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Questão de Português — Morfologia — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsMorfologia
Código
ce165907
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
FUB
Ano
2023
Nível
Médio
     O papel fundante da memória dos mortos para o desenvolvimento da cultura teve algo de acidental, pois o mecanismo poderoso de propagação dos hábitos, das ideias e dos comportamentos dos ancestrais foi o afeto. A lembrança de quem partiu, bem visível nos chimpanzés, que se enlutam quando perdem um ente querido, tornou-se uma marca indelével de nossa espécie. Isso não aconteceu sem contradições, é claro. Com o amor pelos mortos surgiu também o medo deles. Do Egito a Papua-Nova Guiné, em distintos momentos e lugares, floresceram rituais para neutralizar, apaziguar e satisfazer aos espíritos desencarnados. Na Inglaterra medieval, temiam-se tanto os mortos que cadáveres eram mutilados e queimados para se garantir sua permanência nas covas. Entre os Yanomami, a queima dos pertences é uma parte essencial dos rituais fúnebres. A Igreja Católica até hoje considera que os restos mortais dos santos são valiosas relíquias religiosas.
      A propagação dos memes de entidades espirituais foi, portanto, impulsionada pelos afetos positivos e negativos em relação aos mortos. Foi a memória das técnicas e dos conhecimentos carregados pelos avós e pais falecidos que transformou esse processo em algo adaptativo, um verdadeiro círculo virtuoso simbólico. Não é exagero dizer que o motor essencial da nossa explosão cultural foi a saudade dos mortos. A crença na autoridade divina para orientar decisões humanas levou a um acúmulo acelerado de conhecimentos empíricos sobre o mundo, sob a forma de preceitos, mitos, dogmas, rituais e práticas. Ainda que apoiada em coincidências e superstições de todo tipo, essa crença foi o embrião de nossa racionalidade. Causas e efeitos foram sendo aprendidos pela corroboração ou não da eficácia dos símbolos religiosos. 

Sidarta Ribeiro. O oráculo da noite: a história da ciência e do sonho.
São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 325 (com adaptações).
A respeito das ideias, dos sentidos e dos aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item que se segue.O segmento “Com o amor pelos mortos” (quarto período do primeiro parágrafo) exprime uma causa.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise do item — ❌ ERRADO

O segmento “Com o amor pelos mortos” (quarto período do primeiro parágrafo) não exprime causa, mas sim concomitância (acompanhamento). O texto afirma: “Isso não aconteceu sem contradições, é claro. Com o amor pelos mortos surgiu também o medo deles.” A presença do advérbio “também” e a frase anterior indicam que amor e medo surgiram juntos, como dois lados de uma mesma contradição, e não que o amor foi a causa do medo. A preposição “com” assume, nesse contexto, valor de acompanhamento (aquilo que vem junto), e não de causa. Portanto, a afirmação está errada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer o candidato atribuir valor causal à preposição “com”, que é comum em outras construções (ex.: “Com a chuva, a plantação cresceu”), mas aqui o contexto exige interpretação de concomitância, devido à presença de “também” e ao paralelismo entre amor e medo.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar relações semânticas, verifique sempre os conectivos e advérbios adjacentes (como “também”) e a estrutura do período — eles são pistas decisivas para distinguir causa de circunstância.

Gabarito: Errado

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