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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce150985
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Prefeitura de São Cristóvão - SE
Ano
2022
Nível
Fundamental

Texto CG1A1-II



       Com a dor, o silêncio. Denso, ácido. Estagnado. Um silêncio de caco de vidro moído esfolando o corpo por dentro. Um desesperar, nada por vir. Dalva parou de falar com Venâncio. Não olhou mais para ele, considerou que ele não estava mais vivo, ignorou sua presença. Nenhuma reação. Nem quando ele chorou, quando ficou sem comer, quando parou de se lavar, nem quando ameaçou morrer, nem quando mandou valente, cuspiu na cara dela, sugigou prometendo uma nova surra, jurando morte, morrendo esmagado pelo que não podia ser desfeito. Nada. Ele suplicou sincero, desamparado, e ela, nem um olhar, nenhum perdão possível. 



       Nas primeiras semanas, Dalva não comia, não bebia, não acendia a luz, morria um pouco a cada dia. Levantou-se depois de uma longa visita de luto da mãe, saiu de casa sem deixar pistas e, para desespero de Venâncio, só voltou ao entardecer do dia seguinte. Desse dia em diante, passou a sair todas as manhãs. Caminhava lenta, magra, ombros fechados de quem desistiu. Ninguém sabe ao certo aonde ia. Na hora mais triste das tardes, quando a saudade parece apertar o coração do mundo, Dalva voltava para casa. Dizem que a tristeza dessa hora está nas entranhas da gente, infiltrada nas nossas menores porções há milênios. Nasceu do pavor infinito do anoitecer, hora em que as mulheres não sabiam se seus homens voltariam vivos da caça. Muitas vezes não voltaram. Hora em que os homens, ao voltar da caça, não sabiam se encontrariam suas mulheres mortas. Muitas vezes encontraram. Perder amores é escurecer por dentro, uma memória do corpo que o entardecer evoca quando tinge o céu de vermelho. Para quem está sozinho depois de ter amado, o fim do dia é muito triste. Era nessa hora que ela voltava.



Carla Madeira. Tudo é rio. 1.ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2021, p. 25-26 (com adaptações). 

Em relação ao texto CG1A1-II e a suas propriedades linguísticas, julgue o próximo item.No primeiro parágrafo, o vocábulo “sua”, em “ignorou sua presença” (sétimo período), retoma o substantivo “Dalva” (sexto período).
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão referencial: o referente do pronome possessivo “sua”

Gabarito: E (ERRADO). A afirmação está incorreta porque o pronome possessivo “sua”, em “ignorou sua presença”, retoma Venâncio, e não Dalva. No trecho, o sujeito da oração é “Dalva” (ela ignorou), mas o possessivo “sua” refere-se à presença de Venâncio — aquele cuja presença foi ignorada. A passagem que prova isso é:

“Dalva parou de falar com Venâncio. Não olhou mais para ele, considerou que ele não estava mais vivo, ignorou sua presença.”

Aqui, “sua presença” = “a presença dele (Venâncio)”. O possessivo concorda com o possuidor lógico: quem tem presença ignorada é Venâncio, não Dalva.

Análise da referência coesiva

Para resolver, basta reconstruir o sentido: Dalva ignorou algo. O que ela ignorou? A presença de Venâncio. O possessivo “sua” é anafórico e aponta para o termo que funciona como possuidor — no contexto, Venâncio, mencionado no período anterior. A cadeia referencial é:

  • “Dalva” → sujeito que pratica a ação de ignorar.

  • “Venâncio” → objeto da ação (a pessoa cuja presença é ignorada).

O possessivo “sua” não pode retomar Dalva, pois seria semanticamente estranho: Dalva não ignora a própria presença; ela ignora a presença de outra pessoa. A coesão referencial exige que o pronome retome o antecedente mais próximo e compatível com o sentido.

Item — ❌ ERRADO

A assertiva afirma que “sua” retoma “Dalva”. Isso é falso. O pronome possessivo “sua” refere-se a Venâncio, como se vê na sequência: “ignorou sua presença” = “ignorou a presença dele”. A banca tenta confundir o candidato fazendo-o acreditar que o possessivo concorda com o sujeito da oração, mas a concordância possessiva é semântica: o possuidor é o termo que “possui” a presença, e esse termo é Venâncio.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre sujeito gramatical e possuidor lógico. O pronome possessivo não concorda com o sujeito da oração, mas com o termo que exerce a função de possuidor no contexto. Aqui, “sua” aponta para Venâncio, não para Dalva.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o referente de um pronome, pergunte: “de quem se fala?” ou “a quem pertence o termo?”. No caso, “presença” pertence a Venâncio. Não se deixe levar pela proximidade com o sujeito.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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