Questão de Medicina — Geriatria — CESPE / CEBRASPE 2024
Medicina›Geriatria
Código
ce183270
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Prefeitura de Camaçari - BA
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico - Especialidade: Geriatra
Tendo em vista as anemias mais preponderantes em idosos, anemia ferropriva, anemia de doenças crônicas e anemia de causas inexplicadas, assinale a opção correta com referência à anemia em pacientes longevos.
AA síndrome mielodisplásica auxilia na preservação das células hematopoiéticas, constituindo fator de proteção para anemias em idosos.
BA anemia ferropriva é a mais prevalente em idosos e está relacionada a deficiência de ferro na dieta, má absorção intestinal e sangramentos crônicos.
CO tratamento da anemia ferropriva em idosos deve ser feito inicialmente com sulfato ferroso venoso com doses semestrais até a normalização das taxas hematimétricas.
DA anemia de doenças crônicas em idosos acontece devido a má absorção intestinal de ferro causada por processo inflamatório crônico associado a constipação intestinal.
EOs sintomas de anemia em idosos surgem rapidamente, com apresentações graves, como desmaios e crises convulsivas.
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GabaritoB — A anemia ferropriva é a mais prevalente em idosos e está relacionada a deficiência de ferro na dieta, má absorção intestinal e sangramentos crônicos.
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Anemia em idosos: prevalência e manejo
Gabarito: letra B. A anemia ferropriva é, de fato, a anemia mais prevalente em idosos, e sua causa está diretamente ligada à deficiência de ferro na dieta, à má absorção intestinal e, sobretudo, aos sangramentos crônicos — frequentemente ocultos no trato gastrointestinal, como aponta a literatura médica. As demais alternativas distorcem conceitos fundamentais: a síndrome mielodisplásica não protege as células hematopoiéticas, o tratamento inicial da ferropriva é oral (não venoso), a anemia de doença crônica não decorre de má absorção intestinal, e os sintomas de anemia em idosos costumam ser insidiosos, não abruptos.
A anemia é definida pela redução da hemoglobina circulante, e sua apresentação clínica varia conforme a velocidade de instalação, a intensidade e as comorbidades do paciente. No idoso, três grandes grupos dominam o cenário: a anemia ferropriva (deficiência de ferro), a anemia de doença crônica (inflamação) e a anemia inexplicada (diagnóstico de exclusão). Compreender a fisiopatologia de cada uma é essencial para o manejo correto.
A anemia ferropriva é uma anemia microcítica e hipocrômica, com três estágios: depleção de ferro (ferritina baixa), deficiência de ferro (ferro sérico baixo, transferrina alta) e anemia propriamente dita (hemograma alterado). A causa mais frequente é a perda sanguínea oculta — em homens e mulheres pós-menopausa, deve-se sempre investigar hemorragia digestiva e neoplasia gastrointestinal, mesmo sem sangue oculto detectado. O tratamento de primeira linha é a reposição oral de ferro (sulfato ferroso), com dose de 120 a 180 mg de ferro elementar por dia, por até 6 meses, estendendo-se por mais 3 a 6 meses após a normalização do hemograma para repor os estoques. A via parenteral é reservada para intolerância oral ou necessidade de reposição rápida.
A anemia de doença crônica (ou anemia da inflamação) é a segunda mais prevalente e ocorre em processos inflamatórios, infecciosos, malignos ou autoimunes. Sua fisiopatologia é multifatorial: níveis elevados de hepcidina reduzem a absorção intestinal e a mobilização do ferro dos macrófagos, citocinas induzem resistência à eritropoetina, e há encurtamento da sobrevida das hemácias. Diferentemente da ferropriva, a capacidade de ligação do ferro (TIBC) está reduzida e a ferritina costuma estar elevada. O tratamento baseia-se no manejo da doença de base e na correção de deficiências nutricionais.
A anemia inexplicada no idoso é um diagnóstico de exclusão, geralmente leve (10-12 g/dL) e normocítica. Anemia moderada ou grave nunca deve ser atribuída à idade. Exige avaliação clínico-laboratorial inicial e, se persistirem dúvidas, consultoria com hematologista.
