Uma paciente hospitalizada, com 54 anos de idade, relatou disartria e fraqueza muscular havia 5 dias. Mostrava-se afebril, com disartria e dificuldade para deambular, sem sinais de irritação meníngea. Foram realizados exames cardiovascular e abdominal, cujos resultados não apresentaram alterações. Foram detectados estertores crepitantes nas bases pulmonares. Radiografia de tórax revelou consolidações bilaterais na região inferior. Foi prescrita ceftriaxona intravenosa para pneumonia. A hemocultura revelou presença de Listeria monocytogenes, o que levantou a suspeita de neurolisteriose. Procedeu-se, então, à punção lombar e obteve-se líquor (LCR) límpido, com glicose a 74 mg/dL (glicemia a 108 mg/dL) e proteínas a 58 mg/dL. A PCR (reação em cadeia de polimerase) para Listeria no LCR foi negativa. Tomografia computadorizada com contraste de encéfalo revelou cerebrite frontal direita. Foi feito o diagnóstico de neurolisteriose, e o antibiótico foi trocado para benzilpenicilina e gentamicina intravenosas. A paciente apresentou melhora até o 13.º dia de internação, quando, então, desenvolveu desconforto respiratório e precisou ser entubada. Ecocardiograma transtorácico revelou vegetação sobre o folheto anterior da valva mitral e fração de ejeção de 66%. O quadro piorou, tendo sido necessário suporte vasopressor. A ressonância magnética do cérebro mostrou realce giriforme focal ao longo do sulco central direito com edema parenquimatoso adjacente, o que confirmou cerebrite. O quadro clínico da paciente piorou e ela foi a óbito.Tendo como referência o caso clínico hipotético precedente, assinale a opção correta.
AA cerebrite é clinicamente a manifestação mais comum da neurolisteriose, afetando hospedeiros imunocomprometidos.
BA Listeria normalmente entra no corpo através do trato gastrointestinal, após a ingestão de alimentos contaminados, atravessa as placas de Peyer e invade os gânglios linfáticos mesentéricos, obtendo acesso à corrente sanguínea.
CA troca do antimicrobiano ceftriaxona por penicilina associada a gentamicina foi inapropriada, pois a Listeria monocytogenes é mais sensível às cefalosporinas de terceira geração que a combinação penicilina/gentamicina.
DEmbolização séptica e formações de abscessos em outros órgãos são raros na endocardite por Listeria monocytogenes.
EComo a Listeria monocytogenes é um bacilo Gram-positivo, a gentamicina foi uma escolha inadequada para o tratamento da paciente, pois é um antimicrobiano indicado para tratamento de infecções por bactérias Gram-negativas.
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GabaritoB — A Listeria normalmente entra no corpo através do trato gastrointestinal, após a ingestão de alimentos contaminados, atravessa as placas de Peyer e invade os gânglios linfáticos mesentéricos, obtendo acesso à corrente sanguínea.
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Listeriose: patogênese, manifestações e tratamento
Gabarito: letra B. A alternativa correta descreve com precisão a via de entrada da Listeria monocytogenes no organismo: ingestão de alimentos contaminados, atravessando as placas de Peyer e invadindo os gânglios linfáticos mesentéricos, obtendo acesso à corrente sanguínea. As demais alternativas contêm erros conceituais sobre a apresentação clínica da neurolisteriose, a sensibilidade antimicrobiana da bactéria, a frequência de embolização séptica na endocardite por Listeria e o espectro de ação da gentamicina.
A Listeria monocytogenes é um bacilo Gram-positivo, intracelular facultativo, que causa infecções graves em grupos de risco, como imunocomprometidos, idosos, gestantes e neonatos. A porta de entrada mais comum é o trato gastrointestinal, após a ingestão de alimentos contaminados (laticínios não pasteurizados, embutidos, vegetais crus). A bactéria atravessa a barreira intestinal, invade as placas de Peyer e os gânglios linfáticos mesentéricos, e a partir daí ganha a corrente sanguínea, podendo disseminar-se para o sistema nervoso central (causando meningite, meningoencefalite ou cerebrite) e para o coração (endocardite).
A neurolisteriose, infecção do sistema nervoso central pela Listeria, manifesta-se mais comumente como meningite ou meningoencefalite, e não como cerebrite isolada. A cerebrite (infecção focal do parênquima cerebral) é uma forma menos comum, embora possa ocorrer, especialmente em imunocomprometidos. No caso clínico, a paciente apresentou disartria e fraqueza muscular, com LCR límpido e PCR negativa, mas a ressonância magnética confirmou cerebrite frontal — um quadro que ilustra a dificuldade diagnóstica dessa apresentação.
O tratamento de escolha para neurolisteriose é a ampicilina ou penicilina G intravenosa, geralmente associada a um aminoglicosídeo (gentamicina) para efeito sinérgico. As cefalosporinas de terceira geração, como a ceftriaxona, NÃO são eficazes contra Listeria monocytogenes, pois a bactéria é naturalmente resistente a esses antibióticos. Portanto, a troca de ceftriaxona para benzilpenicilina + gentamicina foi apropriada e necessária.
A endocardite por Listeria monocytogenes é rara, mas quando ocorre, frequentemente está associada a embolização séptica e formação de abscessos em outros órgãos, devido à capacidade da bactéria de sobreviver e se multiplicar intracelularmente. A gentamicina, por sua vez, é um aminoglicosídeo com atividade contra bactérias Gram-negativas, mas também possui ação contra alguns Gram-positivos, incluindo Listeria, sendo utilizada em associação para potencializar o efeito bactericida.
A pegadinha central desta questão está na alternativa C, que inverte a realidade: afirma que a Listeria é mais sensível às cefalosporinas, quando na verdade é resistente a elas. A banca explora a confusão entre o tratamento empírico de pneumonia (ceftriaxona) e o tratamento específico de neurolisteriose (penicilina + gentamicina).
A cerebrite NÃO é a manifestação mais comum da neurolisteriose. A apresentação clínica mais frequente é a meningite ou meningoencefalite. A cerebrite é uma forma menos comum, embora possa ocorrer, especialmente em imunocomprometidos. A alternativa erra ao afirmar que a cerebrite é a manifestação "mais comum".
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve corretamente a patogênese da listeriose: a bactéria entra pelo trato gastrointestinal após ingestão de alimentos contaminados, atravessa as placas de Peyer, invade os gânglios linfáticos mesentéricos e obtém acesso à corrente sanguínea. Esse é o mecanismo clássico de disseminação da Listeria monocytogenes.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A troca de ceftriaxona por penicilina + gentamicina foi APROPRIADA, pois a Listeria monocytogenes é naturalmente resistente às cefalosporinas de terceira geração. A combinação penicilina/gentamicina é o tratamento de escolha, com efeito sinérgico. A alternativa inverte completamente a realidade.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A embolização séptica e a formação de abscessos em outros órgãos NÃO são raras na endocardite por Listeria monocytogenes. Pelo contrário, são complicações frequentes, devido à capacidade da bactéria de sobreviver intracelularmente e disseminar-se.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A gentamicina é um aminoglicosídeo com atividade contra bactérias Gram-negativas, mas também possui ação contra alguns Gram-positivos, incluindo Listeria monocytogenes. A escolha foi adequada, pois a gentamicina é utilizada em associação com a penicilina para efeito sinérgico no tratamento da neurolisteriose.