Questão de Medicina — Nefrologia — CESPE / CEBRASPE 2024
Medicina›Nefrologia
Código
ce183402
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Prefeitura de Camaçari - BA
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico - Especialidade: Médico Nefropediatra
Paciente do sexo masculino, com trinta e três anos de idade, relata alteração súbita da pressão há cerca de dois meses, alternando picos elevados e episódios de hipotensão. Refere quadro de rubor facial, palpitações e cafaleia durante as crises de hipertensão e informa desconhecer outros casos na família.Acerca desse quadro clínico hipotético, assinale a opção correta.
AUm bloqueador do receptor de mineralocorticoide deve ser instituído imediatamente para o controle pressórico do paciente.
BComo consequências crônicas desse caso estão a lesão microvascular renal e a retenção de sódio.
CA associação de um bloqueador dos receptores α1 e um betabloqueador consiste na primeira linha de tratamento para o paciente em questão.
DA medida das catecolaminas plasmáticas e urinárias apresenta baixa sensibilidade e alta especificidade no diagnóstico de casos semelhantes ao caso clínico em apreço.
EO caso clínico em apreço descreve uma causa comum de hipertensão secundária.
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GabaritoB — Como consequências crônicas desse caso estão a lesão microvascular renal e a retenção de sódio.
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Feocromocitoma: hipertensão secundária de causa endócrina
Gabarito: letra B. O quadro descrito — paciente jovem com hipertensão paroxística, rubor facial, palpitações e cefaleia, alternando picos hipertensivos com hipotensão — é clássico de feocromocitoma, tumor produtor de catecolaminas. A alternativa B está correta ao afirmar que as consequências crônicas incluem lesão microvascular renal e retenção de sódio, mecanismos fisiopatológicos bem estabelecidos nessa condição. As demais alternativas apresentam erros conceituais ou terapêuticos.
O feocromocitoma é um tumor neuroendócrino, geralmente benigno, originado das células cromafins da medula adrenal (ou de gânglios simpáticos extra-adrenais, quando chamado paraganglioma). Ele secreta catecolaminas — adrenalina, noradrenalina e, em menor grau, dopamina — de forma intermitente ou contínua. Essa secreção explica o quadro clínico: as crises hipertensivas paroxísticas com tríade clássica (cefaleia, sudorese e palpitações), o rubor facial, a ansiedade e até episódios de hipotensão, que podem ocorrer por depleção volêmica ou por dessensibilização dos receptores adrenérgicos após picos repetidos.
A hipertensão arterial no feocromocitoma é uma forma de hipertensão secundária, ou seja, causada por uma condição subjacente identificável. Embora seja uma causa rara de hipertensão (menos de 1% dos casos), seu reconhecimento é crucial porque o tratamento é cirúrgico (adrenalectomia) e o não tratamento pode levar a complicações graves, incluindo morte súbita por arritmias ou acidente vascular cerebral.
As consequências crônicas do excesso de catecolaminas são múltiplas e sistêmicas. A hipertensão sustentada ou paroxística repetida causa lesão em órgãos-alvo, incluindo o rim. A lesão microvascular renal ocorre por mecanismos como vasoconstrição arteriolar, isquemia glomerular e ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA). A retenção de sódio, por sua vez, é consequência da ativação do SRAA e da estimulação direta dos receptores adrenérgicos renais, levando ao aumento da reabsorção tubular de sódio. Esses mecanismos contribuem para a progressão da doença renal crônica e para a manutenção da hipertensão.
O diagnóstico do feocromocitoma baseia-se na dosagem de catecolaminas e seus metabólitos (metanefrinas e normetanefrinas) no plasma e na urina de 24 horas. Esses testes apresentam alta sensibilidade e especificidade, especialmente as metanefrinas plasmáticas livres, que são o teste de escolha. A alternativa D, ao afirmar que as catecolaminas têm baixa sensibilidade e alta especificidade, está incorreta — na verdade, a sensibilidade é alta, e a especificidade também é boa, embora possa haver falsos positivos em situações de estresse ou uso de certos medicamentos.
