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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce149917
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
DPE-RO
Ano
2022
Nível
Superior
Texto CG1A1-I

   O terror torna-se total quando independe de toda oposição; reina supremo quando ninguém mais lhe barra o caminho. Se a legalidade é a essência do governo não tirânico e a ilegalidade é a essência da tirania, então o terror é a essência do domínio totalitário. O terror é a realização da lei do movimento. O seu principal objetivo é tornar possível, à força da natureza ou da história, propagar-se livremente por toda a humanidade, sem o estorvo de qualquer ação humana espontânea. Como tal, o terror procura “estabilizar” os homens, a fim de liberar as forças da natureza ou da história. Esse movimento seleciona os inimigos da humanidade contra os quais se desencadeia o terror, e não pode permitir que qualquer ação livre, de oposição ou de simpatia, interfira com a eliminação do “inimigo objetivo” da história ou da natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram conceitos vazios; “culpado” é quem estorva o caminho do processo natural ou histórico que já emitiu julgamento quanto às “raças inferiores”, quanto a quem é “indigno de viver”, quanto a “classes agonizantes e povos decadentes”. O terror manda cumprir esses julgamentos, mas no seu tribunal todos os interessados são subjetivamente inocentes: os assassinados porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte pronunciada por um tribunal superior. Os próprios governantes não afirmam serem justos ou sábios, mas apenas executores de leis, teóricas ou naturais; não aplicam leis, mas executam um movimento segundo a sua lei inerente.
  No governo constitucional, as leis positivas destinam-se a erigir fronteiras e a estabelecer canais de comunicação entre os homens, cuja comunidade é continuamente posta em perigo pelos novos homens que nela nascem. A estabilidade das leis corresponde ao constante movimento de todas as coisas humanas, um movimento que jamais pode cessar enquanto os homens nasçam e morram. As leis circunscrevem cada novo começo e, ao mesmo tempo, asseguram a sua liberdade de movimento, a potencialidade de algo inteiramente novo e imprevisível; os limites das leis positivas são para a existência política do homem o que a memória é para a sua existência histórica: garantem a preexistência de um mundo comum, a realidade de certa continuidade que transcende a duração individual de cada geração, absorve todas as novas origens e delas se alimenta.
    Confundir o terror total com um sintoma de governo tirânico é tão fácil, porque o governo totalitário tem de conduzir-se como uma tirania e põe abaixo as fronteiras da lei feita pelos homens. Mas o terror total não deixa atrás de si nenhuma ilegalidade arbitrária, e a sua fúria não visa ao benefício do poder despótico de um homem contra todos, muito menos a uma guerra de todos contra todos. Em lugar das fronteiras e dos canais de comunicação entre os homens individuais, constrói um cinturão de ferro que os cinge de tal forma que é como se a sua pluralidade se dissolvesse em Um-Só-Homem de dimensões gigantescas. Abolir as cercas da lei entre os homens — como o faz a tirania — significa tirar dos homens os seus direitos e destruir a liberdade como realidade política viva, pois o espaço entre os homens, delimitado pelas leis, é o espaço vital da liberdade.

Hannah Arendt. Origens do totalitarismo. Internet:<www.dhnet.org.br> (com adaptações). 
No último período do segundo parágrafo do texto CG1A1-I, o termo “absorve” refere-se
  1. Aa “preexistência de um mundo comum”.
  2. Ba “o que a memória é para a sua existência histórica”.
  3. Ca “certa continuidade”.
  4. Dao fato de “os limites das leis positivas” serem “para a existência política do homem o que a memória é para a sua existência histórica”.
  5. Ea “duração individual de cada geração”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — a “certa continuidade”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Referência do termo “absorve” no último período do segundo parágrafo

Gabarito: letra C. No trecho final do segundo parágrafo, o verbo “absorve” tem como referente “certa continuidade”, e não qualquer outro termo da oração. A prova está na estrutura sintática do período: o sujeito de “absorve” é o pronome relativo “que”, que retoma imediatamente o antecedente “certa continuidade”.

Veja o trecho exato:

“garantem a preexistência de um mundo comum, a realidade de certa continuidade que transcende a duração individual de cada geração, absorve todas as novas origens e delas se alimenta.”

Aqui, a oração “que transcende a duração individual de cada geração, absorve todas as novas origens e delas se alimenta” é uma oração subordinada adjetiva restritiva introduzida pelo pronome relativo “que”. O pronome “que” retoma o substantivo mais próximo, que é “continuidade” (núcleo de “certa continuidade”). Por isso, o sujeito de “absorve” é “que” (= “certa continuidade”).

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa aponta “preexistência de um mundo comum” como referente. Porém, “preexistência” está em outra oração coordenada (“garantem a preexistência de um mundo comum”), e o pronome “que” não retoma esse termo, pois há um elemento mais próximo (“certa continuidade”) que funciona como antecedente. Erro: troca de referente — o candidato confunde o termo que aparece antes na frase com o antecedente real do pronome.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa cita “o que a memória é para a sua existência histórica”, que é uma oração comparativa (“o que a memória é para a sua existência histórica”) e não um substantivo que possa ser retomado por “que”. O pronome relativo “que” exige um antecedente nominal; essa expressão é uma oração, não um nome. Erro: troca de classe gramatical — a banca mistura a comparação com o referente.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Como demonstrado, “que” retoma “certa continuidade”. O núcleo do sintagma é “continuidade”, e o pronome relativo concorda com ele (singular). A oração adjetiva explica o que essa continuidade faz: “transcende a duração individual de cada geração, absorve todas as novas origens e delas se alimenta”. Portanto, “absorve” refere-se a “certa continuidade”.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D é uma paráfrase longa que mistura vários elementos do período, mas não identifica o antecedente correto. Ela junta “os limites das leis positivas” com a comparação “o que a memória é...”, mas o pronome “que” não retoma essa estrutura inteira. Erro: generalização indevida — a alternativa amplia o referente para todo o período, quando o pronome tem um antecedente específico e imediato.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa aponta “duração individual de cada geração” como referente. Porém, “duração” está dentro da oração adjetiva (“que transcende a duração individual de cada geração”) e não é o antecedente do pronome. O pronome “que” já foi usado antes de “duração”; o segundo “que” (implícito) retoma “continuidade”. Erro: troca de referente — o candidato se perde na cadeia de retomadas.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a cadeia coesiva do período. O pronome relativo “que” retoma o termo imediatamente anterior, mas o período é longo e cheio de intercalações. A armadilha é escolher um termo que aparece antes, mas não é o antecedente.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o referente de um pronome relativo, volte ao termo imediatamente anterior que concorde em gênero e número. Se houver dúvida, reescreva a oração substituindo “que” pelo termo candidato e veja se faz sentido.

Gabarito: letra C.

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