Questão de Medicina — Medicina Intensiva — CESPE / CEBRASPE 2024
- Código
- ce190112
- Banca
- CESPE / CEBRASPE
- Órgão
- TSE
- Ano
- 2024
- Nível
- Superior
- Cargo
- Analista Judiciário – Área: Apoio Especializado – Especialidade: Medicina (Clínica Médica)
- CCerto
- EErrado
GabaritoC — Certo
Gabarito: CERTO. Pacientes em fase terminal com acúmulo de secreção na via aérea podem, sim, ser tratados com medicação anticolinérgica — essa é uma conduta consagrada nos cuidados paliativos para aliviar o desconforto respiratório (a chamada "secreção de morte" ou death rattle). O fundamento está na farmacologia dos anticolinérgicos, que reduzem a produção de secreções, e na diretriz de que o controle de sintomas é um dos pilares do cuidado paliativo.
O controle de sintomas é o coração dos cuidados paliativos. A Organização Mundial da Saúde define cuidado paliativo como a abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameaçam a vida, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento — o que inclui o tratamento rigoroso da dor e de outros problemas físicos, psíquicos, sociais e espirituais. No fim da vida, o acúmulo de secreção na via aérea é um sintoma comum e angustiante, tanto para o paciente quanto para a família, e seu manejo adequado é parte essencial do conforto.
A secreção acumulada na via aérea de pacientes terminais — popularmente chamada de "chocalho da morte" — ocorre porque o paciente perde a capacidade de deglutir e de eliminar as secreções naturalmente. O som é produzido pela passagem do ar através da secreção acumulada na faringe e na traqueia. Embora o paciente em coma profundo possa não sentir desconforto, o ruído é extremamente angustiante para os familiares presentes, e o manejo visa tanto ao conforto do paciente quanto ao alívio do sofrimento da família.
A abordagem farmacológica dessa secreção se baseia no uso de anticolinérgicos, como escopolamina (hioscina), glicopirrônio e atropina. Esses medicamentos atuam bloqueando os receptores muscarínicos da acetilcolina, o que reduz a produção de secreções pelas glândulas salivares e brônquicas. Com menos secreção sendo produzida, o ruído diminui e o paciente fica mais confortável. É importante destacar que a aspiração de vias aéreas, embora útil em alguns casos, pode ser desconfortável e deve ser usada com parcimônia no fim da vida — os anticolinérgicos são a primeira linha para o controle desse sintoma.
A literatura de cuidados paliativos é clara ao recomendar os anticolinérgicos para o manejo da sialorreia e da secreção abundante em pacientes terminais. No contexto do paciente crítico, o uso de anticolinérgicos tópicos ou sistêmicos é citado como opção terapêutica para o alívio da dispneia em pacientes com secreção abundante. A conduta é, portanto, não apenas possível, mas recomendada, sempre com o objetivo de conforto e alívio de sintomas, alinhada aos princípios que regem o controle sintomático em cuidados paliativos.
A pegadinha que a banca poderia explorar aqui seria a confusão entre o uso de anticolinérgicos para secreção e o uso de mucolíticos (como N-acetilcisteína) ou expectorantes, que aumentam a fluidificação e a eliminação de secreção — o oposto do que se deseja no paciente terminal, onde o objetivo é reduzir a produção. Outra confusão possível seria pensar que a secreção deve ser tratada com antibióticos, o que não se aplica quando não há infecção. A questão, porém, é direta: ela afirma que pacientes terminais com acúmulo de secreção podem ser tratados com anticolinérgicos — e isso é verdadeiro.
A banca poderia tentar confundir o candidato fazendo-o pensar que o tratamento da secreção seria com mucolíticos ou com aspiração frequente. Mas o princípio do cuidado paliativo é o conforto: os anticolinérgicos reduzem a produção de secreção, enquanto os mucolíticos a fluidificam (o que pode até piorar o desconforto). Guarde essa distinção: no fim de vida, o objetivo é diminuir a secreção, não aumentá-la.
A afirmativa está correta. O uso de anticolinérgicos (escopolamina, glicopirrônio, atropina) é a conduta farmacológica de primeira linha para o controle do acúmulo de secreção em vias aéreas de pacientes em fase terminal. Esses fármacos reduzem a produção de secreções pelas glândulas salivares e brônquicas, aliviando o desconforto respiratório e o ruído angustiante conhecido como "chocalho da morte". A conduta está alinhada ao princípio do controle de sintomas, pilar central dos cuidados paliativos, e é amplamente recomendada pela literatura especializada.
Gabarito: CERTO
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