Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — CESPE / CEBRASPE 2023

MedicinaCardiologia e Alterações Vasculares
Código
ce156399
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE-RO
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico
A endocardite infecciosa (EI) é uma doença grave e está relacionada à alta taxa de óbitos apesar dos recentes progressos em seu diagnóstico e terapia antibiótica aprimorada. Organismos HACEK (Haemophilus spp., Aggregatibacter actinomycetemcomitans, Cardiobacterium hominis, Eikenella corrodens e Kingella kingae) são bactérias Gram-negativas que causam uma ampla gama de infecções, entre as quais a EI é uma das mais notáveis.A respeito desse assunto, assinale a opção correta.
  1. AOs microrganismos HACEK são geralmente considerados de baixa virulência e infectam valvas cardíacas estruturalmente danificadas ou protéticas.
  2. BA endocardite HACEK inicia-se de forma aguda, sua patogenicidade é alta e ocorre na maioria das vezes em pacientes com cardiopatias ou válvulas artificiais.
  3. CA base de escolha do antibiótico adequado para tratar essa doença é fundamentada pelo surgimento de cepas produtoras de β-lactamase no grupo HACEK e pela dificuldade de se obterem testes confiáveis de sensibilidade a drogas, devido ao baixo ou nenhum crescimento na cultura, sendo, atualmente, a ampicilina associada à gentamicina o tratamento de escolha.
  4. DA endocardite de valva nativa ou protética causada por microrganismos HACEK está associada a um prognóstico ruim, devido à sua alta patogenicidade.
  5. EOs microrganismos HACEK crescem lentamente e frequentemente colonizam o intestino, de forma que não é adequada a profilaxia antibiótica sistêmica recomendada antes do tratamento periodontal em pacientes de alto risco cardiovascular.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Os microrganismos HACEK são geralmente considerados de baixa virulência e infectam valvas cardíacas estruturalmente danificadas ou protéticas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Endocardite Infecciosa por microrganismos HACEK

Gabarito: letra A. Os microrganismos HACEK são, de fato, bactérias Gram-negativas de baixa virulência que infectam preferencialmente valvas cardíacas já danificadas ou protéticas, causando uma endocardite de evolução subaguda. As demais alternativas distorcem características essenciais do grupo: a apresentação clínica não é aguda, o tratamento de escolha atual não é ampicilina associada à gentamicina, o prognóstico não é ruim por alta patogenicidade e a profilaxia antibiótica é sim recomendada em pacientes de alto risco antes de procedimentos odontológicos invasivos.

A endocardite infecciosa (EI) é uma infecção do endocárdio, mais comumente das valvas cardíacas, que ocorre quando bactérias ou fungos circulantes aderem a uma área de endotélio previamente lesado. O endotélio cardíaco normal é relativamente resistente à invasão bacteriana; porém, quando há dano endotelial — por valvopatia degenerativa, cardiopatia reumática, cardiopatia congênita, instrumentação ou dispositivos intracardíacos — forma-se um trombo de plaquetas e fibrina não infectado (endocardite trombótica não bacteriana). Esse trombo estéril serve de substrato para a aderência bacteriana durante uma bacteriemia, dando origem à vegetação infectada. É por isso que microrganismos de baixa virulência, como os do grupo HACEK, conseguem causar a doença: eles não precisam invadir um endotélio íntegro, apenas colonizar uma área já danificada.

O grupo HACEK é composto por bacilos Gram-negativos fastidiosos — Haemophilus spp., Aggregatibacter actinomycetemcomitans, Cardiobacterium hominis, Eikenella corrodens e Kingella kingae — que fazem parte da flora normal da cavidade oral e do trato respiratório superior. São microrganismos de crescimento lento, o que explica a dificuldade de isolamento em hemoculturas de rotina e a necessidade de comunicação ao laboratório sobre a suspeita clínica para que se prolongue o período de incubação e se utilizem meios enriquecidos. Clinicamente, a endocardite por HACEK tem apresentação subaguda, com febre baixa, sudorese noturna, perda de peso e sopro cardíaco, evoluindo ao longo de semanas a meses — comportamento típico de agentes de baixa virulência, em contraste com a endocardite aguda causada por Staphylococcus aureus, que cursa com febre alta e rápida destruição valvar.

O tratamento da EI por HACEK evoluiu ao longo dos anos. Historicamente, a ampicilina associada à gentamicina era o esquema de escolha; porém, com o surgimento de cepas produtoras de β-lactamase e a dificuldade de se obterem testes confiáveis de sensibilidade — devido ao crescimento lento e às vezes ausente na cultura —, a recomendação atual das diretrizes (AHA e ESC) é o uso de ceftriaxona em monoterapia, ou outras cefalosporinas de terceira geração, por 4 semanas na endocardite de valva nativa e por 6 semanas na endocardite de valva protética. A profilaxia antibiótica antes de procedimentos odontológicos invasivos é indicada para pacientes de alto risco — portadores de próteses valvares, história prévia de EI, transplantados cardíacos com valvopatia e algumas cardiopatias congênitas —, sendo a amoxicilina 2 g por via oral 30 a 60 minutos antes do procedimento o esquema de escolha, justamente porque os HACEK e os estreptococos viridans são residentes da cavidade oral e podem ganhar a corrente sanguínea durante a manipulação dentária.

