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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce150990
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Prefeitura de São Cristóvão - SE
Ano
2022
Nível
Fundamental

Texto CG1A1-II



       Com a dor, o silêncio. Denso, ácido. Estagnado. Um silêncio de caco de vidro moído esfolando o corpo por dentro. Um desesperar, nada por vir. Dalva parou de falar com Venâncio. Não olhou mais para ele, considerou que ele não estava mais vivo, ignorou sua presença. Nenhuma reação. Nem quando ele chorou, quando ficou sem comer, quando parou de se lavar, nem quando ameaçou morrer, nem quando mandou valente, cuspiu na cara dela, sugigou prometendo uma nova surra, jurando morte, morrendo esmagado pelo que não podia ser desfeito. Nada. Ele suplicou sincero, desamparado, e ela, nem um olhar, nenhum perdão possível. 



       Nas primeiras semanas, Dalva não comia, não bebia, não acendia a luz, morria um pouco a cada dia. Levantou-se depois de uma longa visita de luto da mãe, saiu de casa sem deixar pistas e, para desespero de Venâncio, só voltou ao entardecer do dia seguinte. Desse dia em diante, passou a sair todas as manhãs. Caminhava lenta, magra, ombros fechados de quem desistiu. Ninguém sabe ao certo aonde ia. Na hora mais triste das tardes, quando a saudade parece apertar o coração do mundo, Dalva voltava para casa. Dizem que a tristeza dessa hora está nas entranhas da gente, infiltrada nas nossas menores porções há milênios. Nasceu do pavor infinito do anoitecer, hora em que as mulheres não sabiam se seus homens voltariam vivos da caça. Muitas vezes não voltaram. Hora em que os homens, ao voltar da caça, não sabiam se encontrariam suas mulheres mortas. Muitas vezes encontraram. Perder amores é escurecer por dentro, uma memória do corpo que o entardecer evoca quando tinge o céu de vermelho. Para quem está sozinho depois de ter amado, o fim do dia é muito triste. Era nessa hora que ela voltava.



Carla Madeira. Tudo é rio. 1.ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2021, p. 25-26 (com adaptações). 

Em relação ao texto CG1A1-II e a suas propriedades linguísticas, julgue o próximo item.Infere-se do texto que o silêncio mencionado na primeira frase diz respeito a uma reação da personagem Dalva ao sofrimento que Venâncio lhe causou.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência sobre o silêncio de Dalva

Gabarito: letra C (CERTO). O item afirma que o silêncio de Dalva é uma reação ao sofrimento que Venâncio lhe causou — e isso se infere diretamente do texto, pois o narrador liga o silêncio à dor e, em seguida, revela que Dalva parou de falar com Venâncio após ele ter lhe causado sofrimento (há menção a "nova surra" e a um ato que "não podia ser desfeito"). A pista está na sequência: primeiro o silêncio, depois a causa.

O comando pede uma inferência ("Infere-se do texto"), ou seja, uma conclusão ancorada em pistas textuais, não uma informação literalmente escrita. Vamos provar com o próprio texto.

A cadeia de sentido no texto

O texto abre com a imagem do silêncio doloroso:

"Com a dor, o silêncio. Denso, ácido. Estagnado."

Na sequência, o narrador explica o que esse silêncio significa na prática:

"Dalva parou de falar com Venâncio. Não olhou mais para ele, considerou que ele não estava mais vivo, ignorou sua presença."

E, logo adiante, o texto revela a origem do sofrimento — Venâncio a agredira e ela não o perdoa:

"...quando mandou valente, cuspiu na cara dela, sugigou prometendo uma nova surra, jurando morte, morrendo esmagado pelo que não podia ser desfeito."

A expressão "nova surra" pressupõe que houve uma surra anterior — foi essa violência que causou o sofrimento de Dalva e motivou seu silêncio. O silêncio, portanto, é a reação dela a esse sofrimento: ela se cala, deixa de olhar, ignora a presença dele. A inferência é legítima porque o texto obriga a essa conclusão: não há outra explicação para o silêncio no contexto — ele vem imediatamente após a dor e é descrito como resposta à conduta de Venâncio.

Por que as demais leituras falham

  • Extrapolação: alguém poderia achar que o silêncio é apenas "tristeza" ou "luto", mas o texto amarra o silêncio à atitude deliberada de Dalva em relação a Venâncio ("parou de falar", "ignorou sua presença").

  • Restrição: o item não diz que o silêncio é apenas reação ao sofrimento — diz que diz respeito a uma reação, o que é compatível com o texto.

  • Contradição: nada no texto sugere que o silêncio tenha outra causa (como doença ou cansaço); a leitura mais direta é exatamente a proposta.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, procure o pressuposto — a pista deixada pelo texto. Aqui, "nova surra" pressupõe a surra anterior, que é a causa do sofrimento e, por consequência, do silêncio.

Conclusão: o item está CERTO, pois a inferência é plenamente sustentada pelo texto.

Gabarito: letra C.

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