Questão de Medicina — Neurologia — CESPE / CEBRASPE 2024
Medicina›Neurologia
Código
ce183413
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Prefeitura de Camaçari - BA
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico - Especialidade: Neurologista
Uma paciente do sexo feminino, com 36 anos de idade, queixava-se de fadiga e sonolência durante o dia. Ela relatou que, quando ia para a cama para descansar e dormir, sentia uma sensação “anormal” nas pernas, descrita como “agonia”, que estava associada a uma vontade irresistível de mover as pernas. Relatou sensação de alívio ao movimentar as pernas.No quadro clínico hipotético descrito, o diagnóstico mais provável é o de
Atranstorno da insônia crônica.
Btranstorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).
Ctranstorno de ansiedade generalizada.
Dmovimentos periódicos dos membros no sono.
Esíndrome das pernas inquietas (SPI).
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GabaritoE — síndrome das pernas inquietas (SPI).
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Síndrome das pernas inquietas: diagnóstico diferencial
Gabarito: letra E. O quadro descrito — sensação "anormal"/"agonia" nas pernas, vontade irresistível de movê-las, piora no repouso e alívio ao movimentar — é a tríade clássica da síndrome das pernas inquietas (SPI), também chamada doença de Willis-Ekbom. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado nos critérios do International Restless Legs Syndrome Study Group (IRLSSG), e não depende de exame complementar.
A SPI é um distúrbio neurológico sensitivo-motor comum, caracterizado por uma urgência irresistível de mover as pernas (ou outras partes do corpo), geralmente acompanhada de sensações desagradáveis descritas como "agonia", "formigamento", "rastejamento" ou "puxão". Esses sintomas surgem ou pioram em repouso (sentado ou deitado), aliviam parcial ou totalmente com o movimento (caminhar, esticar as pernas) e apresentam clara piora no final da tarde ou à noite. A paciente do caso reúne todos esses elementos: fadiga e sonolência diurna (consequência da dificuldade de iniciar o sono), sensação "anormal" nas pernas, vontade irresistível de movê-las e alívio ao movimentar.
A fisiopatologia da SPI envolve disfunção dopaminérgica no sistema nervoso central, além de possível deficiência de ferro (que afeta a síntese de dopamina). Por isso, condições como gravidez, deficiência de ferro e doença renal em estágio terminal são fortemente associadas à SPI. O tratamento de primeira linha inclui agonistas dopaminérgicos (pramipexol, ropinirol) ou ligantes dos canais de cálcio alfa-2-delta (gabapentina, pregabalina), além de medidas não farmacológicas como exercícios físicos e correção de deficiência de ferro.
O diagnóstico diferencial mais importante é com os movimentos periódicos dos membros no sono (MPMS), que são contrações musculares rítmicas (0,5 a 10 segundos, a cada 15-40 segundos) que ocorrem durante o sono, frequentemente associados à SPI (cerca de 80% dos pacientes com SPI apresentam MPMS). No entanto, os MPMS são um achado polissonográfico, não uma queixa clínica de sensações desconfortáveis em repouso com alívio ao movimento. A alternativa D tenta confundir exatamente por essa proximidade.
Outros distratores: a insônia crônica (A) é a dificuldade de iniciar ou manter o sono, sem a componente sensitivo-motora; o TDAH (B) cursa com desatenção, hiperatividade e impulsividade, não com sensações nas pernas; o transtorno de ansiedade generalizada (C) envolve preocupação excessiva e sintomas somáticos difusos, mas não a urgência de mover as pernas com alívio pelo movimento. A chave da questão é reconhecer o padrão "desconforto em repouso + alívio com movimento + piora noturna", que é patognomônico da SPI.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre SPI e MPMS. A SPI é um diagnóstico clínico (sensações + urgência de mover + alívio com movimento); os MPMS são um achado de polissonografia (movimentos involuntários durante o sono, sem a componente sensitiva). O enunciado descreve sintomas em vigília, no repouso — isso é SPI, não MPMS. Fique atento: a presença de MPMS não exclui SPI, mas o diagnóstico de SPI não depende da polissonografia.
Síndrome das pernas inquietas (SPI)
1Critérios essenciais
Urgência de mover as pernas
Sensações desagradáveis ("agonia")
Piora em repouso
Alívio com o movimento
Piora à noite
2Consequências
Dificuldade para iniciar o sono
Fadiga e sonolência diurna
3Fisiopatologia
Disfunção dopaminérgica
Deficiência de ferro
4Tratamento
Agonistas dopaminérgicos
Ligantes alfa-2-delta
Correção de deficiência de ferro
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A insônia crônica é caracterizada por dificuldade de iniciar ou manter o sono, ou despertar precoce, com prejuízo diurno, mas não apresenta a componente sensitivo-motora descrita (sensação "anormal" nas pernas com vontade de movê-las). A paciente tem dificuldade para dormir, mas a causa é a SPI, não a insônia primária.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O TDAH manifesta-se por desatenção, hiperatividade e impulsividade, com início na infância. A paciente adulta queixa-se de fadiga e sonolência, mas o sintoma central é a urgência de mover as pernas com sensações desagradáveis, o que não faz parte do quadro de TDAH. A sonolência diurna pode até ser confundida com desatenção, mas a descrição das pernas é decisiva.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O transtorno de ansiedade generalizada (TAG) caracteriza-se por preocupação excessiva e incontrolável por pelo menos seis meses, acompanhada de sintomas como inquietação, fadiga, irritabilidade e tensão muscular. Embora a fadiga possa estar presente, não há a descrição de sensações nas pernas com alívio ao movimento, que é o achado central do caso.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Os movimentos periódicos dos membros no sono (MPMS) são contrações musculares rítmicas que ocorrem durante o sono, detectadas na polissonografia. O enunciado descreve sintomas em vigília, no repouso (quando vai para a cama), com sensação desconfortável e vontade de mover as pernas — isso é SPI, não MPMS. Além disso, os MPMS não cursam com a sensação "anormal" descrita pela paciente.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A síndrome das pernas inquietas (SPI) é o diagnóstico mais provável. Os critérios diagnósticos essenciais incluem: (1) urgência de mover as pernas, geralmente acompanhada de sensações desconfortáveis; (2) início ou piora em repouso; (3) alívio parcial ou total com o movimento; (4) piora à noite. Todos estão presentes no caso: a paciente sente "agonia" nas pernas ao deitar, tem vontade irresistível de movê-las e relata alívio ao movimentar. A fadiga e a sonolência diurna são consequências da dificuldade de iniciar o sono causada pelos sintomas.