Os sintomas de anemia no idoso surgem de forma vaga e insidiosa: fadiga, letargia, tontura, dispneia aos esforços, palidez cutaneomucosa. Em anemias crônicas, os mecanismos compensatórios (aumento do débito cardíaco, redução da afinidade da hemoglobina pelo oxigênio) mantêm o paciente assintomático mesmo com níveis baixos de hemoglobina. A tolerância é menor em idosos e cardiopatas. Sintomas graves como síncope e choque hipovolêmico ocorrem apenas em perdas sanguíneas agudas e maciças, não no quadro crônico típico do idoso.
A pegadinha central desta questão é a inversão de conceitos: a banca apresenta a síndrome mielodisplásica como protetora (quando é uma doença medular que causa anemia), troca a via de administração do ferro (oral por venosa), atribui à anemia de doença crônica uma causa que é da ferropriva (má absorção intestinal) e exagera a velocidade de instalação dos sintomas. A alternativa B é a única que descreve corretamente a epidemiologia e as causas da anemia ferropriva no idoso.
Anemias no idoso
1Ferropriva (mais prevalente)
Causas
Dieta pobre em ferro
Má absorção intestinal
Sangramento crônico oculto (TGI)
Tratamento
Ferro oral (sulfato ferroso)
Ferro venoso (só exceção)
2Doença crônica (inflamação)
Hepcidina elevada
Ferro sequestrado nos macrófagos
Resistência à eritropoetina
Tratamento: doença de base
3Inexplicada (exclusão)
Leve e normocítica
Investigar se moderada/grave
4Sintomas
Insidiosos (fadiga, tontura)
Graves súbitos (só perda aguda)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A síndrome mielodisplásica (SMD) é um grupo de neoplasias hematológicas caracterizadas por displasia e hematopoiese ineficaz na medula óssea, levando a citopenias — incluindo anemia. Ela não preserva as células hematopoiéticas; pelo contrário, é uma causa de anemia e pode evoluir para leucemia mieloide aguda. A SMD é uma das causas de anemia a ser considerada no idoso, especialmente quando há outras citopenias associadas.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A anemia ferropriva é a anemia mais prevalente em idosos, e suas causas são exatamente as descritas: deficiência de ferro na dieta, má absorção intestinal e sangramentos crônicos. No idoso, o sangramento oculto do trato gastrointestinal (frequentemente por neoplasias) é uma causa importante e deve ser sempre investigado. A alternativa espelha corretamente a epidemiologia e a etiologia da doença.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O tratamento inicial da anemia ferropriva é feito com sulfato ferroso por via oral, não venoso. A via parenteral é reservada para casos de intolerância ao medicamento oral ou necessidade de reposição rápida. Além disso, a dose não é semestral — o tratamento dura até 6 meses, com extensão de 3 a 6 meses após a normalização do hemograma para repor os estoques de ferro. A alternativa erra tanto na via de administração quanto na posologia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A anemia de doença crônica não é causada por má absorção intestinal de ferro. Sua fisiopatologia envolve inflamação crônica, com elevação da hepcidina (que sequestra o ferro nos macrófagos e reduz a absorção intestinal), resistência à eritropoetina e encurtamento da sobrevida das hemácias. A má absorção intestinal de ferro é uma causa de anemia ferropriva, não de anemia de doença crônica. A alternativa confunde os mecanismos das duas anemias.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Os sintomas de anemia em idosos surgem de forma lenta e insidiosa, não rapidamente. Em anemias crônicas, os mecanismos compensatórios mantêm o paciente assintomático por longo tempo, e os sintomas são vagos: fadiga, tontura, dispneia aos esforços. Apresentações graves como desmaios e crises convulsivas são típicas de perdas sanguíneas agudas e maciças, não do quadro crônico do idoso. A alternativa exagera a velocidade de instalação e a gravidade dos sintomas.