Analista Ministerial Especializado - Área de Atuação: Medicina
A utilização de evidências científicas de boa qualidade deve nortear a implementação de programas de rastreamento, devendo a análise dessas evidências considerar possíveis fragilidades dos estudos que levam à supervalorização dos benefícios. Na imagem acima. Observa-se a representação de um importante viés observado na interpretação de resultados de rastreamentos, o viés de tempo de duração.Internet: <www.inca.gov.br> (com adaptações).Tendo o texto e a figura apresentados como referência inicial, julgue o próximo item.A decisão compartilhada é definida como um processo construído hierarquicamente entre o profissional de saúde e o indivíduo e inclui compartilhar informações, devendo deve ser guiada pelo conhecimento científico, desconsiderando-se preferências e valores pessoais.
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Decisão compartilhada em rastreamento: autonomia e valores do paciente
Gabarito: ERRADO. A decisão compartilhada é um processo colaborativo e não hierárquico entre profissional e paciente, que inclui compartilhar informações baseadas em evidências científicas, mas deve considerar as preferências e valores pessoais do indivíduo — exatamente o oposto do que afirma o item. A afirmativa erra ao dizer que o processo é "construído hierarquicamente" e que "desconsidera preferências e valores pessoais".
A decisão compartilhada (ou tomada de decisão compartilhada) é um modelo de comunicação clínica em que médico e paciente participam em pé de igualdade na escolha da conduta. O profissional contribui com o conhecimento técnico-científico (evidências sobre benefícios, riscos, alternativas), e o paciente contribui com seus valores, preferências, contexto de vida e expectativas. O resultado é uma decisão que integra os dois lados — não uma imposição do médico, nem uma decisão exclusiva do paciente.
Esse modelo é especialmente relevante no rastreamento de doenças, como o contexto da questão sugere (viés de tempo de duração e supervalorização de benefícios). Como o rastreamento envolve pessoas assintomáticas e decisões com trade-offs (falsos positivos, sobrediagnóstico, ansiedade, custos), a decisão compartilhada permite que o paciente entenda as incertezas e participe ativamente. A hierarquia, portanto, é substituída por uma parceria — o que a literatura de medicina baseada em evidências e a ética médica (princípio da autonomia) reforçam.
Na prática, um exemplo: um homem de 70 anos com comorbidades decide sobre rastreamento de câncer de próstata. O médico apresenta as evidências (benefício pequeno em mortalidade, riscos de biópsia e tratamento), e o paciente expressa que prefere evitar procedimentos invasivos. A decisão compartilhada respeita essa preferência, mesmo que o médico, isoladamente, pudesse recomendar o rastreamento. Desconsiderar os valores do paciente seria uma postura paternalista, contrária ao modelo.
A pegadinha da banca está em inverter os dois pilares da decisão compartilhada: (1) trocar "colaborativo" por "hierárquico" e (2) afirmar que valores pessoais são desconsiderados, quando na verdade são centrais. O candidato que conhece apenas a definição superficial pode marcar "certo" por associar a decisão compartilhada ao conhecimento científico — mas o termo "desconsiderando-se preferências e valores pessoais" é o erro fatal.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca os dois pilares da decisão compartilhada: diz que o processo é "hierárquico" (quando é colaborativo) e que "desconsidera preferências e valores" (quando eles são essenciais). O candidato que lê rápido e associa "decisão compartilhada" a "evidência científica" pode marcar certo — mas o item é duplamente falso.
Decisão compartilhada: Processo (Hierárquico (errado), Colaborativo e horizontal); Papéis (Profissional: conhecimento técnico-científico, Paciente: valores, preferências e contexto); Evidências científicas (Guiam a decisão, Desconsiderar valores (errado))
Item — ❌ ERRADO
A afirmativa contém dois erros conceituais que a tornam incorreta:
"Processo construído hierarquicamente" — a decisão compartilhada é, por definição, um processo colaborativo e horizontal, em que profissional e paciente têm papéis complementares, mas não hierárquicos. O profissional não impõe a decisão; ele facilita e informa.
"Desconsiderando-se preferências e valores pessoais" — as preferências e valores do paciente são elementos centrais da decisão compartilhada. O modelo existe justamente para integrar a melhor evidência científica ao contexto individual do paciente. Desconsiderá-los seria paternalismo, não decisão compartilhada.
O que a afirmativa descreve é o oposto do conceito consagrado na literatura de medicina baseada em evidências e na ética médica (princípio da autonomia). A decisão compartilhada inclui compartilhar informações e ser guiada pelo conhecimento científico, mas não desconsidera valores — ela os coloca no centro do processo.