou da história. Esse movimento seleciona os inimigos da humanidade contra os quais se desencadeia o terror, e não pode permitir que qualquer ação livre, de oposição ou de simpatia, interfira com a eliminação do “inimigo objetivo” da história ou da natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram conceitos vazios; “culpado” é quem estorva o caminho do processo natural ou histórico que já emitiu julgamento quanto às “raças inferiores”, quanto a quem é “indigno de viver”, quanto a “classes agonizantes e povos decadentes”. O terror manda cumprir esses julgamentos, mas no seu tribunal todos os interessados são subjetivamente inocentes: os assassinados porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte pronunciada por um tribunal superior. Os próprios governantes não afirmam serem justos ou sábios, mas apenas executores de leis, teóricas ou naturais; não aplicam leis, mas executam um movimento segundo a sua lei inerente.
  No governo constitucional, as leis positivas destinam-se a erigir fronteiras e a estabelecer canais de comunicação entre os homens, cuja comunidade é continuamente posta em perigo pelos novos homens que nela nascem. A estabilidade das leis corresponde ao constante movimento de todas as coisas humanas, um movimento que jamais pode cessar enquanto os homens nasçam e morram. As leis circunscrevem cada novo começo e, ao mesmo tempo, asseguram a sua liberdade de movimento, a potencialidade de algo inteiramente novo e imprevisível; os limites das leis positivas são para a existência política do homem o que a memória é para a sua existência histórica: garantem a preexistência de um mundo comum, a realidade de certa continuidade que transcende a duração individual de cada geração, absorve todas as novas origens e delas se alimenta.
    Confundir o terror total com um sintoma de governo tirânico é tão fácil, porque o governo totalitário tem de conduzir-se como uma tirania e põe abaixo as fronteiras da lei feita pelos homens. Mas o terror total não deixa atrás de si nenhuma ilegalidade arbitrária, e a sua fúria não visa ao benefício do poder despótico de um homem contra todos, muito menos a uma guerra de todos contra todos. Em lugar das fronteiras e dos canais de comunicação entre os homens individuais, constrói um cinturão de ferro que os cinge de tal forma que é como se a sua pluralidade se dissolvesse em Um-Só-Homem de dimensões gigantescas. Abolir as cercas da lei entre os homens — como o faz a tirania — significa tirar dos homens os seus direitos e destruir a liberdade como realidade política viva, pois o espaço entre os homens, delimitado pelas leis, é o espaço vital da liberdade.

Hannah Arendt. Origens do totalitarismo. Internet:<www.dhnet.org.br> (com adaptações). 
No penúltimo período do primeiro parágrafo do texto CG1A1-I, os dois-pontos empregados após “inocentes” introduzem uma
  1. Aconclusão.
  2. Bcitação.
  3. Cconsequência
  4. Dexplicação.
  5. Esíntese.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — explicação.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função dos dois-pontos: explicação

Gabarito: letra D. Os dois-pontos após “inocentes” introduzem uma explicação, pois o trecho que se segue detalha o porquê de os assassinados e os assassinos serem considerados subjetivamente inocentes. Como se lê no texto: “no seu tribunal todos os interessados são subjetivamente inocentes: os assassinados porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte”. A parte após os dois-pontos explica a afirmação anterior, apresentando as razões de cada grupo.

O que a banca cobrou

A questão pede que você identifique a função semântica do sinal de dois-pontos em um trecho específico. Não se trata de decorar regra, mas de ler o que o autor quis dizer com a estrutura. Os dois-pontos, nesse caso, não introduzem uma citação, nem uma conclusão, nem uma consequência — eles abrem uma explicação.

Observe o trecho completo:

“O terror manda cumprir esses julgamentos, mas no seu tribunal todos os interessados são subjetivamente inocentes: os assassinados porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte pronunciada por um tribunal superior.”

A primeira parte afirma que “todos os interessados são subjetivamente inocentes”. Os dois-pontos vêm logo depois para justificar essa afirmação: explica-se por que os assassinados são inocentes (nada fizeram) e por que os assassinos também (apenas executaram uma sentença). A relação é de explicação/causa, não de conclusão ou consequência.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Conclusão seria uma ideia que fecha um raciocínio, geralmente introduzida por conectivos como “portanto”, “logo”, “assim”. No trecho, os dois-pontos não encerram um raciocínio; eles abrem uma justificativa. A conclusão viria depois de toda a explicação, não no ponto em que o sinal aparece.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Citação seria a reprodução de fala ou texto de outra pessoa, como em “Disse o autor: ‘...’”. Aqui, o que segue os dois-pontos é uma explicação do próprio autor, não uma citação. Não há aspas, nem verbo de elocução (disse, afirmou), nem mudança de voz.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Consequência é um efeito que decorre de uma causa, geralmente marcado por “por isso”, “de modo que”. No trecho, a relação é inversa: a primeira parte é a afirmação, e a segunda é a causa/justificativa dessa afirmação. Não há relação de causa-efeito entre as duas partes; há relação de fundamentação.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Como visto, os dois-pontos introduzem uma explicação: o trecho seguinte detalha as razões que tornam “todos os interessados subjetivamente inocentes”. A estrutura é típica de explicação: afirma-se algo e, em seguida, justifica-se com “porque”.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Síntese seria um resumo do que foi dito, como em “Resumindo: ...”. No trecho, o que vem após os dois-pontos não resume nada; ao contrário, expande e detalha a ideia anterior, apresentando duas justificativas específicas.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre explicação e conclusão/consequência. A presença de “porque” logo após os dois-pontos é a pista decisiva: “porque” introduz causa/justificativa, não efeito. Se você trocasse os dois-pontos por “pois” ou “porque”, o sentido se manteria — o que confirma a explicação.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar a função dos dois-pontos, pergunte-se: o que vem depois explica, enumera, cita ou conclui? Se houver “porque”, “pois”, “já que”, é explicação. Se houver “portanto”, “logo”, é conclusão. Se houver lista, é enumeração.

Gabarito: letra D.

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