Questão de Direito Constitucional — Controle de Constitucionalidade — CESPE / CEBRASPE 2023
Direito Constitucional›Controle de Constitucionalidade
Código
ce157107
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
PGE-PA
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Procurador do Estado do Pará
Acerca do controle de constitucionalidade e da aplicabilidade, interpretação e mutação das normas constitucionais, julgue os próximos itens.I No Brasil, o poder que os juízes singulares têm de declarar a inconstitucionalidade de uma norma jurídica não é contido, de forma expressa, no texto da Constituição Federal de 1988, sendo resultado de constructo jurisprudencial.II A teoria originária de Kelsen acerca do controle de constitucionalidade preocupa-se, precipuamente, com a preservação da supremacia constitucional, na medida em que reconhece, em regra, a nulidade da norma julgada inconstitucional pelo tribunal constitucional, muito embora tal tribunal possa modular os efeitos de sua decisão no tempo.III Hesse e Lassalle divergem amplamente quanto à força normativa da Constituição. Para o primeiro, a Constituição jurídica jamais poderá impor-se à Constituição real ou transformá-la. Para o segundo, tal prevalência da Constituição jurídica não seria inexorável, mas, para tanto, seria importante a presença de certos pressupostos, entre os quais a vontade humana de cumprir a Constituição.IV É possível afirmar que, quando o direito ignora a realidade, esta se vinga, ignorando o direito. Nesse sentido, dada a premissa de que texto e norma não se confundem, a mutação constitucional seria a solução para o problema da desatualização do texto constitucional frente à práxis social, alterando-se a norma sem a necessidade de alterar-se o texto. Consoante a doutrina de Hesse acerca da mutação constitucional, a referida mutação poderá ocorrer até mesmo contra o texto da norma, o qual não se revelaria, assim, como um limite insuperável da interpretação constitucional.Assinale a opção correta.
AApenas o item I está certo.
BApenas o item II está certo.
CApenas os itens I e III estão certos.
DApenas os itens II e IV estão certos.
EApenas os itens III e IV estão certos.
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GabaritoA — Apenas o item I está certo.
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Controle de constitucionalidade e teorias constitucionais
Gabarito: letra A – apenas o item I está correto. O item I está correto ao afirmar que o poder do juiz singular de declarar a inconstitucionalidade de normas não está expresso na CF/88, sendo fruto de construção jurisprudencial (controle difuso). Os demais itens contêm erros conceituais: o item II inverte o modelo kelseniano; o item III troca as posições de Hesse e Lassalle; o item IV contraria a doutrina de Hesse sobre os limites da mutação constitucional.
Controle de constitucionalidade
1Controle difuso (juiz singular)
Não previsto expressamente na CF/88
Construção jurisprudencial
Reserva de plenário (art. 97)
2Modelo kelseniano (originário)
Decisão constitutiva (anula a norma)
Efeitos ex nunc (prospectivos)
Nulidade ex tunc (equivocado)
3Força normativa da Constituição
Lassalle
Constituição real prevalece
Fatores reais de poder
Hesse
Constituição jurídica pode impor-se
Vontade de Constituição
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Item I — ✅ Correto
A Constituição Federal de 1988 não prevê expressamente que juízes singulares possam declarar a inconstitucionalidade de leis. Essa competência decorre do sistema de controle difuso ou incidental, que permite a qualquer órgão judicial, no julgamento de um caso concreto, afastar a aplicação de norma que considere inconstitucional. A única previsão textual é a chamada reserva de plenário (art. 97 CF), que exige que os tribunais declarem a inconstitucionalidade por maioria absoluta de seus membros ou do órgão especial. Assim, o item reflete corretamente a origem jurisprudencial desse poder.
Item II — ❌ Incorreto
A teoria originária de Kelsen (modelo austríaco) sustenta que a decisão do tribunal constitucional tem natureza constitutiva, ou seja, ela anula a norma com efeitos prospectivos (ex nunc), e não meramente declaratória de nulidade retroativa (ex tunc). A afirmação de que Kelsen reconhece a nulidade (efeitos retroativos) está equivocada. Além disso, a modulação temporal dos efeitos não fazia parte do modelo original, sendo um desenvolvimento posterior. Portanto, o item é falso.
Item III — ❌ Incorreto
Hesse e Lassalle têm posições opostas sobre a força normativa da Constituição, mas elas foram trocadas no enunciado. Para Lassalle, a Constituição real (fatores reais de poder) sempre prevalece sobre a Constituição jurídica. Para Hesse, a Constituição jurídica pode impor-se sobre a realidade, desde que exista uma vontade de Constituição e que sejam observados certos pressupostos. Logo, o item atribui a Lassalle a defesa da força normativa e a Hesse a ideia de impotência da Constituição jurídica, o que é incorreto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca inverte deliberadamente as posições de Hesse e Lassalle. Guarde: Lassalle → realidade manda; Hesse → norma pode prevalecer.
Item IV — ❌ Incorreto
A mutação constitucional é o processo informal de alteração do sentido da norma constitucional sem modificação do texto, acompanhando as mudanças sociais. Contudo, conforme a doutrina de Hesse, a mutação encontra limite no próprio texto constitucional – não pode ir contra o texto. A afirmação de que “a mutação poderá ocorrer até mesmo contra o texto da norma” contradiz frontalmente o pensamento de Hesse, que considera o texto um limite insuperável da interpretação. Portanto, o item é falso.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A afirma que apenas o item I está certo. Conforme analisado, o item I é o único correto, sendo esta a opção exata.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B indica que apenas o item II está certo. O item II está incorreto (conforme explicado), logo esta alternativa é falsa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que apenas os itens I e III estão certos. O item III está errado (troca as posições de Hesse e Lassalle), portanto a alternativa é falsa.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D sustenta que apenas os itens II e IV estão certos. Ambos estão incorretos (II: erro sobre Kelsen; IV: erro sobre limites da mutação), logo falsa.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E defende que apenas os itens III e IV estão certos. Ambos são falsos, portanto a alternativa é incorreta.