Na ótica da saúde pública, pode-se conceituar a política de redução de danos como um conjunto de estratégias que visam minimizar os danos causados pelo uso de diferentes drogas, sem necessariamente exigir a abstinência de seu uso. Vale dizer, enquanto não for possível ou desejável a abstinência, outros agravos à saúde podem ser evitados, como, por exemplo, as doenças infectocontagiosas transmissíveis por via sanguínea, tais quais as hepatites e HIV/AIDS.
Na concepção da política de redução de danos, tem-se como pressuposto o fator histórico-cultural do uso de psicotrópicos — uma vez que o uso dessas substâncias é parte indissociável da própria história da humanidade, a pretensão de um mundo livre de drogas não passa de uma quimera. Dentro dessa perspectiva, contemplam-se ações voltadas para as drogas lícitas e ilícitas, e suas intervenções não são de natureza estritamente públicas, delas participando, também, organizações não governamentais e necessariamente, com especial ênfase, o próprio cidadão que usa drogas.
Maurides de Melo Ribeiro. Drogas e redução de danos.
São Paulo: Editora Saraiva, 2013, p. 45-46 (com adaptações)
Considerando os sentidos e os aspectos linguísticos do texto CG1A1-I, julgue o item a seguir.A oração “enquanto não for possível ou desejável a abstinência” (segundo período do primeiro parágrafo) expressa uma vontade, haja vista o emprego do modo subjuntivo em “for”.
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Modo subjuntivo e valor semântico da oração “enquanto não for possível ou desejável a abstinência”
Gabarito: E (ERRADO). A oração “enquanto não for possível ou desejável a abstinência” não expressa vontade; ela expressa uma condição temporal (ou, mais precisamente, uma circunstância de tempo com valor condicional). O modo subjuntivo em “for” não tem, por si só, o valor de exprimir desejo — o subjuntivo é o modo da hipótese, da dúvida, da condição, e aqui ele marca justamente a eventualidade de a abstinência não ser possível ou desejável. A banca tenta confundir o candidato ao associar “subjuntivo” a “vontade”, mas o subjuntivo não é o modo da vontade (esse é o imperativo, ou o subjuntivo em orações optativas, como “Tomara que...”). No texto, a oração introduz uma ressalva temporal: enquanto durar a impossibilidade ou a não-desejabilidade da abstinência, outros agravos podem ser evitados.
Modo subjuntivo
1Expressa
Hipótese
Dúvida
Condição
Eventualidade
2Não expressa
Vontade (modo imperativo)
Desejo direto
3Oração "enquanto não for..."
Valor semântico
Temporal (com matiz condicional)
Conjunção "enquanto" = tempo
Subjuntivo em "for"
Fato futuro/hipotético
Não indica vontade
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Análise do item
O item afirma que a oração “enquanto não for possível ou desejável a abstinência” expressa uma vontade, “haja vista o emprego do modo subjuntivo em ‘for’”. Há dois erros aí:
O modo subjuntivo não é o modo da vontade. O subjuntivo é o modo da irrealidade, da hipótese, da condição, da dúvida. A vontade, quando expressa por modo verbal, aparece no imperativo (ordem, pedido, desejo direto) ou em construções optativas com subjuntivo (ex.: “Tomara que ele venha”), mas não é o caso aqui.
O valor semântico da oração é temporal (com matiz condicional), não volitivo. A conjunção “enquanto” introduz uma oração subordinada adverbial temporal: indica o tempo durante o qual a condição se mantém. Veja o trecho do texto:
“Vale dizer, enquanto não for possível ou desejável a abstinência, outros agravos à saúde podem ser evitados, como, por exemplo, as doenças infectocontagiosas transmissíveis por via sanguínea...”
A oração estabelece uma circunstância de tempo: “durante o tempo em que a abstinência não for possível ou desejável”. Há também um matiz condicional (equivale a “se não for possível ou desejável a abstinência”), mas não há nenhuma expressão de vontade — o autor não está desejando nada; está estabelecendo uma condição temporal para a aplicação da política de redução de danos.
Por que o subjuntivo aparece?
O subjuntivo em “for” é exigido pela conjunção temporal “enquanto” quando se refere a um fato futuro ou hipotético. Compare:
“Enquanto é possível, aproveite.” (indicativo — fato atual, certo)
“Enquanto for possível, aproveite.” (subjuntivo — fato futuro, hipotético)
No texto, a abstinência é algo que pode ou não ocorrer; por isso o subjuntivo marca a eventualidade, não a vontade.
Conclusão
O item está errado porque atribui à oração um valor de “vontade” que ela não tem. O modo subjuntivo, no contexto, expressa hipótese/condição temporal, e a oração funciona como adjunto adverbial de tempo (com matiz condicional). Portanto, Gabarito: E (ERRADO).
PEGA ESSA DICA!
Ao julgar itens sobre modo verbal, pergunte-se: qual é o valor semântico da oração? O subjuntivo, sozinho, não indica vontade — ele indica irrealidade, hipótese, condição. A vontade é típica do imperativo ou de orações optativas (ex.: “Tomara que...”). Identifique a conjunção (“enquanto”, “se”, “embora”) e o contexto para definir o valor.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação automática entre “subjuntivo” e “vontade”. O subjuntivo é o modo da dúvida/condição, não da vontade. A palavra “enquanto” é a pista decisiva: ela marca tempo, não desejo.