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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce150093
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
FUNPRESP-EXE
Ano
2022
Nível
Superior
        Seja como for, está claro que a distinção entre o que seria natural e o que seria cultural não faz o menor sentido para os aborígenes australianos. Afinal de contas, no mundo deles, tudo é natural e cultural ao mesmo tempo. Para que se possa falar de natureza, é preciso que o homem tome distância do meio ambiente no qual está mergulhado, é preciso que se sinta exterior e superior ao mundo que o cerca. Ao se extrair do mundo por meio de um movimento de recuo, ele poderá perceber este mundo como um todo. Pensando bem, entender o mundo como um todo, como um conjunto coerente, diferente de nós mesmos e de nossos semelhantes, é uma ideia muito esquisita. Como diz o grande poeta português Fernando Pessoa, vemos claramente que há montanhas, vales, planícies, florestas, árvores, flores e mato, vemos claramente que há riachos e pedras, mas não vemos que há um todo ao qual isso tudo pertence, afinal só conhecemos o mundo por suas partes, jamais como um todo. Mas, a partir do momento em que nos habituamos a representar a natureza como um todo, ela se torna, por assim dizer, um grande relógio, do qual podemos desmontar o mecanismo e cujas peças e engrenagem podemos aperfeiçoar. Na realidade, essa imagem começou a ganhar corpo relativamente tarde, a partir do século XVII, na Europa. Esse movimento, além de tardio na história da humanidade, só se produziu uma única vez. Para retomar uma fórmula muito conhecida de Descartes, o homem se fez então “mestre e senhor da natureza”. Resultou daí um extraordinário desenvolvimento das ciências e das técnicas, mas também a exploração desenfreada de uma natureza composta, a partir de então, de objetos sem ligação com os humanos: plantas, animais, terras, águas e rochas convertidos em meros recursos que podemos usar e dos quais podemos tirar proveito. Naquela altura, a natureza havia perdido sua alma e nada mais nos impedia de vê-la unicamente como fonte de riqueza.

Philippe Descola. Outras naturezas, outras culturas. São Paulo: Editora 34, 2016, p.22-23 (com adaptações).
No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto anterior, bem como às ideias nele expressas, julgue o item a seguir.No sétimo período do texto, o pronome “cujas” remete a “mecanismo”.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão referencial: o antecedente de “cujas”

Gabarito: ❌ ERRADO. O pronome “cujas” não remete a “mecanismo”, mas sim a “relógio”. O item incorre ao apontar o referente errado.

Análise do trecho

O sétimo período do texto é:

“Mas, a partir do momento em que nos habituamos a representar a natureza como um todo, ela se torna, por assim dizer, um grande relógio, do qual podemos desmontar o mecanismo e cujas peças e engrenagem podemos aperfeiçoar.”

Observe a estrutura:

  • “do qual” retoma “relógio” (masculino singular).

  • “cujas” concorda com “peças e engrenagem” (feminino plural) e estabelece uma relação de posse com seu antecedente.

O pronome relativo “cujo” (e flexões) concorda em gênero e número com o substantivo possuído (o que vem depois), mas seu antecedente é o possuidor – que pode ser qualquer termo anterior. No período, o possuidor das “peças e engrenagem” é o “relógio” (ou, por extensão, a natureza). A leitura lógica é: “do relógio podemos desmontar o mecanismo e do relógio podemos aperfeiçoar as peças e engrenagem”. “Mecanismo” é apenas uma parte do relógio, não o possuidor das peças.

Conclusão

A afirmação do item é falsa. O pronome “cujas” remete a “relógio”, e não a “mecanismo”. Portanto, o gabarito é Errado.

PEGA ESSA DICA!

Em construções com “cujo”, identifique o termo que vem após o pronome (o possuído) e busque o antecedente que exerce a posse. O gênero/número do pronome é determinado pelo possuído, não pelo possuidor.

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