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Questão de Português — Morfologia - Verbos — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsMorfologia - Verbos
Código
ce170963
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
CNJ
Ano
2024
Nível
Médio
Cargo
Técnico Judiciário - Área Administrativa
        O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo. Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição. A indistinção fundamental entre as duas formas é prejuízo romântico que teve os seus adeptos mais entusiastas durante o século XIX. De acordo com esses doutrinadores, o Estado e as suas instituições descenderiam em linha reta, e por simples evolução, da família. A verdade, bem outra, é que pertencem a ordens diferentes em essência. Só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade. Há nesse fato um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre o material, do abstrato sobre o corpóreo, e não uma depuração sucessiva, uma espiritualização de formas mais naturais e rudimentares.
        Em todas as culturas, o processo pelo qual a lei geral suplanta a lei particular faz-se acompanhar de crises mais ou menos graves e prolongadas, que podem afetar profundamente a estrutura da sociedade. Quem compare, por exemplo, o regime do trabalho das velhas corporações e grêmios de artesãos com a “escravidão dos salários” nas usinas modernas tem um elemento precioso para o julgamento da inquietação social de nossos dias. Nas velhas corporações o mestre e seus aprendizes formavam uma só família, cujos membros se sujeitam a uma hierarquia natural, mas que partilham das mesmas privações e confortos. Foi o moderno sistema industrial que, separando os empregadores e empregados nos processos de manufatura e diferenciando cada vez mais suas funções, suprimiu a atmosfera de intimidade que reinava entre uns e outros e estimulou os antagonismos de classe. O novo regime tornava mais fácil, além disso, ao capitalista explorar o trabalho de seus empregados, a troco de salários ínfimos. 

Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1995, p. 141-142 (com adaptações).
Julgue o item seguinte, acerca das ideias e dos aspectos linguísticos do texto precedente.O futuro do pretérito empregado na forma verbal “descenderiam”, no contexto do quarto período do primeiro parágrafo do texto, permite concluir que o autor considera duvidosa a percepção de que Estado e família se confundem, o que se confirma na defesa categórica do exato oposto no período seguinte.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função do futuro do pretérito e oposição de ideias

Gabarito: ✅ Certo (C). O item está correto: o emprego de “descenderiam” (futuro do pretérito) indica que o autor está relatando uma opinião alheia como hipotética ou duvidosa, e a frase seguinte a rejeita categoricamente.

Prova no texto

No quarto período do primeiro parágrafo, lê-se:

“De acordo com esses doutrinadores, o Estado e as suas instituições descenderiam em linha reta, e por simples evolução, da família.”

A forma verbal “descenderiam” está no futuro do pretérito. Esse tempo, nesse contexto, não expressa um fato real, mas sim uma possibilidade ou crença alheia – o autor não se compromete com a verdade da afirmação; ao contrário, ele a apresenta como duvidosa. Em seguida, o período seguinte começa com:

“A verdade, bem outra, é que pertencem a ordens diferentes em essência.”

A expressão “A verdade, bem outra” introduz uma defesa categórica do oposto: Estado e família não se confundem, são de ordens essencialmente distintas. Portanto, a segunda parte do item – “o que se confirma na defesa categórica do exato oposto no período seguinte” – é perfeitamente sustentada.

  1. 1Futuro do pretérito em 'descenderiam'
  2. 2Indica opinião alheia como duvidosa
  3. 3Período seguinte rejeita a ideia
  4. 4Conclusão: item correto
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Análise da lógica do item

O item afirma que: (a) o futuro do pretérito em “descenderiam” permite concluir que o autor considera duvidosa a percepção de que Estado e família se confundem; (b) essa conclusão se confirma com a defesa do oposto no período seguinte. Ambas as partes são verdadeiras. O futuro do pretérito é um recurso típico para distanciamento ou irrealidade; associado ao adjunto “De acordo com esses doutrinadores”, fica claro que a ideia não é do autor, mas de terceiros, e ele a trata como hipótese duvidosa. A rejeição na frase seguinte é explícita.

NÃO CAIA NESSA!

Não há armadilha real; o item descreve corretamente a função do tempo verbal e a estrutura argumentativa do texto. O candidato precisa apenas reconhecer que o futuro do pretérito pode indicar incerteza ou opinião não compartilhada.

PEGA ESSA DICA!

Em interpretação textual, sempre observe os tempos verbais e os conectivos adversativos. “Mas”, “porém”, “a verdade é que” sinalizam oposição. O futuro do pretérito (em contextos de relato de opinião) é um marcador de dúvida ou hipótese.

Conclusão: O item está Certo. A banca testa a capacidade de relacionar um aspecto gramatical (futuro do pretérito) com a estratégia argumentativa do texto. A resposta está inteiramente ancorada no trecho citado.

Gabarito: ✅ Certo (C).

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