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Questão de Português — Pontuação — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsPontuação
Código
ce161006
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SERPRO
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Analista - Especialização: Tecnologia
Texto CB1A1-I

      Os pais pediram que o menino fosse dormir cedo para que pudesse acordar à hora da passagem do ano. A julgar pela insistência da recomendação, o ano não passaria se ele não se deitasse. O que seria, francamente, um problemão — e para o mundo todo. Se o ano não virasse, tudo o que estava para acontecer a partir da meia-noite bruscamente ficaria retido nas malas, nos pacotes, na escuridão. Por respeito à humanidade, o garoto acatou. Quer dizer, mais ou menos — ficaria na cama de olhos fechados, igual quando brincava de morto, mas dormir mesmo não dormiria. Só estando acordado seria possível devassar de vez o mistério da passagem do ano.
      Os adultos mentem muito, sabia. Até mesmo sua mãe, que lhe pede não mentir nunca, inventava histórias quando ele perguntava “como era a cara do ano velho e do ano novo”. Sempre lhe respondiam, com sorrisos enigmáticos que não esclarecem nada, que tudo dependia da sua maneira de olhar. Mas olhar o quê? O ano velho indo embora tal qual um balão, “subindo, perdendo gás, perdendo gás, até acabar muito chocho”? Ou a chegada do novo, que descia de paraquedas na praça General Osório, trazendo uma mochila munida de “talco, escova de dentes e pombas”, para soltar em sinal de paz e alegria? Pouca coisa fazia sentido naquela cabeça de menino.
      Confinado em seu quarto, correu para a janela depois do beijo materno de boa noite e ali ficou, vigia do réveillon. Era preciso guardar o céu, pois com certeza “o ano passa no ar”. Mas o que faria, então, tanta gente na rua, tanto carro buzinando, sem ninguém olhando para cima? Já estavam, decerto, acostumados. “É ruim, ficar acostumado: não se vê mais nada, as coisas vão se apagando”, concluiu a criança da crônica de Drummond. Ninguém ia perceber a passagem do ano.
        Desiludido, o menino pegou no sono e acordou no chão, apavorado com o estrondo da virada. Foi correndo para a sala, onde os adultos, falando um pouco arrastado, tinham perdido o jeito comum, o jeito diurno. “Ele passou?”, quis saber. Carinhosa, a mãe levou-o de volta para o quarto, encostou o rosto em seu rosto e rogou-lhe que dormisse outra vez. O ano passara sem que ele o visse. Bem que sua mãe tinha alertado: só dependia da maneira de olhar... e ele não acertara com a maneira.

Guilherme Tauil. Para o ano que chega. Internet: < https://cronicabrasileira.org.br> (com adaptações).  
Considerando os aspectos linguísticos do texto CB1A1-I, julgue o próximo item.A correção gramatical e a coerência do texto seriam preservadas caso se suprimisse a vírgula empregada logo após o vocábulo “mãe” (segundo período do segundo parágrafo).
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Supressão da vírgula após "mãe" — análise de correção e coerência

Gabarito: Errado (E). A supressão da vírgula empregada logo após o vocábulo "mãe" alteraria o sentido da oração subordinada adjetiva, transformando-a de explicativa em restritiva, o que prejudica a coerência do texto. Como se lê no segundo parágrafo:

"Até mesmo sua mãe, que lhe pede não mentir nunca, inventava histórias quando ele perguntava 'como era a cara do ano velho e do ano novo'."

A vírgula isola a oração adjetiva explicativa, que acrescenta uma informação acessória sobre a mãe (que ela pede para não mentir). Sem a vírgula, a oração "que lhe pede não mentir nunca" passaria a ser restritiva, ou seja, indicaria que existe mais de uma mãe e que estamos falando especificamente daquela que faz tal pedido. Isso é incoerente com o contexto, pois a mãe do menino é um ser único e já identificado no texto. Assim, a correção gramatical (a vírgula é obrigatória para marcar a explicativa) e a coerência seriam comprometidas.

Portanto, a afirmação de que a supressão preservaria a correção e a coerência é falsa.

Gabarito: letra E.

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