Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022
Português›Interpretação de Textos
Código
ce149918
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
DPE-RO
Ano
2022
Nível
Superior
Texto CG1A1-I
O terror torna-se total quando independe de toda
oposição; reina supremo quando ninguém mais lhe barra o
caminho. Se a legalidade é a essência do governo não tirânico e a
ilegalidade é a essência da tirania, então o terror é a essência do
domínio totalitário. O terror é a realização da lei do movimento.
O seu principal objetivo é tornar possível, à força da natureza ou
da história, propagar-se livremente por toda a humanidade, sem o
estorvo de qualquer ação humana espontânea. Como tal, o terror
procura “estabilizar” os homens, a fim de liberar as forças da
natureza ou da história. Esse movimento seleciona os inimigos da
humanidade contra os quais se desencadeia o terror, e não pode
permitir que qualquer ação livre, de oposição ou de simpatia,
interfira com a eliminação do “inimigo objetivo” da história ou
da natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram
conceitos vazios; “culpado” é quem estorva o caminho do
processo natural ou histórico que já emitiu julgamento quanto às
“raças inferiores”, quanto a quem é “indigno de viver”, quanto a
“classes agonizantes e povos decadentes”. O terror manda
cumprir esses julgamentos, mas no seu tribunal todos os
interessados são subjetivamente inocentes: os assassinados
porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque
realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de
morte pronunciada por um tribunal superior. Os próprios
governantes não afirmam serem justos ou sábios, mas apenas
executores de leis, teóricas ou naturais; não aplicam leis, mas
executam um movimento segundo a sua lei inerente.
No governo constitucional, as leis positivas destinam-se a
erigir fronteiras e a estabelecer canais de comunicação entre os
homens, cuja comunidade é continuamente posta em perigo pelos
novos homens que nela nascem. A estabilidade das leis
corresponde ao constante movimento de todas as coisas
humanas, um movimento que jamais pode cessar enquanto os
homens nasçam e morram. As leis circunscrevem cada novo
começo e, ao mesmo tempo, asseguram a sua liberdade de
movimento, a potencialidade de algo inteiramente novo e
imprevisível; os limites das leis positivas são para a existência
política do homem o que a memória é para a sua existência
histórica: garantem a preexistência de um mundo comum, a
realidade de certa continuidade que transcende a duração
individual de cada geração, absorve todas as novas origens e
delas se alimenta.
Confundir o terror total com um sintoma de governo
tirânico é tão fácil, porque o governo totalitário tem de
conduzir-se como uma tirania e põe abaixo as fronteiras da lei
feita pelos homens. Mas o terror total não deixa atrás de si
nenhuma ilegalidade arbitrária, e a sua fúria não visa ao
benefício do poder despótico de um homem contra todos, muito
menos a uma guerra de todos contra todos. Em lugar das
fronteiras e dos canais de comunicação entre os homens
individuais, constrói um cinturão de ferro que os cinge de tal
forma que é como se a sua pluralidade se dissolvesse em
Um-Só-Homem de dimensões gigantescas. Abolir as cercas da
lei entre os homens — como o faz a tirania — significa tirar dos
homens os seus direitos e destruir a liberdade como realidade
política viva, pois o espaço entre os homens, delimitado pelas
leis, é o espaço vital da liberdade.
Hannah Arendt. Origens do totalitarismo. Internet:<www.dhnet.org.br> (com adaptações).
Infere-se do texto CG1A1-I que, na lógica que rege o tribunal do terror, além dos assassinados, também são subjetivamente inocentes os assassinos, porque estes
Aapenas executam as leis do regime totalitário.
Bsão vítimas do regime totalitário.
Cdevem obediência aos seus governantes.
Dbuscam justiça.
Esão privilegiados pelo regime totalitário.
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GabaritoA — apenas executam as leis do regime totalitário.
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Inferência sobre a lógica do tribunal do terror
Gabarito: letra A. A alternativa A está correta porque o texto afirma que os assassinos são subjetivamente inocentes porque realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte pronunciada por um tribunal superior — ou seja, eles apenas executam as leis do regime totalitário. As demais alternativas extrapolam o texto, acrescentando ideias (vítima, obediência, justiça, privilégio) que não estão sustentadas na passagem.
A chave de resolução
O comando pede uma inferência ("Infere-se do texto"), mas a resposta está diretamente ancorada em uma passagem explícita. A banca não quer que você deduza além do texto; quer que você parafraseie fielmente a razão dada pela autora para a inocência subjetiva dos assassinos. Veja o trecho decisivo:
"os assassinos porque realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte pronunciada por um tribunal superior"
Aqui está a causa da inocência subjetiva: o assassino não age por vontade própria, mas como executor de uma ordem superior. A alternativa A traduz exatamente isso: "apenas executam as leis do regime totalitário".
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A está correta porque parafraseia a passagem citada. O texto diz que os assassinos "realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte". A expressão "apenas executam as leis do regime totalitário" é uma reescritura fiel dessa ideia: o assassino é um mero instrumento da lei do movimento, não um agente moral. Não há acréscimo de informação — apenas a síntese do que o texto afirma.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B extrapola o texto. Em nenhum momento Arendt diz que os assassinos são vítimas do regime. O texto os descreve como executores de uma sentença, mas não os coloca no papel de vítimas. A palavra "vítima" carrega um juízo de valor que o texto não emite. O texto apenas explica a lógica da inocência subjetiva, não faz uma avaliação moral sobre quem sofre.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C tangencia o texto. É verdade que os assassinos obedecem a uma ordem, mas o texto não fala em "obediência aos governantes". A obediência aqui é a execução de uma lei (do movimento, da história, da natureza), não uma relação pessoal de subordinação a governantes. A alternativa troca o objeto da obediência: o texto fala em executar leis; a alternativa fala em obedecer a governantes. Isso é uma troca de conceito.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D acrescenta opinião. O texto não diz que os assassinos "buscam justiça". Pelo contrário, a lógica do terror é a eliminação do inimigo objetivo, não a busca de justiça. A palavra "justiça" não aparece no texto e, se aparecesse, seria em sentido oposto — o tribunal do terror não julga, apenas executa julgamentos já pronunciados. A alternativa contradiz a essência do que Arendt descreve.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E extrapola completamente. O texto não menciona privilégio algum dos assassinos. A inocência subjetiva não decorre de um suposto privilégio, mas do fato de que eles não agem como indivíduos — são meros executores. A ideia de "privilegiados" é uma invenção que não tem qualquer apoio no texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tendência de extrapolar com um julgamento moral (vítima, obediência, justiça, privilégio) em vez de se ater à lógica interna do tribunal do terror. A resposta correta é a que parafraseia o texto, não a que interpreta além dele.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de inferência, grife a causa que o texto apresenta. Aqui, a causa da inocência subjetiva está explícita: "porque realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença". A alternativa que reescreve essa causa é a correta.