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Questão de Português — Sintaxe — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsSintaxe
Código
ce150087
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
FUNPRESP-EXE
Ano
2022
Nível
Superior
        Seja como for, está claro que a distinção entre o que seria natural e o que seria cultural não faz o menor sentido para os aborígenes australianos. Afinal de contas, no mundo deles, tudo é natural e cultural ao mesmo tempo. Para que se possa falar de natureza, é preciso que o homem tome distância do meio ambiente no qual está mergulhado, é preciso que se sinta exterior e superior ao mundo que o cerca. Ao se extrair do mundo por meio de um movimento de recuo, ele poderá perceber este mundo como um todo. Pensando bem, entender o mundo como um todo, como um conjunto coerente, diferente de nós mesmos e de nossos semelhantes, é uma ideia muito esquisita. Como diz o grande poeta português Fernando Pessoa, vemos claramente que há montanhas, vales, planícies, florestas, árvores, flores e mato, vemos claramente que há riachos e pedras, mas não vemos que há um todo ao qual isso tudo pertence, afinal só conhecemos o mundo por suas partes, jamais como um todo. Mas, a partir do momento em que nos habituamos a representar a natureza como um todo, ela se torna, por assim dizer, um grande relógio, do qual podemos desmontar o mecanismo e cujas peças e engrenagem podemos aperfeiçoar. Na realidade, essa imagem começou a ganhar corpo relativamente tarde, a partir do século XVII, na Europa. Esse movimento, além de tardio na história da humanidade, só se produziu uma única vez. Para retomar uma fórmula muito conhecida de Descartes, o homem se fez então “mestre e senhor da natureza”. Resultou daí um extraordinário desenvolvimento das ciências e das técnicas, mas também a exploração desenfreada de uma natureza composta, a partir de então, de objetos sem ligação com os humanos: plantas, animais, terras, águas e rochas convertidos em meros recursos que podemos usar e dos quais podemos tirar proveito. Naquela altura, a natureza havia perdido sua alma e nada mais nos impedia de vê-la unicamente como fonte de riqueza.

Philippe Descola. Outras naturezas, outras culturas. São Paulo: Editora 34, 2016, p.22-23 (com adaptações).
No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto anterior, bem como às ideias nele expressas, julgue o item a seguir.No penúltimo período do texto, os termos “um extraordinário desenvolvimento das ciências e das técnicas” e “a exploração desenfreada (...) os humanos” exercem a função de complemento da forma verbal “Resultou”.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Análise da função sintática dos termos no período

Gabarito: Errado. O item afirma que os termos “um extraordinário desenvolvimento das ciências e das técnicas” e “a exploração desenfreada (...) os humanos” exercem função de complemento da forma verbal “Resultou”. Na verdade, esses termos são sujeitos do verbo, não complementos.

Resultou daí um extraordinário desenvolvimento das ciências e das técnicas, mas também a exploração desenfreada de uma natureza composta, a partir de então, de objetos sem ligação com os humanos (...)”

O verbo “resultar”, nessa construção, indica aquilo que resulta (o efeito). O termo que nomeia o efeito é o sujeito, ainda que venha depois do verbo. A estrutura é: Resultou daí [sujeito1], mas também [sujeito2]. O advérbio “daí” (= disso) é um adjunto adverbial; os sujeitos são “um extraordinário desenvolvimento...” e “a exploração desenfreada...”.

Por que não são complementos?

  • Complemento verbal (objeto direto ou indireto) completa o sentido de um verbo transitivo. “Resultar”, aqui, é intransitivo (não exige complemento); o que vem após são os sujeitos. Prova: o verbo concorda em número com o primeiro sujeito (singular: “resultou” com “desenvolvimento”). Se fosse objeto, não haveria concordância.

  • O termo “daí” já expressa a causa; o verbo não pede preposição para os sujeitos.

Armadilha da banca (pegadinha): a ordem inversa (sujeito após o verbo) e a ausência de preposição levam o candidato a pensar que são objetos diretos. Mas a função sintática é de sujeito.

Verbo "resultar" (intransitivo)
  • 1Estrutura da oração
    • Adjunto adverbial: "daí" (causa)
    • Sujeito (efeito): posposição comum
      • "um extraordinário desenvolvimento..."
      • "a exploração desenfreada..."
  • 2Concordância verbal
    • Singular com 1º sujeito: "resultou"
  • 3Armadilha
    • Ordem inversa sugere objeto direto
    • Mas função é de sujeito
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PEGA ESSA DICA!

Em construções com verbos como “resultar”, “acontecer”, “ocorrer”, o sujeito costuma vir após o verbo. Pergunte ao verbo: “O que resultou?” – a resposta é o sujeito.

Conclusão: o item está errado porque os termos indicados são sujeitos, e não complementos do verbo “Resultou”.

Gabarito: Errado.

NÃO CAIA NESSA!

Sujeito nunca tem preposição

Se um termo vem regido de preposição (de, em, a...), ele não é o sujeito da oração. Serve para não confundir sujeito com objeto/adjunto preposicionado.

— Sintaxe — identificação do sujeito

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