Questão de Medicina — Medicina Preventiva — CESPE / CEBRASPE 2024
- Código
- ce177305
- Banca
- CESPE / CEBRASPE
- Órgão
- MPE-TO
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Analista Ministerial Especializado - Área de Atuação: Medicina
- CCerto
- EErrado
GabaritoE — Errado
Gabarito: ERRADO. A afirmativa está incorreta porque o rastreamento, embora vise à detecção precoce, não está isento de malefícios: pode gerar resultados falso-positivos, sobrediagnóstico e sobretratamento, além de não garantir que a identificação de um câncer assintomático sempre resulte em tratamento menos agressivo ou maior sobrevida. O próprio texto-base menciona "possíveis benefícios e riscos", e a literatura médica, como as diretrizes da USPSTF, reconhece explicitamente os danos do rastreamento.
O rastreamento é uma estratégia de medicina preventiva que aplica testes em pessoas assintomáticas para identificar doenças em fase inicial, permitindo intervenção precoce. A lógica é atraente: quanto mais cedo o diagnóstico, maior a chance de tratamento eficaz e menor a morbimortalidade. No entanto, essa lógica tem limites importantes. O rastreamento não é um exame diagnóstico definitivo — ele apenas seleciona um grupo que será submetido a procedimentos confirmatórios. E é justamente nesse processo que surgem os riscos.
O principal problema é o sobrediagnóstico: a detecção de cânceres que, se não fossem rastreados, nunca causariam sintomas ou morte durante a vida do paciente. Isso leva ao sobretratamento — tratamentos desnecessários (cirurgias, quimioterapia, radioterapia) com seus efeitos colaterais, sem benefício real. Além disso, há os falsos-positivos: resultados alterados que, após investigação, não confirmam a doença, mas geram ansiedade, exames adicionais e procedimentos invasivos desnecessários. Por outro lado, também existem os falsos-negativos, que dão falsa segurança e podem atrasar o diagnóstico.
A afirmativa comete três erros graves: (1) afirma que "não há malefícios" — falso, pois há riscos documentados; (2) diz que a identificação "sempre" resultará em tratamentos menos agressivos — falso, pois alguns cânceres detectados precocemente ainda exigem tratamentos agressivos, e outros, sobrediagnosticados, não precisariam de tratamento algum; (3) garante "aumento da sobrevida" — falso, pois o aumento da sobrevida pode ser apenas aparente (viés de antecipação diagnóstica), sem impacto real na mortalidade.
A banca explora a generalização indevida: o uso de palavras como "sempre" e "qualquer tipo" torna a afirmação absoluta e, portanto, incorreta. O rastreamento é uma ferramenta com indicações precisas, baseadas em evidências de que os benefícios superam os riscos para determinada população e determinado câncer. Não é uma medida universalmente benéfica.
A banca usa termos absolutos — "não há malefícios", "sempre resultará", "maior possibilidade" — para induzir o candidato a concordar com uma visão idealizada do rastreamento. Na prática, todo rastreamento tem riscos (falso-positivo, sobrediagnóstico, sobretratamento) e os benefícios dependem do equilíbrio entre eles. Quando a alternativa trouxer "sempre", "nunca" ou "qualquer", desconfie: a regra geral comporta exceções.
A afirmativa é falsa por três motivos: (1) existem malefícios — o rastreamento pode causar danos físicos e psicológicos, como complicações de procedimentos invasivos desnecessários e ansiedade por resultados falso-positivos; (2) nem sempre o tratamento é menos agressivo — alguns cânceres de crescimento lento (ex.: certos tumores de próstata e tireoide) podem ser sobrediagnosticados e tratados desnecessariamente, enquanto outros, mesmo detectados precocemente, exigem terapias agressivas; (3) o aumento da sobrevida não é garantido — o rastreamento pode apenas antecipar o diagnóstico (viés de tempo de antecipação), sem alterar a história natural da doença, ou detectar doenças que não matariam o paciente (sobrediagnóstico). O texto-base, ao mencionar "possíveis benefícios e riscos", já sinaliza que o rastreamento não é isento de danos.
Gabarito: ERRADO
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