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Questão de Português — Morfologia — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsMorfologia
Código
ce150987
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Prefeitura de São Cristóvão - SE
Ano
2022
Nível
Fundamental

Texto CG1A1-II



       Com a dor, o silêncio. Denso, ácido. Estagnado. Um silêncio de caco de vidro moído esfolando o corpo por dentro. Um desesperar, nada por vir. Dalva parou de falar com Venâncio. Não olhou mais para ele, considerou que ele não estava mais vivo, ignorou sua presença. Nenhuma reação. Nem quando ele chorou, quando ficou sem comer, quando parou de se lavar, nem quando ameaçou morrer, nem quando mandou valente, cuspiu na cara dela, sugigou prometendo uma nova surra, jurando morte, morrendo esmagado pelo que não podia ser desfeito. Nada. Ele suplicou sincero, desamparado, e ela, nem um olhar, nenhum perdão possível. 



       Nas primeiras semanas, Dalva não comia, não bebia, não acendia a luz, morria um pouco a cada dia. Levantou-se depois de uma longa visita de luto da mãe, saiu de casa sem deixar pistas e, para desespero de Venâncio, só voltou ao entardecer do dia seguinte. Desse dia em diante, passou a sair todas as manhãs. Caminhava lenta, magra, ombros fechados de quem desistiu. Ninguém sabe ao certo aonde ia. Na hora mais triste das tardes, quando a saudade parece apertar o coração do mundo, Dalva voltava para casa. Dizem que a tristeza dessa hora está nas entranhas da gente, infiltrada nas nossas menores porções há milênios. Nasceu do pavor infinito do anoitecer, hora em que as mulheres não sabiam se seus homens voltariam vivos da caça. Muitas vezes não voltaram. Hora em que os homens, ao voltar da caça, não sabiam se encontrariam suas mulheres mortas. Muitas vezes encontraram. Perder amores é escurecer por dentro, uma memória do corpo que o entardecer evoca quando tinge o céu de vermelho. Para quem está sozinho depois de ter amado, o fim do dia é muito triste. Era nessa hora que ela voltava.



Carla Madeira. Tudo é rio. 1.ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2021, p. 25-26 (com adaptações). 

Em relação ao texto CG1A1-II e a suas propriedades linguísticas, julgue o próximo item.Estaria mantida a correção gramatical do texto caso o termo “aonde”, em “Ninguém sabe ao certo aonde ia” (segundo parágrafo), fosse substituído por onde.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substituição de "aonde" por "onde" — regência e sentido

Gabarito: letra E (ERRADO). A substituição de "aonde" por "onde" em "Ninguém sabe ao certo aonde ia" não mantém a correção gramatical, pois o verbo "ir" exige a preposição "a" (ir a algum lugar), e "aonde" é exatamente a contração de "a + onde". Trocar por "onde" (que equivale a "em que") quebraria a regência do verbo, gerando um desvio de norma culta.

A questão é de gramática normativa (regência verbal), não de interpretação de texto. O comando pede que se julgue se a reescrita preserva a correção — e a resposta é não, porque a regência do verbo "ir" exige a preposição "a".

A regra que decide

  • Onde = "em que lugar" (lugar estático, permanência). Ex.: A escola onde estudo fica longe.

  • Aonde = "para que lugar" (direção, movimento). Ex.: Não sei aonde ele vai.

No trecho, o verbo é "ia" (ir), que pede "a": ir a algum lugar. Por isso o correto é "aonde" (a + onde). Se trocarmos por "onde", teríamos "Ninguém sabe ao certo onde ia" — e "onde" não carrega a preposição "a", rompendo a regência exigida pelo verbo.

"Ninguém sabe ao certo aonde ia."

A forma "aonde" já contém a preposição "a" exigida pelo verbo "ir". A substituição por "onde" eliminaria essa preposição, tornando a frase gramaticalmente incorreta na norma culta.

Por que a banca considerou ERRADO

A pegadinha está em achar que "onde" e "aonde" são intercambiáveis. Não são: a escolha depende da regência do verbo. Como "ir" pede "a", o uso de "aonde" é obrigatório. A banca testa exatamente esse conhecimento.

1Onde
"em que lugar"
Lugar estático (permanência)
Ex.: A escola onde estudo
2Aonde
"para que lugar"
Direção (movimento)
Ex.: Não sei aonde ele vai
3Regência do verbo "ir"
Exige preposição "a"
Trocar por "onde" quebra a regência
Onde × Aonde
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Onde × Aonde: Onde ("em que lugar", Lugar estático (permanência), Ex.: A escola onde estudo); Aonde ("para que lugar", Direção (movimento), Ex.: Não sei aonde ele vai); Regência do verbo "ir" (Exige preposição "a", Trocar por "onde" quebra a regência)
NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão clássica entre "onde" e "aonde". Quem não domina a regência do verbo "ir" tende a aceitar a troca como válida, mas a preposição "a" é indispensável.

PEGA ESSA DICA!

Para decidir entre "onde" e "aonde", pergunte ao verbo: "em que lugar?" → onde; "para que lugar?" → aonde. Com verbos de movimento como "ir", "chegar", "voltar", use aonde.

Conclusão

A substituição não mantém a correção gramatical, pois o verbo "ir" exige a preposição "a", presente apenas em "aonde". Portanto, o item está ERRADO.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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