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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce177231
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE-TO
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Analista Ministerial Especializado - Área de Atuação: Letras

Texto 11A05


        Não negueis jamais ao erário, à administração, à União os seus direitos. São tão invioláveis, como quaisquer outros. O direito dos mais miseráveis dos homens, o direito do mendigo, do escravo, do criminoso, não é menos sagrado, perante a justiça, que o do mais alto dos poderes. Antes, com os mais miseráveis é que a justiça deve ser mais atenta, e redobrar-se de escrúpulo, porque são os mais mal defendidos, os que suscitam menos interesse, e os contra cujo direito conspiram a inferioridade na condição com a míngua nos recursos. 


        Preservai, juízes de amanhã, preservai vossas almas juvenis desses baixos e abomináveis sofismas. A ninguém importa mais do que à magistratura fugir do medo, esquivar-se de humilhações, e não conhecer covardia. Todo bom magistrado tem muito de heroico em si mesmo, na pureza imaculada e na plácida rigidez, que a nada se dobre, e de nada se tenha medo, senão da outra justiça, assente, cá embaixo, na consciência das nações, e culminante, lá em cima, no juízo divino. 


        Não tergiverseis com as vossas responsabilidades, por mais atribulações que vos imponham, e mais perigos a que vos exponham. Nem receeis soberanias da terra: nem a do povo, nem a do poder. O povo é uma torrente, que rara vez se não deixa conter pelas ações magnânimas. A intrepidez do juiz, como a bravura do soldado, arrebata-o e o fascina.


        Os poderosos que investem contra a justiça, provocam e desrespeitam tribunais, por mais que lhes espumem contra as sentenças, quando justas, não terão, por muito tempo, a cabeça erguida em ameaça ou desobediência diante dos magistrados, que os enfrentam com dignidade e firmeza.


        Na missão do advogado também se desenvolve uma espécie de magistratura. As duas se entrelaçam, diversas nas funções, mas idênticas no objeto e na resultante: a justiça. Com o advogado, justiça militante. Justiça imperante, no magistrado.


Rui Barbosa. Oração aos moços. Brasília: Senado Federal,

Conselho Editorial, 2019, p. 61-63 (com adaptações).

No que diz respeito à estrutura da frase e à significação dos vocábulos no texto 11A05, julgue o item subsecutivo.Sem prejuízo de qualquer natureza, o segmento “por mais atribulações que vos imponham, e mais perigos a que vos exponham” (primeiro período do terceiro parágrafo) poderia ser reescrito da seguinte forma: mesmo que lhes imponham tribulações, e lhes exponham mais perigos.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Reescrita de oração concessiva com pronomes

Gabarito: Errado (E). A reescrita proposta altera a pessoa do discurso (de 2ª para 3ª) e a estrutura da oração com "expor", suprimindo a preposição "a", o que compromete a equivalência semântica e gramatical. No texto original, Rui Barbosa dirige-se diretamente aos futuros juízes com o pronome "vos"; a substituição por "lhes" perde essa marca de interlocução direta. Além disso, em "a que vos exponham", a preposição "a" é necessária para a regência de "expor" (expor alguém a algo); na reescrita, "lhes exponham mais perigos" fica ambíguo e altera o sentido.

A reescrita proposta

"mesmo que lhes imponham tribulações, e lhes exponham mais perigos"

O trecho original

"por mais atribulações que vos imponham, e mais perigos a que vos exponham"

Análise das diferenças

  1. Concessão: "por mais... que" é uma estrutura concessiva de quantidade ("não importa quantas tribulações"), enquanto "mesmo que" é uma concessão genérica. Embora próximos, há diferença de ênfase, mas isso poderia ser tolerado. O problema maior são as alterações pronominais e sintáticas.

  1. Pronome: "vos" (2ª pessoa do plural, direto) → "lhes" (3ª pessoa, indireto). No texto, o autor vocifera para os “juízes de amanhã”; usar "lhes" quebra essa relação discursiva. A mudança de pessoa afeta o tom e a coesão referencial.

  1. Regência de "expor": No original, "a que vos exponham" – o "a" é preposição exigida pelo verbo (expor alguém a algo). Na reescrita, "lhes exponham mais perigos" omite a preposição, o que pode levar a interpretação de que "expor" é transitivo direto e indireto ao mesmo tempo (expor algo a alguém) ou gera ambiguidade. O sentido pretendido (expor os juízes a perigos) fica prejudicado.

Portanto, a reescrita não é equivalente sem prejuízo.

  1. 1Original: 'vos' (2ª pessoa)
  2. 2Reescrita: 'lhes' (3ª pessoa)
  3. 3Perde interlocução direta
  4. 4Original: 'a que vos exponham'
  5. 5Reescrita omite prep. 'a'
  6. 6Regência de 'expor' prejudicada
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NÃO CAIA NESSA!

O candidato pode achar que "vos" e "lhes" são intercambiáveis, mas a troca muda a pessoa do discurso e pode afetar a regência. Além disso, a omissão da preposição "a" parece inofensiva, mas compromete a clareza do complemento.

Conclusão: a assertiva está ERRADA.

Gabarito: E

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