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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce177275
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
MPE-TO
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Analista Ministerial Especializado - Área de Atuação: Letras


Texto 11A1


        Trabalho e educação são atividades especificamente humanas. Isso significa que, rigorosamente falando, apenas o ser humano trabalha e educa. Assim, a pergunta sobre os fundamentos ontológicos da relação trabalho-educação traz imediatamente à mente a questão: quais são as características do ser humano que lhe permitem realizar as ações de trabalhar e de educar? Ou: o que é que está inscrito no ser do humano que lhe possibilita trabalhar e educar?


        Perguntas desse tipo pressupõem que o ser humano esteja previamente constituído como ser que possui propriedades que lhe permitem trabalhar e educar. Pressupõe-se, portanto, uma definição de ser humano que indique em que ele consiste, isto é, sua característica essencial a partir da qual se possa explicar o trabalho e a educação como atributos desse ser. E, nesse caso, fica aberta a possibilidade de que trabalho e educação sejam considerados atributos essenciais do ser humano, ou acidentais.


        Na definição de ser humano mais difundida (animal racional), o atributo essencial é dado pela racionalidade, consoante o significado clássico de definição estabelecido por Aristóteles: uma definição dá-se pelo gênero próximo e pela diferença específica. Pelo gênero próximo, indica-se aquilo que o objeto definido tem em comum com outros seres de espécies diferentes (no caso em tela, o gênero animal); pela diferença específica, indica-se a espécie, isto é, o que distingue determinado ser dos demais que pertencem ao mesmo gênero (no caso do ser humano, a racionalidade). Consequentemente, sendo o ser humano definido pela racionalidade, é esta que assume o caráter de atributo essencial desse ser.


        Ora, assim entendido o ser humano, vê-se que, embora trabalhar e educar possam ser reconhecidos como atributos humanos, eles o são em caráter acidental, e não substancial. Com efeito, o mesmo Aristóteles, considerando como próprio do ser humano o pensar, o contemplar, reputa o ato produtivo, o trabalho, como uma atividade não digna de seres humanos livres.


        Diversamente, Bergson, ao analisar o desenvolvimento do impulso vital na obra Evolução criadora, observa que “torpor vegetativo, instinto e inteligência” são os elementos comuns às plantas e aos animais. E, definindo a inteligência pela fabricação de objetos, fenômeno identificado como comum aos animais, encontra no ser humano a particularidade da fabricação de objetos artificiais, o que lhe permite avançar à seguinte conclusão: “Se pudéssemos nos despir de todo orgulho, se, para definir nossa espécie, nos ativéssemos estritamente ao que a história e a pré-história nos apresentam como a característica constante do ser humano e da inteligência, talvez não disséssemos Homo sapiens, mas Homo faber. Em conclusão, a inteligência, encarada no que parece ser o seu empenho original, é a faculdade de fabricar objetos artificiais, sobretudo ferramentas para fazer ferramentas, e de diversificar ao infinito a fabricação delas.”.


Demerval Saviani. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Internet: (com adaptações). 

Em relação às ideias apresentadas no texto 11A1 e às relações de coerência nele presentes, julgue o item que se segue.O fato de as ações de trabalhar e educar serem colocadas nessa ordem, ao longo de todo o texto, necessariamente indica a relação de temporalidade que há entre elas, de forma que o trabalho deve ser considerado como ação precedente à educação.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Relação de temporalidade entre trabalho e educação no texto

Gabarito: E (Errado). A afirmação de que a ordem "trabalho e educação" indica necessariamente uma relação de temporalidade (trabalho precede educação) é uma extrapolação. O texto não estabelece qualquer vínculo temporal ou de precedência entre essas atividades; ao contrário, ele as trata como atributos humanos discutidos de forma paralela e filosófica.

Comprovação no texto:

O texto inicia com "Trabalho e educação são atividades especificamente humanas" e segue discutindo as definições de ser humano, racionalidade, e citações de Aristóteles e Bergson. Em momento algum o autor afirma que o trabalho é anterior à educação ou que há uma sequência temporal. A ordem "trabalho e educação" é apenas uma enumeração, sem valor cronológico.

"Trabalho e educação são atividades especificamente humanas. Isso significa que, rigorosamente falando, apenas o ser humano trabalha e educa."

A sequência é repetida algumas vezes, mas sempre no mesmo sentido de enumeração de duas atividades humanas. O texto explora a relação ontológica, não temporal. Portanto, impor uma relação de temporalidade é acrescentar informação que o texto não sustenta.

Análise por tipo de erro:

  • Extrapolação: a banca tenta fazer o candidato inferir que a ordem das palavras reflete uma ordem real. Não há no texto qualquer pista de que trabalho vem antes de educação. A ordem poderia ser invertida sem prejuízo de sentido.

  • Necessidade indevida: o uso de "necessariamente" torna a afirmação ainda mais frágil, pois o texto não obriga a essa conclusão.

Conclusão: O item está ERRADO.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a tendência do candidato a atribuir relações de causa/tempo a sequências enumerativas. A simples ordem dos termos não estabelece precedência temporal; é preciso que haja marcadores linguísticos (conectivos, expressões temporais) para isso.

PEGA ESSA DICA!

Desconfie sempre de palavras como "necessariamente", "obrigatoriamente", "sempre", "nunca" quando o texto não as utiliza. A ordem de palavras em uma enumeração é, em regra, arbitrária ou estilística, não lógico-temporal.

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