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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce150095
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
FUNPRESP-EXE
Ano
2022
Nível
Superior
        Seja como for, está claro que a distinção entre o que seria natural e o que seria cultural não faz o menor sentido para os aborígenes australianos. Afinal de contas, no mundo deles, tudo é natural e cultural ao mesmo tempo. Para que se possa falar de natureza, é preciso que o homem tome distância do meio ambiente no qual está mergulhado, é preciso que se sinta exterior e superior ao mundo que o cerca. Ao se extrair do mundo por meio de um movimento de recuo, ele poderá perceber este mundo como um todo. Pensando bem, entender o mundo como um todo, como um conjunto coerente, diferente de nós mesmos e de nossos semelhantes, é uma ideia muito esquisita. Como diz o grande poeta português Fernando Pessoa, vemos claramente que há montanhas, vales, planícies, florestas, árvores, flores e mato, vemos claramente que há riachos e pedras, mas não vemos que há um todo ao qual isso tudo pertence, afinal só conhecemos o mundo por suas partes, jamais como um todo. Mas, a partir do momento em que nos habituamos a representar a natureza como um todo, ela se torna, por assim dizer, um grande relógio, do qual podemos desmontar o mecanismo e cujas peças e engrenagem podemos aperfeiçoar. Na realidade, essa imagem começou a ganhar corpo relativamente tarde, a partir do século XVII, na Europa. Esse movimento, além de tardio na história da humanidade, só se produziu uma única vez. Para retomar uma fórmula muito conhecida de Descartes, o homem se fez então “mestre e senhor da natureza”. Resultou daí um extraordinário desenvolvimento das ciências e das técnicas, mas também a exploração desenfreada de uma natureza composta, a partir de então, de objetos sem ligação com os humanos: plantas, animais, terras, águas e rochas convertidos em meros recursos que podemos usar e dos quais podemos tirar proveito. Naquela altura, a natureza havia perdido sua alma e nada mais nos impedia de vê-la unicamente como fonte de riqueza.

Philippe Descola. Outras naturezas, outras culturas. São Paulo: Editora 34, 2016, p.22-23 (com adaptações).
No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto anterior, bem como às ideias nele expressas, julgue o item a seguir.No quarto período do texto, o emprego do futuro na forma verbal “poderá” deve-se não a uma questão de encadeamento temporal, mas, sim, à expressão de uma relação lógica entre as ideias das orações que compõem esse período.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise do emprego do futuro em “poderá”

Gabarito: ✅ CERTO.

A afirmação está correta porque, no quarto período do texto, o verbo “poderá” não indica uma ação futura no tempo cronológico, mas sim uma consequência lógica decorrente da ação expressa na oração subordinada.

Localização e estrutura do período

O quarto período é: “Ao se extrair do mundo por meio de um movimento de recuo, ele poderá perceber este mundo como um todo.” A oração reduzida de infinitivo “Ao se extrair...” estabelece uma condição temporal-hipotética (quando/ao extrair-se), e a oração principal “ele poderá perceber...” expressa o resultado dessa condição. O futuro “poderá” sinaliza que a percepção do mundo como um todo é uma consequência do movimento de recuo, e não um fato futuro independente.

Valor modal do futuro do presente

Na língua portuguesa, o futuro do presente pode assumir valor modal (de probabilidade, possibilidade ou consequência) além do valor temporal. No contexto, a relação entre as orações é de condição e efeito: se o homem se extrai do mundo (condição), então ele passa a percebê-lo como um todo (efeito). O uso de “poderá” reforça essa relação lógica, indicando que a percepção é facultada pela ação anterior.

PEGA ESSA DICA!

Desconfie sempre que a banca perguntar sobre emprego “não temporal” de um tempo verbal. Futuro, pretérito imperfeito e presente do indicativo frequentemente carregam valores modais (certeza, hipótese, polidez, etc.).

Por que a alternativa “Errado” está incorreta?

A alternativa “Errado” tentaria afirmar que o futuro “poderá” tem apenas valor temporal de posterioridade. No entanto, o texto deixa claro que a ideia central é de consequência lógica: o movimento de recuo é a condição para a percepção. Se houvesse apenas valor temporal, a frase poderia ser interpretada como “em algum momento futuro, ele perceberá”, sem a noção de causa e efeito presente no “ao se extrair”. Logo, a banca acerta ao destacar a relação lógica.

Conclusão: A assertiva está correta: o futuro “poderá” expressa relação lógica de consequência, não mero encadeamento temporal.

Gabarito: letra C (Certo).

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