O tratamento do feocromocitoma envolve o preparo pré-operatório com bloqueio alfa-adrenérgico (fenoxibenzamina ou doxazosina) para controlar a pressão e prevenir crises durante a cirurgia. O bloqueio beta-adrenérgico só deve ser iniciado APÓS o bloqueio alfa, para evitar crise hipertensiva por vasoconstrição não antagonizada. A alternativa C, que sugere a associação de bloqueador alfa-1 e betabloqueador como primeira linha, está incorreta porque o betabloqueador não deve ser usado isoladamente ou antes do alfa-bloqueador. A alternativa A, que propõe bloqueador de mineralocorticoide (espironolactona), é inadequada, pois essa classe é indicada para aldosteronismo primário, não para feocromocitoma. A alternativa E, que afirma ser causa comum de hipertensão secundária, está incorreta — o feocromocitoma é causa rara; a causa mais comum de hipertensão secundária é o aldosteronismo primário.
A pegadinha central desta questão é a tentativa de confundir o tratamento do feocromocitoma com o de outras causas de hipertensão secundária, especialmente o aldosteronismo primário, e de inverter as características dos testes diagnósticos. O aluno precisa reconhecer a tríade clássica e saber que o tratamento inicial é o bloqueio alfa, não o betabloqueador ou o antagonista de mineralocorticoide.
Critério
Feocromocitoma
Aldosteronismo Primário
Mecanismo fisiopatológico
Excesso de catecolaminas (adrenalina/noradrenalina)
Excesso de aldosterona (hiperaldosteronismo)
Quadro clínico típico
Hipertensão paroxística com tríade (cefaleia, sudorese, palpitações), rubor facial, episódios de hipotensão
Hipertensão sustentada, frequentemente com hipopotassemia (fraqueza, poliúria)
Tratamento de primeira linha
Bloqueio alfa-adrenérgico (fenoxibenzamina/doxazosina) antes de qualquer betabloqueador
Antagonista de mineralocorticoide (espironolactona/eplerenona)
Feocromocitoma: Quadro clínico (Hipertensão paroxística, Tríade clássica (cefaleia, sudorese, palpitações), Rubor facial, Episódios de hipotensão); Consequências crônicas (Lesão microvascular renal, Retenção de sódio); Diagnóstico (Metanefrinas plasmáticas livres, Alta sensibilidade e especificidade); Tratamento (Bloqueio alfa (fenoxibenzamina), Betabloqueador só após alfa)
Alternativa A — ❌ Incorreta
O bloqueador de receptor de mineralocorticoide (espironolactona, eplerenona) é a base do tratamento do aldosteronismo primário, não do feocromocitoma. No feocromocitoma, o tratamento inicial é o bloqueio alfa-adrenérgico para controlar a pressão e prevenir crises. A alternativa confunde duas causas distintas de hipertensão secundária.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A lesão microvascular renal e a retenção de sódio são consequências crônicas bem documentadas do excesso de catecolaminas. A vasoconstrição renal e a ativação do SRAA levam à lesão glomerular e tubular, enquanto a estimulação adrenérgica aumenta a reabsorção de sódio. Esses mecanismos contribuem para a progressão da doença renal e para a manutenção da hipertensão.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A associação de bloqueador alfa-1 e betabloqueador não é a primeira linha de tratamento. O betabloqueador só deve ser introduzido APÓS o bloqueio alfa estar estabelecido, para evitar crise hipertensiva por vasoconstrição não antagonizada. A primeira linha é o bloqueio alfa isolado (fenoxibenzamina ou doxazosina).
Alternativa D — ❌ Incorreta
As catecolaminas plasmáticas e urinárias (especialmente as metanefrinas) apresentam ALTA sensibilidade e boa especificidade no diagnóstico do feocromocitoma. A alternativa inverte os valores: baixa sensibilidade seria um erro diagnóstico grave, pois o teste é justamente o mais sensível disponível.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O feocromocitoma é uma causa RARA de hipertensão secundária (menos de 1% dos casos). A causa mais comum é o aldosteronismo primário. A alternativa superestima a prevalência do tumor, o que levaria a uma investigação desnecessária em massa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre feocromocitoma e aldosteronismo primário, duas causas de hipertensão secundária com tratamentos distintos. No feocromocitoma, o tratamento é bloqueio alfa; no aldosteronismo, é antagonista de mineralocorticoide. Além disso, inverte a sensibilidade do teste diagnóstico. Reconhecer a tríade clássica (cefaleia, sudorese, palpitações) é o primeiro passo para não cair nessa armadilha.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de hipertensão secundária, monte um quadro mental: feocromocitoma → tríade paroxística + catecolaminas altas → bloqueio alfa; aldosteronismo primário → hipopotassemia + aldosterona/renina alta → antagonista de mineralocorticoide. Essa distinção resolve a maioria das questões do tema.