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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce161007
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SERPRO
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Analista - Especialização: Tecnologia
Texto CB1A1-I

      Os pais pediram que o menino fosse dormir cedo para que pudesse acordar à hora da passagem do ano. A julgar pela insistência da recomendação, o ano não passaria se ele não se deitasse. O que seria, francamente, um problemão — e para o mundo todo. Se o ano não virasse, tudo o que estava para acontecer a partir da meia-noite bruscamente ficaria retido nas malas, nos pacotes, na escuridão. Por respeito à humanidade, o garoto acatou. Quer dizer, mais ou menos — ficaria na cama de olhos fechados, igual quando brincava de morto, mas dormir mesmo não dormiria. Só estando acordado seria possível devassar de vez o mistério da passagem do ano.
      Os adultos mentem muito, sabia. Até mesmo sua mãe, que lhe pede não mentir nunca, inventava histórias quando ele perguntava “como era a cara do ano velho e do ano novo”. Sempre lhe respondiam, com sorrisos enigmáticos que não esclarecem nada, que tudo dependia da sua maneira de olhar. Mas olhar o quê? O ano velho indo embora tal qual um balão, “subindo, perdendo gás, perdendo gás, até acabar muito chocho”? Ou a chegada do novo, que descia de paraquedas na praça General Osório, trazendo uma mochila munida de “talco, escova de dentes e pombas”, para soltar em sinal de paz e alegria? Pouca coisa fazia sentido naquela cabeça de menino.
      Confinado em seu quarto, correu para a janela depois do beijo materno de boa noite e ali ficou, vigia do réveillon. Era preciso guardar o céu, pois com certeza “o ano passa no ar”. Mas o que faria, então, tanta gente na rua, tanto carro buzinando, sem ninguém olhando para cima? Já estavam, decerto, acostumados. “É ruim, ficar acostumado: não se vê mais nada, as coisas vão se apagando”, concluiu a criança da crônica de Drummond. Ninguém ia perceber a passagem do ano.
        Desiludido, o menino pegou no sono e acordou no chão, apavorado com o estrondo da virada. Foi correndo para a sala, onde os adultos, falando um pouco arrastado, tinham perdido o jeito comum, o jeito diurno. “Ele passou?”, quis saber. Carinhosa, a mãe levou-o de volta para o quarto, encostou o rosto em seu rosto e rogou-lhe que dormisse outra vez. O ano passara sem que ele o visse. Bem que sua mãe tinha alertado: só dependia da maneira de olhar... e ele não acertara com a maneira.

Guilherme Tauil. Para o ano que chega. Internet: < https://cronicabrasileira.org.br> (com adaptações).  
Considerando os aspectos linguísticos do texto CB1A1-I, julgue o próximo item.Em “rogou-lhe que dormisse outra vez” (quarto período do quarto parágrafo), “-lhe” poderia ser substituído por o menino sem prejuízo da coerência e da correção gramatical do texto.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substituição do pronome 'lhe' por 'o menino'

Gabarito: Errado (E). A substituição de "lhe" por "o menino" na passagem "rogou-lhe que dormisse outra vez" prejudica a correção gramatical, pois altera a estrutura de regência exigida pelo verbo "rogar". O pronome "lhe" exerce função de objeto indireto (equivale a "a ele"), enquanto "o menino" seria objeto direto, incompatível com a regência do verbo nesse contexto.

Análise do texto

No trecho:

"Carinhosa, a mãe levou-o de volta para o quarto, encostou o rosto em seu rosto e rogou-lhe que dormisse outra vez."

O verbo "rogar" no sentido de "pedir" rege objeto indireto (pedir a alguém). Por isso, o pronome "lhe" é adequado. Substituir por "o menino" sem acrescentar a preposição "a" resultaria em "rogou o menino que dormisse", construção que fere a regência. Se a intenção fosse manter a correção, seria necessário "rogou ao menino".

Consequências da substituição

  • Correção gramatical: Comprometida, pois o verbo passa a ter objeto direto inadequado.

  • Coerência textual: Mantida, pois o referente continua sendo o menino; no entanto, o erro gramatical já invalida a afirmação do item.

Conclusão

O item afirma que a substituição é possível "sem prejuízo da coerência e da correção gramatical". Como a correção é afetada, o item está Errado (E).

1Verbo "rogar" (pedir)
Rege objeto indireto
"lhe" = a ele (correto)
"o menino" = objeto direto (incorreto)
2Consequências
Correção gramatical: [-] comprometida
Coerência textual: [+] mantida
3Conclusão
Item errado (exige ambos)
Substituição de "lhe" por "o menino"
LEVELsoulevel.com.br
Substituição de "lhe" por "o menino": Verbo "rogar" (pedir) (Rege objeto indireto, "lhe" = a ele (correto), "o menino" = objeto direto (incorreto)); Consequências (Correção gramatical: [-] comprometida, Coerência textual: [+] mantida); Conclusão (Item errado (exige ambos))
PEGA ESSA DICA!

Ao avaliar substituições de pronomes, verifique sempre a regência do verbo. "Lhe" só pode substituir objeto indireto (com preposição); se o verbo pede objeto direto, usa-se "o", "a", etc.

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