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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce177250
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE-TO
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Analista Ministerial Especializado - Área de Atuação: Letras

        Há um pressuposto ideológico que informa o direito e suas instituições, concretizado na utopia da dogmática jurídica, de que os conflitos sociais devam ser “resolvidos” na esfera do Judiciário, dentro dos estritos limites da lei, diante da qual “todos são iguais”.


        Não resta dúvida de que, apesar dessa “certeza”, grande parte dos conflitos que envolvem violência sequer chegam ao conhecimento do Estado, e, quando nele aportam, não são necessariamente “resolvidos”. Assim, o ideal de uma sociedade que “equilibre” e “harmonize” os interesses entre os indivíduos, entre gêneros, raças, grupos, classes, ou entre cidadãos e o Estado atua ideologicamente diante da impossibilidade de se concretizar na dinâmica real da sociedade.


        A questão da desigualdade de tratamento dos conflitos e de seus agentes pela justiça, remete-nos às questões das desigualdades sociais e da seletividade do enquadramento punitivo. Dentro de uma perspectiva histórica, observamos a existência de uma seletividade no que se refere à legitimidade dos eventos que devam ser tratados como “conflito social”, passíveis de julgamento pelo Poder Judiciário. Até o surgimento das leis trabalhistas, no Brasil, na década de 40 do século XX, e mesmo depois, os conflitos oriundos das relações de trabalho eram considerados “casos de polícia”, da mesma forma que foram tratados, durante boa parte da nossa história republicana, os conflitos políticos. Conflitos de vizinhança e outros de pequena repercussão social são remetidos à esfera da solução policial. Estudos da área da sociologia e da antropologia do direito têm revelado formas alternativas à polícia e ao Judiciário para a intermediação e a “solução” de certos conflitos sociais, em particular na área da violência, incluindo a atuação das famílias e amigos, de igrejas, de associações de moradores. 


Jacqueline HERMANN; Leila. A. L. BARSTED. O judiciário e a violência contra a mulher: a ordem legal e a (des)ordem familiar. In: F. SEVERI; E. W. V. CATILHO; M. C. MATOS. (orgs.) Tecendo fios das críticas feministas ao direito no Brasil II, volume 1. Ribeirão Preto: FDRP/USP, 2020 (com adaptações). 

Julgue o item que se segue, relativos ao texto precedente.No primeiro parágrafo, a expressão “dogmática jurídica” poderia ser corretamente substituída por hermenêutica jurídica, sem que isso alterasse os sentidos do texto, já que os vocábulos dogmática e hermenêutica são sinônimos.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Análise da afirmação sobre dogmática e hermenêutica jurídica

❌ ERRADO. A afirmação é falsa porque "dogmática jurídica" e "hermenêutica jurídica" não são sinônimos no contexto do texto nem no uso técnico-jurídico. A substituição alteraria o sentido do trecho.

O texto emprega "dogmática jurídica" como um conjunto de princípios tidos como inquestionáveis (dogmas), como se vê na passagem:

"concretizado na utopia da dogmática jurídica, de que os conflitos sociais devam ser 'resolvidos' na esfera do Judiciário, dentro dos estritos limites da lei, diante da qual 'todos são iguais'."

A palavra "dogmática" remete a uma postura de aceitação acrítica de certas premissas. Já "hermenêutica jurídica" designa a arte ou ciência da interpretação das normas, um campo que lida com a atribuição de sentido, e não com a aceitação de dogmas. Os dois termos pertencem a campos semânticos distintos.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de sinônimos, desconfie sempre de pares que pertencem a áreas técnicas diferentes. A banca explora o falso cognato ou a suposta sinonímia entre termos que o candidato conhece vagamente. Contexto e conhecimento especializado são decisivos.

Portanto, a afirmação é errada: a troca alteraria o sentido, e os vocábulos não são sinônimos.

Gabarito: E

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