Questão de Medicina — Endocrinologia — CESPE / CEBRASPE 2024
- Código
- ce177321
- Banca
- CESPE / CEBRASPE
- Órgão
- MPE-TO
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Analista Ministerial Especializado - Área de Atuação: Medicina
- CCerto
- EErrado
GabaritoC — Certo
Gabarito: CERTO. A afirmativa está correta: a resistência à insulina e a hiperinsulinemia compensatória, frequentes na obesidade, são mecanismos fisiopatológicos centrais que predispõem fortemente ao desenvolvimento da síndrome dos ovários policísticos (SOP) em mulheres. A hiperinsulinemia estimula a produção androgênica ovariana, perpetuando o estado hiperandrogênico característico da SOP.
A síndrome dos ovários policísticos é a endocrinopatia mais comum em mulheres em idade reprodutiva, com prevalência que varia de 5% a 10% (ou até 19%, dependendo do critério diagnóstico adotado). Trata-se de um distúrbio endócrino complexo, de etiologia multifatorial, que envolve predisposição genética e fatores ambientais. O diagnóstico, segundo o Consenso de Rotterdam (2003), exige a presença de pelo menos dois de três critérios: (1) disfunção ovulatória (oligo/anovulação), (2) hiperandrogenismo clínico e/ou laboratorial, e (3) morfologia ovariana policística à ultrassonografia. É importante destacar que a resistência à insulina e a obesidade, embora não façam parte dos critérios diagnósticos, são achados frequentes e potencializam as manifestações da síndrome.
A fisiopatologia da SOP está intimamente ligada à resistência insulínica. Na obesidade, o excesso de tecido adiposo, especialmente o visceral, é metabolicamente ativo e contribui para o estado de resistência à insulina. Como consequência, há hiperinsulinemia compensatória. A insulina em excesso atua diretamente nos ovários, estimulando as células da teca a produzirem androgênios em quantidade aumentada. Esse hiperandrogenismo, por sua vez, inibe a ovulação e perpetua o ciclo vicioso: a falta de ovulação leva à ausência de progesterona, o que mantém o estímulo inadequado na hipófise e no hipotálamo, com predomínio de LH, que estimula ainda mais a produção androgênica ovariana. Além disso, a hiperinsulinemia reduz a produção hepática da globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG), aumentando a fração livre e biologicamente ativa da testosterona, o que agrava o hiperandrogenismo clínico (acne, hirsutismo, alopecia).
Na prática clínica, essa relação é observada de forma consistente: mulheres com SOP e obesidade apresentam maior prevalência de resistência à insulina e maior risco de desenvolver diabetes melito tipo 2, dislipidemia, hipertensão arterial e doença cardiovascular. O manejo da SOP em mulheres com sobrepeso ou obesidade inclui, como primeira linha, modificações no estilo de vida com redução de peso, que melhora a sensibilidade à insulina e pode restaurar a ovulação. Farmacologicamente, a metformina e as tiazolidinedionas são utilizadas para aumentar a sensibilidade à insulina e regular a menstruação.
A distinção que importa aqui é entre a SOP como diagnóstico sindrômico (que exige os critérios de Rotterdam) e a resistência à insulina como um dos principais mecanismos fisiopatológicos subjacentes. A banca explora exatamente essa associação: a resistência à insulina/hiperinsulinemia não é apenas uma comorbidade, mas um fator que predispõe fortemente ao desenvolvimento da SOP, especialmente em mulheres obesas. O candidato que entende o mecanismo fisiopatológico — hiperinsulinemia → estímulo androgênico ovariano → hiperandrogenismo → anovulação — reconhece a afirmativa como correta.
A banca pode tentar fazer o candidato acreditar que a resistência à insulina é apenas uma consequência da SOP, e não um fator predisponente. Na verdade, a relação é bidirecional e complexa: a hiperinsulinemia estimula a produção androgênica ovariana, favorecendo o estado hiperandrogênico característico da SOP. Em mulheres obesas, a resistência à insulina é um dos principais mecanismos que predispõem ao desenvolvimento da síndrome.
✅ CERTO. A afirmativa está correta: a resistência à insulina e a hiperinsulinemia, frequentes na obesidade, predispõem fortemente ao desenvolvimento de ovários policísticos nas mulheres, por estimularem a produção androgênica ovariana e perpetuarem o ciclo de anovulação e hiperandrogenismo.
Gabarito: CERTO.
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