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Questão de Português — Funções morfossintáticas da palavra QUE — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsFunções morfossintáticas da palavra QUE
Código
ce170960
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
CNJ
Ano
2024
Nível
Médio
Cargo
Técnico Judiciário - Área Administrativa
        O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo. Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição. A indistinção fundamental entre as duas formas é prejuízo romântico que teve os seus adeptos mais entusiastas durante o século XIX. De acordo com esses doutrinadores, o Estado e as suas instituições descenderiam em linha reta, e por simples evolução, da família. A verdade, bem outra, é que pertencem a ordens diferentes em essência. Só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade. Há nesse fato um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre o material, do abstrato sobre o corpóreo, e não uma depuração sucessiva, uma espiritualização de formas mais naturais e rudimentares.
        Em todas as culturas, o processo pelo qual a lei geral suplanta a lei particular faz-se acompanhar de crises mais ou menos graves e prolongadas, que podem afetar profundamente a estrutura da sociedade. Quem compare, por exemplo, o regime do trabalho das velhas corporações e grêmios de artesãos com a “escravidão dos salários” nas usinas modernas tem um elemento precioso para o julgamento da inquietação social de nossos dias. Nas velhas corporações o mestre e seus aprendizes formavam uma só família, cujos membros se sujeitam a uma hierarquia natural, mas que partilham das mesmas privações e confortos. Foi o moderno sistema industrial que, separando os empregadores e empregados nos processos de manufatura e diferenciando cada vez mais suas funções, suprimiu a atmosfera de intimidade que reinava entre uns e outros e estimulou os antagonismos de classe. O novo regime tornava mais fácil, além disso, ao capitalista explorar o trabalho de seus empregados, a troco de salários ínfimos. 

Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1995, p. 141-142 (com adaptações).
Julgue o item seguinte, acerca das ideias e dos aspectos linguísticos do texto precedente.No quinto período do primeiro parágrafo, o vocábulo “que”, em “é que pertencem”, é um pronome que retoma, por coesão, os termos “Estado” e “família”, mencionados no período imediatamente anterior.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Função do 'que' em 'é que' no texto

ERRADO. O vocábulo 'que' em 'é que' não é pronome relativo e não retoma 'Estado' e 'família'; trata-se de partícula expletiva de realce, sem função coesiva referencial.

Análise do trecho

O quinto período do primeiro parágrafo é:

"A verdade, bem outra, é que pertencem a ordens diferentes em essência."

A expressão 'é que' é uma construção enfática — chamada de partícula expletiva ou de realce. Esse 'que' não substitui nem retoma nenhum termo anterior; ele apenas realça a informação que segue. Pode ser retirado da frase sem prejuízo sintático:

"A verdade, bem outra, pertencem a ordens diferentes em essência."

Por que não é pronome relativo?

O pronome relativo 'que' sempre retoma um antecedente nominal expresso e introduz uma oração subordinada adjetiva. Exemplo no próprio texto: "prejuízo romântico que teve os seus adeptos..." — aqui 'que' retoma 'prejuízo romântico'. Já em 'é que', o 'que' não tem antecedente; faz parte de uma locução de realce.

Conclusão

A afirmação do item é falsa. O 'que' em 'é que' é partícula expletiva, não pronome relativo, e portanto não retoma coesivamente 'Estado' e 'família'. A coesão do período se dá pelo verbo 'pertencem', cujo sujeito (implícito) são 'Estado e suas instituições', mas isso independe do 'que'.

Aspecto analisado

Afirmação do item

Realidade linguística

Conclusão

Classe gramatical do “que”

Pronome relativo

Partícula expletiva de realce

❌ Não é pronome

Função coesiva

Retoma “Estado” e “família”

Não retoma termo anterior; apenas realça a informação

❌ Não há coesão referencial

Possibilidade de supressão

Pode ser retirado sem prejuízo sintático

✅ Confirma caráter expletivo

Exemplo de pronome relativo no texto

“prejuízo romântico que teve os seus adeptos”

✅ Há contraste com o uso correto

Gabarito: ERRADO (E).

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