Questão de Medicina — Pneumologia — CESPE / CEBRASPE 2024
- Código
- ce186245
- Banca
- CESPE / CEBRASPE
- Órgão
- STJ
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Analista Judiciário - Área: Apoio Especializado - Especialidade: Medicina (Ramo: Clínica Médica)
- CCerto
- EErrado
GabaritoE — Errado
Gabarito: ERRADO. A afirmativa está incorreta porque, embora a cessação do tabagismo seja a medida mais importante no tratamento da DPOC, o uso de corticosteroides inalatórios (CI) não está indicado de forma rotineira para todos os pacientes — ele é reservado para casos específicos, como aqueles com exacerbações frequentes e VEF1 < 50% do predito, o que não é o caso da paciente descrita, que apresenta VEF1 = 50% do predito, mas sem histórico de exacerbações. A base do tratamento é o broncodilatador de longa duração (LAMA/LABA), e não o CI.
A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) é uma doença respiratória caracterizada por obstrução persistente e geralmente progressiva do fluxo aéreo, associada a uma resposta inflamatória crônica anormal das vias aéreas e dos pulmões, geralmente causada pela exposição significativa a partículas ou gases nocivos, sendo o tabagismo a principal causa. O diagnóstico é confirmado pela espirometria, que demonstra obstrução ao fluxo aéreo não totalmente reversível, definida pela relação VEF1/CVF < 0,70 após broncodilatador. No caso apresentado, a paciente é tabagista de 35 maços-ano, apresenta tosse seca crônica, redução do murmúrio vesicular, hiperinsuflação pulmonar na radiografia (rebaixamento das cúpulas diafragmáticas e aumento dos espaços intercostais) e espirometria com relação VEF1/CVF < 70% e VEF1 = 50% do predito, sem resposta significativa ao broncodilatador — um quadro clássico de DPOC moderada a grave (GOLD 2-3).
O tratamento da DPOC é escalonado e baseado na avaliação dos sintomas e do risco de exacerbações. A cessação do tabagismo é a intervenção mais importante e eficaz para retardar a progressão da doença, sendo recomendada para todos os pacientes tabagistas. Além disso, a base do tratamento farmacológico é o uso de broncodilatadores de longa duração: os antagonistas muscarínicos de longa duração (LAMA) e os beta-2-agonistas de longa duração (LABA), que podem ser usados isoladamente ou em combinação, dependendo da gravidade dos sintomas e do risco de exacerbações. Os corticosteroides inalatórios (CI) são recomendados apenas para pacientes com DPOC que apresentam exacerbações frequentes (≥ 2 exacerbações moderadas ou ≥ 1 exacerbação grave que requer hospitalização no último ano) e VEF1 < 50% do predito, ou em associação com LABA para pacientes com características de asma. No caso da paciente, apesar do VEF1 = 50% do predito, não há menção a exacerbações prévias, o que contraindica o uso rotineiro de CI. Portanto, a afirmativa está incorreta ao afirmar que o tratamento deve envolver o uso de corticosteroides inalatórios, sem considerar a ausência de exacerbações.
A distinção crucial aqui é entre o tratamento de manutenção da DPOC estável e o tratamento da asma. Na asma, os corticosteroides inalatórios são a base do tratamento, pois a inflamação é o componente central da doença. Na DPOC, a inflamação é menos responsiva aos corticosteroides, e o uso de CI é mais restrito, sendo indicado apenas em subgrupos específicos de pacientes com risco elevado de exacerbações. A banca explora exatamente essa confusão: o candidato pode associar o uso de CI a qualquer doença obstrutiva, mas a DPOC tem critérios específicos para sua indicação. Além disso, a paciente não apresenta características de sobreposição asma-DPOC (ACO), como variabilidade dos sintomas ou resposta significativa ao broncodilatador, o que reforça a não indicação de CI.
Guarde a fronteira entre a DPOC e a asma no que diz respeito ao uso de corticosteroides inalatórios: na asma, CI é a base; na DPOC, CI é adjuvante em casos selecionados. É exatamente nessa fronteira que a afirmativa se divide.
A afirmativa está incorreta porque, embora a cessação do tabagismo seja uma orientação fundamental e obrigatória no tratamento da DPOC, o uso de corticosteroides inalatórios não está indicado para esta paciente. A paciente apresenta DPOC com VEF1 = 50% do predito, mas não há relato de exacerbações prévias, que é o critério principal para a indicação de CI. As diretrizes atuais (GOLD) recomendam CI apenas para pacientes com exacerbações frequentes (≥ 2 moderadas ou ≥ 1 grave) e VEF1 < 50% do predito, ou em casos de sobreposição asma-DPOC. Como a paciente não se enquadra nesses critérios, o tratamento de primeira linha deve ser broncodilatador de longa duração (LAMA ou LABA), e não CI. Portanto, a afirmativa está errada ao incluir o uso de corticosteroides inalatórios como parte do tratamento inicial desta paciente.
A banca tenta fazer o candidato associar o uso de corticosteroides inalatórios a qualquer doença obstrutiva, mas na DPOC o CI é reservado para casos com exacerbações frequentes e VEF1 < 50% do predito. A paciente tem VEF1 = 50%, mas não tem exacerbações — por isso o CI não está indicado. Fique atento: a presença de obstrução não é suficiente para indicar CI na DPOC; é preciso avaliar o risco de exacerbações.
Para questões de DPOC, lembre-se do algoritmo: 1º) cessação do tabagismo (sempre); 2º) broncodilatador de longa duração (LAMA/LABA) como base; 3º) CI apenas se exacerbações frequentes e VEF1 < 50% do predito. Na asma, o CI é a base do tratamento. Essa distinção é a chave para acertar questões sobre tratamento de doenças obstrutivas.
Gabarito: ERRADO
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