A pegadinha central desta questão está na inversão de características: a banca troca o padrão subagudo por agudo, a baixa virulência por alta patogenicidade, o tratamento atual (ceftriaxona) pelo esquema antigo (ampicilina + gentamicina) e nega a profilaxia antibiótica que é, na verdade, recomendada. Guarde o perfil do grupo HACEK — baixa virulência, crescimento lento, flora oral, endocardite subaguda em valvas lesadas ou protéticas, tratamento com ceftriaxona e profilaxia indicada em alto risco — pois é exatamente esse conjunto de características que separa a alternativa correta das incorretas.

Característica

Grupo HACEK (correto)

Distorção nas alternativas incorretas

Virulência

Baixa

Alta patogenicidade (B, D)

Apresentação clínica

Subaguda

Aguda (B)

Valvas afetadas

Danificadas ou protéticas

Tratamento de escolha atual

Ceftriaxona (monoterapia)

Ampicilina + gentamicina (C)

Prognóstico

Bom (com tratamento adequado)

Ruim (D)

Profilaxia antibiótica (alto risco)

Indicada

Não indicada (E)

1Características
Gram-negativos fastidiosos
Baixa virulência
Crescimento lento
Flora da cavidade oral
2Apresentação clínica
Subaguda
Valvas lesadas ou protéticas
3Tratamento
Ceftriaxona (monoterapia)
4 a 6 semanas
4Profilaxia
Alto risco cardiovascular
Amoxicilina 2g antes do procedimento
HACEK (endocardite)
LEVELsoulevel.com.br
HACEK (endocardite): Características (Gram-negativos fastidiosos, Baixa virulência, Crescimento lento, Flora da cavidade oral); Apresentação clínica (Subaguda, Valvas lesadas ou protéticas); Tratamento (Ceftriaxona (monoterapia), 4 a 6 semanas); Profilaxia (Alto risco cardiovascular, Amoxicilina 2g antes do procedimento)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A afirmativa está correta ao descrever os microrganismos HACEK como de baixa virulência e ao afirmar que infectam valvas cardíacas estruturalmente danificadas ou protéticas. Isso está em linha com a fisiopatologia da EI: o endotélio cardíaco normal é resistente à infecção, e a lesão endotelial prévia — seja por valvopatia degenerativa, cardiopatia reumática, congênita ou por próteses valvares — cria o trombo de plaquetas e fibrina que permite a aderência bacteriana. Os HACEK, por serem de baixa virulência e não invasivos, dependem justamente dessa porta de entrada para causar a doença, o que explica sua predileção por valvas já comprometidas ou protéticas.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa erra ao afirmar que a endocardite HACEK inicia-se de forma aguda e tem alta patogenicidade. Na realidade, a apresentação é subaguda, com evolução insidiosa ao longo de semanas, e a patogenicidade é baixa — características típicas de microrganismos de baixa virulência. A endocardite aguda, com febre alta e destruição valvar rápida, é o padrão clássico de agentes virulentos como o Staphylococcus aureus, não dos HACEK.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa acerta ao mencionar o surgimento de cepas produtoras de β-lactamase e a dificuldade de testes de sensibilidade, mas erra ao afirmar que a ampicilina associada à gentamicina é o tratamento de escolha atual. Esse esquema foi historicamente utilizado, porém foi superado: a recomendação atual é a ceftriaxona em monoterapia (ou outra cefalosporina de terceira geração), por 4 a 6 semanas, justamente por sua eficácia contra cepas produtoras de β-lactamase e por não depender de testes de sensibilidade confiáveis.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa erra ao associar a endocardite por HACEK a um prognóstico ruim devido à alta patogenicidade. Como já visto, os HACEK são de baixa virulência, e a endocardite por eles causada tem, em geral, bom prognóstico quando tratada adequadamente — com taxas de cura elevadas. O prognóstico ruim está mais associado a agentes virulentos como S. aureus ou a complicações como insuficiência cardíaca e embolia, não à patogenicidade do HACEK.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa erra ao afirmar que não é adequada a profilaxia antibiótica antes do tratamento periodontal em pacientes de alto risco cardiovascular. Na verdade, a profilaxia é recomendada exatamente para esse grupo — portadores de próteses valvares, história prévia de EI, transplantados cardíacos com valvopatia e algumas cardiopatias congênitas — antes de procedimentos odontológicos invasivos, pois os HACEK e os estreptococos viridans são flora oral e podem causar bacteriemia durante a manipulação dentária. O esquema profilático de escolha é a amoxicilina 2 g por via oral, 30 a 60 minutos antes do procedimento.

Gabarito: letra A

Link permanente: /questoes/ce156399